segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Baixa representatividade social dos partidos dificulta renovação

Liliana Lavoratti
DEU NA GAZETA MERCANTIL


A recondução do senador José Sarney (PMDB-AP) e do deputado Michel Temer (PMDB-SP) para a presidência do Senado e da Câmara, respectivamente, expressa a dificuldade que o sistema político brasileiro apresenta em produzir lideranças novas. Existem várias razões para que isto ocorra. A baixa representatividade social dos partidos e dos políticos é a principal delas. Desta forma, não surgem lideranças autênticas que sejam expressão de setores sociais importantes.

Essa é a opinião do analista político Aldo Fornazzieri, diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). "As lideranças, via de regra, se formam no âmbito dos aparelhos institucionais e partidários. Mas como esses aparelhos são dominados por oligarquias políticas, ou seja, por um pequeno número de chefes que se perpetuam no comando, o processo de ascensão de novos líderes fica bloqueado", argumenta.

No caso da Câmara e do Senado, esta ascensão de novas lideranças é ainda mais difícil. Segundo Fornazzieri, ocorre ali uma divisão bem clara de papéis e funções. "Por um lado, temos um alto clero que faz rodizio na ocupação dos principais cargos do Legislativo; por outro, existe a massa de deputados e senadores que pertencem ao baixo clero. Para estes sobram migalhas no banquete da celebração política. Somente o alto clero projeta fama, luzes e atenção. Neste contexto, não há nenhum segredo na recondução de Sarney e Temer", critica o analista.

Integrantes da elite

Segundo Fornazzieri, Sarney e Temer "são políticos experientes que há anos fazem parte da elite política da Câmara e do Senado". Os dois ocupam o cargo pela terceira vez. Sarney, um dos políticos mais influentes da política brasileira - foi deputado federal, governador e presidente da República - está no quarto mandato de senador. Temer está no sexto mandato de deputado federal. O analista acredita que, enquanto o sistema político não for capaz de resolver o problema da efetiva representação social dos partidos e dos representantes políticos, o processo de renovação e de projeção de novas lideranças autênticas sempre será sofrível.

Na avaliação do cientista político do Ibmec de São Paulo, Carlos Melo, a crise de lideranças no País se reflete neste momento de desaquecimento da atividade econômica. Hoje, observa, o mercado e os agentes econômicos em geral, que sempre refutaram a interferência dos políticos e do Estado no setor privado, agora precisam de uma instância que coordene as ações e, em tese, quem deveria fazer isso são os governantes e políticos.

Ainda de acordo com Melo, a situação é tão crítica que nem mesmo o presidente Lula - cuja popularidade, de 84%, segundo a última pesquisa CNT-Sensus, é inédita no Brasil recente - consegue exercer uma liderança compatível esse grau de aceitação perante a população. "Pelo contrário, tivemos recentemente a barbeiragem do governo federal na medida que pretendia restringir as importações. Dias depois, a equipe econômica voltou atrás. Isso demonstra falta de rumo", afirma.

"Se houver alguma aceleração das reformas pendentes, como as tributárias e trabalhista, é a própria crise que vai impor, não porque os dirigentes políticos vão encabeçar uma agenda positiva para o momento", acentua Melo, que participa em São Paulo do Grupo Novos Líderes, formado por jovens interessados no tema. "Os jovens românticos das décadas de 60 e 70 não estão mais na política; os partidos renovaram quase nada de seus quadros dirigentes. Quem seriam as novas lideranças do futuro próximo?", questiona.

Melo lembra que da geração de 1964, por exemplo, o único remanescente é o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que tem em 2010 sua última chance de chegar à presidência da República. Da leva de políticos surgidos na redemocratização, a maioria já está com idade avançada ou perto disso, caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva", afirma o analista."E o pior é que existem exceções, mas elas são engolidas por esse sistema viciado e o que fica para a população é o corregedor da Câmara que não quer corrigir nada", afirma, referindo-se à denúnica contra o deputado Edmar Moreira (DEM-MG), devedor da Previdência Social e que não teria declarado ao Imposto de Renda um castelo de sua propriedade.

Continuidade disfarçada

E qual é a percepção de quem está dentro da política? Para a deputada estadual Maria Lucia Amary (PSDB), de Sorocaba, interior de São Paulo, que está na metade do segundo mandato na Assembléia Legislativa paulista, e uma lideranças em ascensão no partido, os vícios no processo político são de toda ordem. Vice-líder do governo e líder da bancada tucana no Legislativo estadual, ela é relatora de uma mudança na constituição estadual para modernizar o regimento da Casa, feito trinta anos atrás. "As estruturas do sistema político em geral não facilitam uma maior oxigenação do poder, inclusive o surgimento de lideranças", diz.

Embora considere relevante a experiência acumulada pelos dirigentes que ficam um longo tempo nos postos de comando, seja dos partidos, do Executivo ou Legislativo, Amary acredita que alguns vícios podem ser extirpados se houver maior espaço para lideranças comprometidas com uma nova maneira de fazer política. "A reeleição do senador José Sarney e do deputado Michel Temer para o Senado e a Câmara são uma prova de que quase sempre os mesmos se alternam no poder, numa continuidade disfarçada", ressalta a parlamentar tucana.

Segundo ela, dificilmente ocorre uma alternância na condução do poder, inclusive em nível interno das estruturas partidárias. "São os mesmos candidatos que se revezam nos mesmos cargos e dificilmente tem espaço para um nome novo. E não é por menos que existe um estrangulamento de candidaturas, pois as lideranças estão no mesmo patamar. Desse jeito não emerge um nome com força eleitoral para se sobressair naturalmente em relação aos demais", diz a deputada, referindo-se à disputa em curso no interior do PSDB paulista para a definição da candidatura à sucessão do governador Serra.

O ex-governador e recentemente nomeado secretário estadual de Planejamento, Geraldo Alckmin, Aloísio Nunes Ferreira (secretário da Casa Civil), o vice-governador, Alberto Goldman, e o líder da bancada tucana na Câmara, deputado José Aníbal, pleiteiam a vaga. "E se falarmos da situação das mulheres nesse jogo, aí é que o quadro fica dramático", acrescenta Amary.

PMDB elege a maioria dos presidentes das Assembleias

Felipe Bächtold e Sílvia Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Após assumir o Senado e a Câmara, partido está no comando da maioria das Casas

PMDB e PSDB ganham cada um sete presidências de Assembleias; quase todos os governadores conseguem emplacar aliados nas Casas

Agora no comando integral do Congresso, o PMDB é também o partido que mais elegeu presidentes das Assembleias Legislativas, ao lado do PSDB. Nos 26 Estados e no Distrito Federal, os dois partidos elegeram cada um sete presidentes de Assembleias.

A maior parte das eleições para o cargo ocorreu no último fim de semana. O PMDB obteve quatro presidências onde já tinha também o governador (AM, MS, RJ e TO), em dois Estados governados pelo PT (PA e PI) e no Ceará. Só a Assembleia do Rio tem orçamento anual de R$ 500 milhões.

Em 2007, quando foram feitas as eleições anteriores para o comando das Casas, o PMDB conseguiu oito presidências, contra seis dos tucanos. A baixa ocorreu no Espírito Santo, onde o presidente da Assembleia, que era do PMDB, renunciou para assumir a prefeitura de Linhares.

Um deputado do DEM foi eleito para o cargo.

Para o presidente da Assembleia do Piauí, Themístocles Filho (PMDB), o domínio do partido é consequência da tradição da sigla de eleger grandes bancadas. O deputado, porém, afirma que, no Estado, "como em quase todo o Brasil", o PMDB é "meio dividido".

Em Estados como Piauí e Santa Catarina, nas eleições do fim de semana, o presidente da Assembleia Legislativa foi eleito por unanimidade. Quase todos os governadores pelo país conseguiram emplacar aliados nas presidências.

Aliados dos governadores

No comando do Legislativo, os aliados podem acelerar ou frear a tramitação de projetos de interesse dos governantes. Também têm como retardar a instalação de CPIs.Os acordos para a eleição dos presidentes incluíram até a articulação a favor de um deputado tucano por um governo petista. Na Bahia, onde o governador é Jaques Wagner (PT), foi reeleito para o cargo o deputado Marcelo Nilo (PSDB). Os dois partidos são aliados locais.

A exceção foi o Rio Grande do Sul. O PT, que já teve cinco governos no Estado e atualmente faz oposição a Yeda Crusius (PSDB), conseguiu pela primeira vez o comando da Assembleia Legislativa.

No Paraná, o presidente Nelson Justus (DEM) se diz independente. O partido dele faz oposição a Roberto Requião (PMDB) no Estado, mas Justus diz que é "amigo" do governador e que atuou na eleição dele.

No Maranhão, o deputado estadual Marcelo Tavares (PSB), ex-líder do bloco de sustentação do governador Jackson Lago (PDT) e sobrinho do ex-governador José Reinaldo Tavares (PSB), assumiu anteontem a presidência da Casa. Para Tavares, é "natural" que a presidência do Legislativo seja ocupada por aliados dos governadores em exercício.

"Quando um governador ganha uma eleição, a tendência é que o grupo político dele eleja também a maior bancada. Como o bloco majoritário elege o presidente, é natural que ele seja aliado do governador", diz. Apesar da proximidade com Jackson Lago, ele diz que não há "atrelamento" ao Executivo.

Dois deputados começaram seus quartos mandatos seguidos como presidentes da Casa: Jorge Picciani (PMDB), no Rio de Janeiro, e Mecias de Jesus (PR), em Roraima.

Em São Paulo, a definição sobre o cargo vai ocorrer em março. Mas já está certo que o presidente será do PSDB, partido do governador José Serra, que conta com o maior número de deputados.

Governador do Rio, Sérgio Cabral busca a reeleição em 2010 e corteja o PT

Heloisa Magalhães e Ana Paula Grabois, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Cabral aposta em aliança com PT no Rio

Aliado político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do Rio, Sérgio Cabral, (PMDB) pretende se candidatar à reeleição em 2010 e aposta em dobradinha com o PT. "O presidente resumiu essa história num papo informal. Ele disse assim: o Rio vive um momento extraordinário e que não será resolvido em quatro anos. E é o primeiro a me estimular a continuar aqui", disse o governador, em entrevista ao Valor.

No ano passado, Cabral ganhou evidência no PMDB e seu nome chegou a ser cotado para ser vice na chapa do PT ou até mesmo do PSDB à Presidência da República, mas agora ele defende que o vice da virtual candidata petista à Presidência, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, seja um político do Norte ou do Nordeste do seu partido. "Defendo que o PMDB, que tem cinco ministérios que não são triviais - Saúde, Minas e Energia, Agricultura, Integração e Comunicações - apoie Dilma. O presidente Lula tem mostrado enorme manifestação de respeito ao partido, não é aquela coisa fisiológica, atrasada, é de discutir políticas públicas. O Lula dá dignidade ao partido. A integração com o PT na Câmara foi extraordinária; no Senado, houve um ruído, mas com o Sarney (José Sarney, recém-eleito presidente do Senado), deve voltar."

O governador do Rio descarta que o PT do Rio lance um nome para o governo do Estado em 2010. Mas um dos nomes mais cotados dentro do partido é o de Lindberg Farias, prefeito reeleito de Nova Iguaçu, município da pobre Baixada Fluminense. AoValor, Lindberg, ex-líder estudantil dos caras-pintadas, disse: "Sou pré-candidato ao governo do Rio. Não existe melhor nome para o vice da Dilma do que o governador Cabral, não há outro nome de peso no PMDB".
Para Cabral, entretanto, Lindberg já teria desistido do projeto e deve tentar uma vaga no Senado. "Não acredito que o PT tenha um candidato para o Rio. Acredito que o PT vá marchar conosco na reeleição". Cabral avalia que o PT, além de Lindberg, tem outros dois pré-candidatos ao Senado, a secretária de Ação Social do Estado, Benedita da Silva, e o ministro da Igualdade Racial, Edson Santos.

Com pouca capacidade financeira de investimento, Cabral tem recebido generoso apoio federal. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Estado - urbanização de favelas, saneamento na Baixada Fluminense e construção do arco rodoviário metropolitano - somam R$ 3,6 bilhões em investimentos, mas o Estado vai financiar apenas cerca de 20%. O restante vem do governo federal, que também tem apoiado Cabral em iniciativas diversas, como os projetos em favelas do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

Cabral deve usar o capital político de Lula na campanha, mas diz que vai explorar ações nas áreas de Educação, Saúde e Segurança, além do que chama de "mudança de atitude" na gestão, após dois governos do casal Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, ambos do PMDB.

Mas o governador tem que trabalhar a imagem. Seu candidato, Eduardo Paes, foi o vencedor mas enfrentou disputa acirrada contra Fernando Gabeira (PV), na eleição da capital, em 2008.

A diferença foi apenas de 55 mil votos num total de 3,6 milhões eleitores que compareceram às urnas. Entretanto, Cabral frisa que, por princípio, não faz propaganda. Avalia que a população vai aos poucos identificar as ações de seu governo.

"Se o P-SOL ou o PSTU forem na porta de uma escola fazer discurso dizendo que o salário do professor é ruim, as condições das escolas são precárias, vai ter gente aplaudindo. Mas os professores também vão ver na bolsa deles o laptop com acesso à internet (disponibilizado pelo governo do Estado) e lembrar que há 12 anos não tinham reajuste tiveram no ano passado, no retrasado e terão este ano. Quando chegar em casa vão pensar no que ouviram e avaliar", diz .

Na conversa com o Valor informou que nos próximos três meses 12 mil salas da rede estadual terão ar-condicionado e 16 mil computadores portáteis, de um total de 60 mil, começam a ser entregues na próxima semana. As salas de aula terão sistema de autofalante para os professores.
Na saúde, cita a implantação das Unidades de Pronto-Atendimento (Upas), espalhadas pelo Estado, que funcionam 24 horas. Foram ponto alto da campanha do prefeito Eduardo Paes.

Na política de Segurança, a mais controversa do seu governo, Cabral defende a manutenção do enfrentamento em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e pela milícia. Ao mesmo tempo, vai adotar o policiamento comunitário e ações de integração propostas pelo Pronasci.

"A minha tese sempre foi que há dois tipos de violência nessas comunidades. A do traficante e do miliciano dominando, ditando as regras. A outra é a ausência do Estado em saúde, educação, tratamento sanitário, cultura e lazer. Nós estamos agindo nas duas frentes", disse.

Na avaliação da equipe de Cabral, o Rio irá sofrer menos com a crise econômica internacional. Joaquim Levy, secretário de Fazenda admite cortes no Orçamento, de R$ 46 bilhões, que haverá queda na arrecadação do ICMS e redução das transferências dos royalties do petróleo de R$ 1,5 bilhão. Mas argumenta que o Rio sofrerá menos porque a participação na economia fluminense, da indústria de transformação, segmento atualmente mais afetado pela crise, é menor do que em outros Estados como São Paulo e Minas.

Julio Bueno, secretário de Desenvolvimento, destaca os efeitos positivos da exploração do petróleo na camada do pré-sal. Reconhece que o processo de perfuração é de longo prazo mas diz que antes disso começarão os investimentos de fornecedores de equipamentos e serviços. Bueno garante que os investimentos privados previstos no Estado estão mantidos mas não descarta que a crise pode adiar novos projetos.

Renda básica na política

Marina Silva
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

HÁ UM QUASE consenso de que a política brasileira precisa de mudanças profundas. São várias as receitas, desde implosão total até uma reforma empacada há tanto tempo que o problema parece estar menos nas regras e mais na cultura política, obcecada pelo poder como objetivo em si.

Nosso sistema político se descola perigosamente da função de fazer a mediação entre ideais e a vida real. Não consegue enxergar além dos conflitos intra e interpartidários, das artimanhas eleitorais, das disputas irracionais e da gana de impor derrotas ao adversário, ao custo, às vezes, do próprio interesse nacional.

Há saídas, e senti isso na negociação das comissões no Senado, com parlamentares de vários partidos dispostos, acima de suas demandas, a preservar pilares democráticos, tais como os direitos da minoria.

Dois partidos, PT e PSDB, têm responsabilidades específicas para aprofundar esse caminho.

Desde o final do regime militar, têm sido as forças mais estáveis no comando do país e, talvez até por isso, identificaram-se com projetos nacionais, mais do que os outros grandes partidos.Por vários motivos, de PT e PSDB se esperariam limites à guerra política, mas há exemplos, de parte a parte, de comportamento contrário. Erram quando se recusam ao diálogo sistemático em questões cruciais e são vítimas da própria armadilha: no governo ou na oposição, têm que se aliar indiscriminadamente.

Se mantivessem pontos de contato, dificilmente se tornariam reféns de maiorias indefinidas e, muitas vezes, inconsequentes. A permanente possibilidade de aliança entre ambos equilibraria os acordos políticos em geral, atraindo quadros responsáveis do PMDB, do DEM, do PV, do PDT, do PSB -de todos, enfim- e reduzindo a margem de casuísmos.

Unidos pelo resgate da política e por meio de um alinhamento ético, PT e PSDB contribuiriam para catalisar o que há de melhor em todos os partidos, em benefício de si mesmos, dos demais e, principalmente, do país.

Parafraseando o senador Suplicy, seria uma espécie de renda básica da governabilidade, assegurando o interesse nacional acima de agendas partidárias e disputas de data marcada. E isso é possível. Arriscado é nos enredarmos no passado, fazendo de conta que estamos com os olhos no futuro. O futuro exige, no presente, política de futuro: madura, menos mesquinha, apta a enfrentar tempos de instabilidade e vulnerabilidade.

Se PT e PSDB serão duas grandes forças nas eleições de 2010, que comecem a definir agora os seus próprios termos de referência para que elas aconteçam, de fato, em torno de projetos para o Brasil.

MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.

São Paulo: grandeza e humildade

Alberto Goldman
Vice-governador do estado de São Paulo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Qual a razão da pujança do Estado de São Paulo? Bem, isso faz parte de trabalhos bastante conhecidos sobre a formação econômica do Brasil. Lá aprendemos que a cultura do café, face à existência de boas terras em São Paulo e de uma demanda mundial crescente, tornando-se o principal produto de exportação do país, atraiu para o Estado a mão-de-obra necessária para o cultivo do produto. Assim, entre as diversas razões do desenvolvimento de São Paulo, talvez a mais significativa tenha sido o conjunto de imigrações e migrações que povoaram o estado.

Depois da abolição da escravatura, em 1888, a opção foi a imigração em massa para substituir o trabalho escravo. Embarcados na terceira classe dos navios, em precárias condições, vieram os italianos que fugiam da pobreza em seu país, em busca de um chão de terra para produzir ou de um emprego modesto na nascente indústria. Vieram os japoneses, atraídos pelo enorme espaço para ser plantado e colhido. Vieram árabes e judeus, em busca da América, o novo mundo. Vieram portugueses e espanhóis, deixando seus países em busca de melhores oportunidades.

Assim, São Paulo, capital do estado, tornou-se a terceira maior cidade italiana do mundo, a maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade libanesa fora do Líbano, a maior cidade portuguesa fora de Portugal e a maior cidade espanhola fora da Espanha. A partir de 1887, só pela Hospedaria do Imigrante — conjunto de alojamentos em São Paulo — passaram perto de 3 milhões de pessoas. Qual era o diferencial desses imigrantes? Era que, apesar de pobres, carregavam culturas milenares que lhes possibilitaram trabalhar e crescer socialmente. E, finalmente, vieram os migrantes nordestinos, castigados pelo clima e pelos coronéis, que encontraram em São Paulo o seu ganha-pão. Tudo isso, mesclado às populações indígenas nativas e aos escravos africanos, formou uma população mestiça que se chama hoje de paulista, ou melhor, o brasileiro de São Paulo. Meu pai, judeu imigrante da Polônia, sempre abençoava o país que lhe permitiu construir uma vida decente e uma família feliz. Mas nunca se referia a São Paulo, sempre ao Brasil.

A mistura de raças, etnias e culturas é a razão do dinamismo de São Paulo e marcou profundamente a vida econômica, social e cultural do estado. Suas terras férteis, suas indústrias de alto desenvolvimento tecnológico, seu porto marítimo, os investimentos estrangeiros e, posteriormente, estatais, em ferrovias e energia elétrica, seus hospitais de referência e suas consagradas universidades, sustentados pelo orçamento do estado e abertos a todos, transformaram São Paulo nesse pedaço vibrante do Brasil. O brasileiro que mora lá só é paulista por determinação geográfica. Por isso, em São Paulo, não existe o bairrismo. E talvez por isso mesmo, quando nós, os paulistas, nos atiramos na vida política, vemos mais o Brasil em toda sua dimensão do que os limites de uma província, por mais importante que seja e por mais que a amemos.

São Paulo sempre teve forte presença nacional em virtude do seu potencial econômico. Nada mais natural. Mas desde 1930, após o paulista Julio Prestes, nunca houve um paulista na Presidência da República. Foram cariocas, gaúchos, mineiros, nordestinos. Jânio Quadros, Fernando Henrique Cardoso e Lula, ainda que tenham feito carreira política em São Paulo, nasceram em outros estados. Tão avessos os políticos paulistas são ao provincianismo e ao racismo que a cidade de São Paulo elegeu como seu prefeito Celso Pitta, negro e carioca.

Um fato recente ilustra essa conduta dos paulistas. Quando, em 1986, ao fim da ditadura, procurava-se o melhor nome das forças democráticas para enfrentar o paulista Paulo Maluf, a escolha foi coordenada por dois homens que eram os maiores símbolos da luta democrática: Ulisses Guimarães, o comandante da oposição ao regime militar, e Franco Montoro, o governador de São Paulo, que tinha, sabidamente, o maior apoio popular. Mas, com a visão de estadista, no interesse do Brasil e da transição democrática, Montoro articulou a escolha do mineiro Tancredo Neves que, com total apoio dos paulistas, venceu o pleito. São Paulo é assim: grandeza e humildade.

A origem geográfica do brasileiro que deve presidir o Brasil não tem qualquer importância. Importância, sim, tem sua história, seu espírito público e sua capacidade de dirigir o país.

Os EUA não eram os culpados?

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Os últimos números mostram que a queda na atividade econômica, no último trimestre de 2008, foi extremamente forte nos países ricos da zona do euro e nos asiáticos. Na verdade, muito mais forte que nos EUA.

Quanto ao futuro próximo, análises do FMI sugerem que a recessão será mais profunda nos europeus e asiáticos do que nos EUA. E, finalmente, que os EUA devem se recuperar mais rapidamente que os outros países ricos.

Não era para ser o contrário?

Quando a crise começou, parecia que era "apenas" dos EUA, mais exatamente do modelo de capitalismo americano, mais aberto, menos regulamentado. Governantes dos países da zona do euro e asiáticos, com seus modelos de maior intervenção estatal, apressaram-se em recriminar os colegas americanos. "Parece que os professores estão com alguns problemas", comentou o primeiro-ministro da China. "A era do laissez-faire acabou", decretaram os presidentes do Brasil, Lula, e da França, Nicolas Sarkozy. Ambos diziam que seus países estavam relativamente bem protegidos.

Não era bem assim. A crise avançou, atingiu a todos e mostrou-se mais virulenta ainda fora dos EUA. Mesmo assim, todos continuaram a pôr a culpa no modelo americano, que teria contaminado os demais. É fácil fixar a culpa dos excessos financeiros de Wall Street e da falta de regulamentação pelo governo americano. Até Allan Greenspan acha que algo saiu muito errado com o sistema financeiro.

Mas os problemas não ficam por aí. A crise atingiu a economia real do mundo todo. E como foi isso? Os americanos, de novo - diz, por exemplo, o argumento chinês. É um argumento que traz certo rancor, algo mais ou menos assim: então a China aceita seu papel de exportador na globalização, sacrifica os consumidores nacionais para gerar excedentes de exportação e, quando está tudo funcionando bem, o "grande consumidor" - o americano, é lógico - simplesmente quebra e desaparece dos shoppings?

Lembram-se do varejo de antigamente, pequenas lojas, sempre operadas pelos seus donos? Lembram-se de como o vendedor ficava furioso com o freguês que não comprava nada? É como os chineses - e todos os asiáticos do modelo exportador - parecem estar se sentindo.

Números justificam essa bronca. No último trimestre de 2008, a China cresceu praticamente zero, um desastre para um país acostumado a taxas anuais de expansão acima dos 10%. As exportações caíram pela primeira vez na história moderna. E o Japão, precursor do modelo exportador? No último trimestre do ano passado, o produto caiu a uma taxa anualizada de 10%. Sabem o que é isso, encolher 10%? E as exportações de dezembro foram nada menos que 35% menores do que as do mesmo mês de 2007.

Quase tudo porque os americanos, excessivamente endividados e tendo perdido a riqueza que estava na bolha financeira, reduziram drasticamente os gastos.

Tudo se passa como se os asiáticos tivessem sido obrigados a assumir esse papel. Não foram, é claro. Eles apenas perceberam, muitos anos atrás, que esse era o melhor atalho para crescer rapidamente e, sim, enriquecer. Com aqueles salários baixos? É a justa pergunta.

Mas salários baixos numa fábrica de Barbies ainda era melhor que a miséria da zona rural. E depois, olhando para a frente, sempre havia o exemplo do próprio Japão: começou do mesmo modo, apenas exportador, com salários de fome e, pouco a pouco, à medida que o país ia ganhando dinheiro, foi mudando para um modelo que incluiu salários mais altos, mais consumo, mais bem-estar.

Mas não houve tempo para a China e os demais asiáticos. (Houve, em boa parte, para a Coreia do Sul, que continua exportadora, mas com um padrão de vida mais perto dos ricos.)

Que fazer? Se a recuperação dos EUA e do Ocidente rico e consumidor demorar, a China e os demais terão de começar a mudar o modelo desde já. Em outras palavras, criar mecanismos para aumentar a renda e o consumo internos e tornar a economia mais balanceada. Ou seja, eles precisam aproximar mais seu modelo do... americano! Essa crise é surpreendente todo dia.

Metrô de Serra no PAC de Dilma - O governo federal incluiu no PAC um investimento de R$ 1,9 bilhão no Metrô de São Paulo, por entender que se trata de verba federal. Eis os detalhes: R$ 1,6 bilhão corresponde a um empréstimo do BNDES. Como o BNDES é federal - tal é o argumento -, pode-se dizer que se trata de dinheiro de Brasília e, pois, o Metrô pode ser incluído no PAC. Os outros R$ 300 milhões correspondem a um repasse de Brasília à companhia paulista que constrói o metrô. Logo, é PAC de novo.

Mas, olhando bem os dados, a história sai um pouco diferente. O empréstimo do BNDES é mais que antigo. É do início dos anos 90 (governo Fleury!) e vem sendo utilizado pelo governo paulista desde então. Incluir isso no PAC como investimento novo é, no mínimo, forçar a barra. Além disso, se todos os empréstimos da carteira do BNDES devem ser postos como "dinheiro de Brasília", então Lula e a ministra Dilma estão bobeando: o PAC pode ir a trilhões de reais, ficar maior que o plano de Barack Obama.

Finalmente, quanto ao repasse dos R$ 300 milhões, trata-se de uma espécie de devolução. Nas diversas transações entre os governos paulista e federal, ficou uma sobra de R$ 300 milhões a favor de São Paulo. Que foi destinada ao Metrô.

Tudo considerado, na eleição de 2010 haverá o metrô da Dilma e o metrô do Serra. Cada qual tentando convencer o eleitor.

Desde Jesus Cristo - O senador republicano Mitch McConnell encontrou uma boa maneira de mostrar que o presidente Obama quer gastar muito dinheiro. Disse: "Se você tivesse começado no dia em que Jesus Cristo nasceu e tivesse gasto US$ 1 milhão por dia, não dava o Plano Obama." Pode fazer as contas: 2008 anos vezes 365 dias dá exatos US$ 732,92 bilhões.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Brasil na frente

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Um Estado do bem-estar social precisa ser eficiente para ser legítimo; precisa, portanto, realizar a reforma gerencial

O GOVERNO federal está empenhado em dar continuidade à reforma gerencial do Estado de 1995 -uma reforma que visa tornar o serviço público mais eficiente, dessa forma legitimando as ações do Estado na área social e científica. Nesse sentido, vem tomando uma série de providências, entre as quais o projeto de lei criando as fundações estatais e, agora, por meio do envio ao Congresso de mais dois projetos de lei, um deles promovendo a desburocratização do atendimento aos cidadãos e outro regulamentando o artigo da Constituição que prevê os contratos de desempenho ou de gestão.

Essa reforma começou em 1995 e inicialmente foi objeto de rejeição da parte do PT e do funcionalismo público porque a muitos parecia ser uma reforma neoliberal. Entretanto, aos poucos foi ficando claro que não se tratava disso. Que seu objetivo não era diminuir e enfraquecer o Estado, mas ao contrário, fortalecê-lo, ao tornar os administradores públicos mais autônomos e mais responsáveis e ao possibilitar que as agências estatais ou paraestatais (organizações sociais) pudessem ser liberadas de uma parte dos controles burocráticos. Por meio da substituição de regulamentos rígidos por contratos de gestão flexíveis, a reforma visava tornar o aparelho do Estado brasileiro forte no plano administrativo, como a Lei de Responsabilidade Fiscal o tornava forte no plano financeiro. O fato de que a instituição internacional responsável pelas reformas neoliberais, o Banco Mundial, tenha se oposto à reforma brasileira porque era preciso que "antes fosse completada a reforma burocrática" é a melhor comprovação de que não se tratava de uma reforma neoliberal. A alta administração pública e a sociedade brasileira foram tomados de surpresa pela reforma, em 1995, mas não demoraram a apoiá-la -a primeira por compreender que ela prestigiava os servidores dotados de espírito republicano, a segunda porque em todos os países a grande maioria da população demanda sempre maiores e melhores serviços públicos.

O projeto de lei do Ministério do Planejamento regulamentando os contratos de desempenho é coerente com os princípios da reforma da gestão pública ou a reforma gerencial. Esse projeto define com clareza os contratos, estabelece as responsabilidades da comissão supervisora dos contratos em cada ministério e as responsabilidades dos gestores das agências. E garante a essas uma maior autonomia administrativa, inclusive para pagar bônus de desempenho para os servidores das agências que tenham atingido as metas contratadas.

A reforma gerencial é a segunda grande reforma administrativa do Estado moderno. A primeira foi a reforma burocrática, que, nos países desenvolvidos, necessitou de 30 a 40 anos para poder ser considerada completa. A reforma gerencial de 1995 também necessitará desse tempo. O importante, porém, é que ela continue a ser realizada. Isso passou a acontecer imediatamente nos Estados da Federação e nos municípios, onde avanços extraordinários estão acontecendo, mas agora ela está ganhando momento também no nível federal. Esse fato não é surpreendente porque essa é uma reforma inevitável. O Estado moderno não é apenas democrático, é também social. Um Estado do bem-estar social, porém, precisa ser eficiente para ser legítimo. Não tem, portanto, alternativa senão realizar a reforma. O Brasil foi o primeiro país em desenvolvimento a iniciar uma reforma gerencial e, nesse campo, está hoje na frente de muitos países ricos.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Mercados e cultura corporativa

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Confrontando em artigo na imprensa, em 2001, o Fórum Econômico Mundial de Davos e o Fórum Social Mundial, que se realizava então pela primeira vez em Porto Alegre, destaquei, a propósito de manifestações de políticos brasileiros em que se apontava certo esquerdismo ingênuo na promoção do FSM, que uma perspectiva "realista" sem dúvida favorecia Davos no confronto de ambos. O noticiário a respeito do encontro de Porto Alegre exibia de novo o conjunto variado de ativistas que se vinha tornando habitual nos protestos ensejados por reuniões de entidades como o Banco Mundial ou a Organização Mundial do Comércio: sindicatos trabalhistas, ONGs ambientalistas, defensores dos direitos dos consumidores, movimentos anti-imperialistas ou antiglobalização, feministas, gays, lobbies agrícolas... Davos era, naturalmente, o encontro do establishment do capitalismo mundial então dinâmico e vitorioso, onde se reafirmavam com força o receituário liberal, com suas asperezas hipercompetitivas, e as restrições ao Estado. Já os participantes do FSM não tinham em comum, ainda assim com reservas, senão o utopismo da referência algo desorientada a valores solidários e a instrumentos organizacionais, em particular o Estado, capazes de eventualmente assegurar a coordenação necessária à busca dos objetivos coletivos que se ligam àqueles valores.

Algumas observações, contudo, pareciam justificar-se. Em primeiro lugar, sejam quais forem as condições da realidade a que uma postura "realista" nos convida a atentar, não se pode pretender calar a expressão de valores que, como tal, se oponham a elas. Além disso, não cabe tampouco desqualificar sem mais as chances de que a afirmação de valores alternativos venha ajudar a alterar a própria realidade, como ilustrado pela história da socialdemocracia, no plano doméstico de diferentes países, ou pela difusão internacional da sensibilidade aos temas ecológicos em concomitância com a própria afirmação da lógica competitiva da globalização. Finalmente, há a ironia de algo destacado então em entrevista dada por George Soros em Davos: os países capitalistas centrais, onde mais claramente se afirmaram a globalização e os processos valorizados na perspectiva liberal, seriam aqueles a contar com Estados capazes de executar as políticas de coordenação de que, na verdade, não se poderia prescindir.

Parece claro, a julgar pelo que vimos em Belém, que o FSM segue utópico e marcado por radicalismos confusos. Mas é patente a necessidade de rever a idéia de "realismo" com respeito a Davos e ponderar suas dificuldades. "Realismo" sugere apreensão adequada da realidade, salientando em particular a capacidade de atentar para verdades desagradáveis. Se a busca do "outro mundo possível" do FSM tende a ser desatenta às constrições do mundo real, muitas das ideias liberais triunfantes de anos atrás que Davos sempre festejou se mostram agora como ilusões ideológicas, incluídos com destaque os supostos relativos ao papel do Estado. Nessa ótica, o que melhor resiste quanto à leitura do ponto de vista de Davos contida em meu texto de 2001 é o reconhecimento, expresso por Soros, da necessidade de coordenação estatal. Não obstante, é evidente, agora, o erro da aposta na capacidade de ação efetiva por parte dos Estados dos países capitalistas centrais: se a crise atual há de solucionar-se e se vamos poder evitar a repetição de crises análogas (ou o refluxo da globalização sugerido por medidas protecionistas que ameaçam difundir-se...), é indispensável que mecanismos de coordenação governamental venham a atuar no nível transnacional em que têm operado os mecanismos de mercado.

Do ponto de vista da afirmação de valores, porém, a crise atual traz algo mais, que surpreende pelo alcance do consenso que produz, juntando, na verdade, a turma do FSM à opinião pública mundial, incluindo sem dúvida a dos países centrais. Refiro-me à forte condenação da atuação dos protagonistas do mundo financeiro e, em geral, da "cultura corporativa" vigente, para tomar expressão usada no noticiário dos últimos dias para designar o que as iniciativas recentes do presidente Obama vêm procurando mudar. Naturalmente, trata-se, por um lado, da especulação gananciosa e inventiva que surge com realce entre as próprias causas da crise. Mas trata-se também, por outro lado, do que se revela, em especial, na naturalidade com que altos executivos de empresas beneficiadas por programas generosos de ajuda pública se dispõem a apropriar-se de bônus milionários ou a gastos empresariais luxuosos, em circunstâncias em que os contribuintes de que provêm os recursos são pesadamente afetados pelas decisões pouco prudentes, em muitos casos, dos mesmos personagens.

Que conexões haverá entre a "cultura" que aí aparece e o tema da corrupção, que tendemos a ver como dizendo respeito apenas a países institucionalmente menos desenvolvidos? Por certo, seria possível tratar de apontar matizes morais entre os dois casos distinguidos - e não há dúvida de que, em termos de legalidade, há matizes que os colocam a ambos à parte dos casos de fraude inequívoca ilustrados exemplarmente por Bernard Madoff. Mas é notável que o extenso repúdio a certo relaxamento que permite a todos florescerem já encontre reações conservadoras vocais, em que o mercado, com todas as assimetrias e desigualdades que traga, é simplesmente assimilado à democracia, e em que, como diz Thomas Frank no "Wall Street Journal" de 4 de fevereiro, citando David Brooks, a "ira populista" atual nos Estados Unidos não é senão "o ressentimento de washingtonianos de classe média que de repente se descobriram no comando do mundo".

De todo modo, assim como há Estados e Estados, há também mercados e mercados. Que os Estados melhorem (ou se expandam ao nível necessário), com boas leis, agentes e fiscais, e quem sabe melhorem também culturas e mercados. Quem viver verá.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Um golpe nos negócios

Bruno Villas Boas
DEU EM O GLOBO

Com crise, número de fusões e aquisições caiu 40% no país de outubro de 2008 a janeiro deste ano

O agravamento da crise econômica mundial, em meados de setembro de 2008, derrubou as operações de fusões e aquisições de empresas no Brasil em cerca de 40% até janeiro, revelam dados antecipados ao GLOBO pela consultoria PricewaterhouseCoopers. Entre outubro do ano passado e janeiro deste ano, foram realizadas 157 transações do gênero no país, ante 259 no mesmo período anterior. Segundo especialistas, o recuo nas transações - que cresciam a um ritmo médio de 35% ao ano desde 2005 - está relacionado aos efeitos da crise, como escassez e encarecimento do crédito, aumento da aversão a risco entre investidores nacionais e estrangeiros e a própria desvalorização das empresas.

Alexandre Pierantoni, sócio da consultoria, afirma que uma série de operações de fusões e aquisições foi adiada ou simplesmente não foi avaliada por causa da piora da crise. Segundo ele, dezembro do ano passado foi o mês mais crítico, com apenas 36 operações, queda de 50% na comparação com igual mês de 2007. Em janeiro deste ano, a queda se manteve forte, de 39%, também com 36 operações anunciadas.

- O ano passado começou bem, mas veio a crise e afetou fortemente o desempenho no ano. Houve uma expressiva redução na participação de investidores estrangeiros. Eles representavam 31% das operações em 2007, mas encerraram 2008 com 27% do total - afirmou Pierantoni.

Segundo a consultoria, o volume de fusões e aquisições caiu 11% no ano passado frente a 2007, passando de 721 transações para 639, após três anos de forte crescimento. O pior desempenho foi puxado pelo quarto trimestre.

Outra consultoria de peso no setor, a KPMG estima uma queda menor nas operações desde a piora da crise: 15%. Entre outubro de 2008 e janeiro deste ano, foram 179 operações, contra 210 de igual período anterior. Os setores de alimentos e bebidas, educação e de shoppings centers foram os que mais desaceleraram, segundo André Castello Branco, sócio de Corporate Finance da KPMG no Brasil.

Para ele, o sumiço do crédito desde meados de setembro do ano passado, após a quebra do banco americano Lehman Brothers, foi o fator mais importante para a queda.

- Com o agravamento da crise, os investidores ficaram mais cautelosos, reduzindo o apetite pelas operações, principalmente entre as companhias estrangeiras - avalia Castello Branco.

Especialista prevê retomada após 2010

Segundo a consultoria, as fusões e aquisições no país envolvendo empresas estrangeiras recuaram de 65 para 53 entre outubro de 2008 e janeiro deste ano, ante igual período anterior. Uma queda de 18,5%, acima da média geral. O número inclui estrangeiros comprando empresas brasileiras ou estrangeiras no país.

Especialistas lembram, no entanto, que os últimos meses foram marcados por transações de grande porte. Mas isso foi possível, lembram, com uma forte atuação do governo, por intermédio do BNDES ou de empresas estatais. Castello Branco lembra o caso da compra do controle da Aracruz pelo grupo Votorantim, por R$5,4 bilhões. A operação contou com participação de R$2,4 bilhões do BNDES. Ou ainda da compra do banco Votorantim pelo Banco do Brasil, negócio avaliado em R$4,95 bilhões.

- É possível que, em valores, tenha havido aumento nas fusões e aquisições, mas não temos como ter certeza disso. É importante frisar que as grandes operações vinham de muito antes da crise ou tiveram forte atuação do governo. É o caso da compra da Brasil Telecom pela Oi - afirma Castello Branco.

Bernardo Gouthier Macedo, sócio-diretor e economista da consultoria LCA, avalia que os movimentos de fusões e aquisições não devem ser retomados antes de 2010. Mesmo com a recuperação do crédito no mercado interno, após a injeção de recursos do Tesouro no BNDES, ele não acredita em uma retomada no curto prazo do crédito estrangeiro.

- O capital estrangeiro foi importante no forte aumento de fusões e aquisições em 2007 e no começo de 2008 - afirma Macedo, para quem outro entrave está na desvalorização das empresas. - Quem estiver em dificuldade, mas não em situação muito difícil, tende a relutar em vender seu negócio, que ficou mais barato após a piora da crise.

Mesma avaliação faz Mauro Guizeline, sócio de área de mercado de capitais do TozziniFreire Advogados. Para ele, o recuo não se resume aos problemas de caixa e crédito nas empresas compradoras. Na outra ponta, os empresários têm evitado vender suas companhias.

- Os empresários têm encontrado dificuldades para avaliar quanto valem suas empresas, já que os preços das ações caíram muito nas bolsas. Eles sabem que a crise uma hora vai passar e as empresas vão novamente se valorizar. Então, vender agora pode significar perder dinheiro - diz.

Para ele, os fundos de investimento - como GP, Gávea, Pátria e Mauá - terão um papel importante no mercado neste ano. Capitalizados, podem ir às compras. Guizeline acredita ainda em um movimento de fusões e aquisições nos setores de alimentos e frigoríficos, etanol e no ramo imobiliário, que foram duramente afetados pela crise.

Para Francisco Barone, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), a crise criou oportunidades. Ele lembra que fusões e aquisições fazem parte das estratégias de crescimento a médio e longo prazos das empresas. Por isso, diz, a queda das operações não foi ainda maior desde a piora da crise.

- Existem oportunidades. Muitas empresas não terão outra saída além de vender parte de seus negócios para fazer caixa.

Crescimento do PIB é incógnita pela primeira vez

Leandro Modé
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Geralmente previsível, Produto Interno Bruto provoca divergência e projeções variam de zero a 4% para 2009

Divergências em projeções econômicas são comuns em qualquer momento da história. Uma variável, porém, costuma ter grau de discrepância menor do que outras, mesmo durante crises. Trata-se do Produto Interno Bruto (PIB), principal medida da soma das riquezas de um país. Neste ano, esse padrão está em xeque no Brasil. As estimativas de crescimento da economia em 2009 variam de zero a perto de 3%. Isso sem considerar os 4% do Ministério da Fazenda e os 3,2% do Banco Central (BC).

"Pela primeira vez, temos genuinamente divergências (sobre o PIB)", disse o economista-chefe da Bradesco Corretora, Dalton Gardiman. "Antes, quando se falava em 5,2%, 5,3% ou 5,5%, no fundo, não havia distinção nenhuma."

Para o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, o intervalo ainda grande nas previsões deve-se às diferentes percepções dos analistas sobre o aprofundamento da crise. "As projeções acabam convergindo num certo momento", afirmou. "O resultado da indústria de dezembro (queda de 12,4% na produção ante novembro) trouxe todo mundo para a realidade, e a realidade é um pouco mais sombria do que se imaginava em outubro."

A média do mercado, expressa no Relatório Focus, divulgado pelo BC toda segunda-feira de manhã, está em 1,8%, mesmo porcentual do Fundo Monetário Internacional (FMI). Gardiman estima 1% e Vale, 1,2%. A LCA Consultores está, no momento, na ponta de cima das estimativas. Projeta alta de 2,8%.

"O fundo do poço, em termos de PIB, ficou no quarto trimestre de 2008", disse o coordenador técnico da LCA, Francisco Pessoa. "A questão, agora, é em que extensão e em quanto tempo vamos nos afastar do fundo."

O PIB pela chamada ótica da demanda é resultado da soma de consumo das famílias, consumo do governo, investimentos e setor externo (exportações menos importações). Os cálculos dos especialistas variam porque cada um deles atribui a essas variáveis uma hipótese.

Segundo Gardiman, hoje as principais divergências estão nas estimativas sobre consumo do governo e setor externo. Ele acredita que a margem de manobra do governo é pequena, por causa da situação fiscal ainda frágil do Brasil (apesar da melhora dos últimos anos). "Há seis, sete anos, havia dúvida sobre a solvência do País."

O professor Simão Silber, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), concorda. "O governo deveria ter guardado dinheiro na bonança para gastar agora." Em vez disso, afirmou Silber, expandiu o custeio da máquina pública em 10% ao ano (descontada a inflação) nos últimos anos. "É mais que o dobro do crescimento do PIB." O professor estima avanço de 1% para a economia no ano.

É nesse ponto, principalmente, que Pessoa, da LCA, diverge dos colegas. Para ele, o consumo do governo crescerá 3,6% em 2009 e contribuirá para uma alta mais expressiva do PIB. "A situação nesta crise é diferente de outras, pois o governo tem espaço para fazer uma política anticíclica", disse.

Pessoa ressaltou que as projeções estão sujeitas a revisões, por causa das oscilações de outros indicadores que entram no cálculo do PIB. Um setor cujo desempenho em 2009 ainda não está claro - e tem potencial para alterar a previsão do PIB - é a construção civil. "Isso me preocupa", disse.

Desemprego atinge 31% dos lares de SP

Verena Fornetti
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Pesquisa Datafolha feita em 3 e 4 de fevereiro mostra que, em 31% dos domicílios paulistanos, pelo menos um trabalhador perdeu o emprego nos últimos seis meses. Em 8% dos casos, o próprio entrevistado ficou desempregado. Nas classes D e E, 40% afirmam que alguém em casa ficou sem trabalho. O total de entrevistados que disseram ter risco ou grande possibilidade de serem mandados embora é de 31%.

Demissão afeta um terço dos lares em SP

Pesquisa Datafolha revela que ao menos um trabalhador perdeu o emprego em 31% das casas nos últimos seis meses

Para 41%, desempenho do presidente Lula no combate ao desemprego é ótimo ou bom; para 22%, atuação tem sido ruim ou péssima

Em um terço dos lares da cidade de São Paulo, ao menos um trabalhador perdeu o emprego nos últimos seis meses, segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 3 e 4 de fevereiro. Dos entrevistados, 8% apontam que ele próprio foi dispensado -4% tinham carteira assinada- e outros 24%, que foi alguém no domicílio.

A crise internacional também aumentou o temor de perda do emprego: 31% dos entrevistados disseram que tinham algum risco ou grande possibilidade de serem mandados embora. Em setembro de 2006, o percentual era menor, de 22%. Mas, apesar da maior insegurança, no total da amostra, 66% dos moradores da cidade dizem que não correm risco.

Para Claudio Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp, a percepção de estabilidade no emprego é mais recorrente nas classes A e B. Entre os que têm ensino superior, 4% dizem que correm grande risco de serem demitidos, dado que sobe a 9% nas respostas de quem concluiu só as séries fundamentais.

O Datafolha revela ainda que o desemprego atingiu com mais força as casas das famílias de menor renda. Dos que pertencem às classes D e E, 40% dizem que alguém no lar perdeu o trabalho há até seis meses.

O diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), Clemente Ganz Lúcio, pondera que a rotatividade no mercado brasileiro é elevada e que os dados da pesquisa não são alarmantes. Principalmente porque, para os que têm menor qualificação, a rotatividade é ainda mais comum. Mas ele destaca que os números que apontam o aumento do desemprego no país não podem ser atribuídos só à sazonalidade. "As pessoas vinham conseguindo encontrar outro trabalho. O risco é que o ritmo de geração de empregos se altere e que não encontrem mais."

O Datafolha também perguntou aos entrevistados se aceitariam reduzir o salário para garantir o emprego, proposta que embasa diversos acordos acertados no país nas últimas semanas na esteira da crise. Cerca de metade (47%) aceita a flexibilização. Entre os que têm menor renda (classes D e E), o percentual atinge 55%.

Amauri Mascaro Nascimento, professor da Faculdade de Direito da USP, argumenta que os trabalhadores que se sentem mais expostos à crise tendem a aceitar a redução de salário. "A crise não bate de frente para pessoas das classes A e B, que têm reservas nos bancos e conhecem o caminho da Justiça do Trabalho. A crise bate nos que têm como único patrimônio o salário da empresa."

No levantamento, o Datafolha questionou os paulistanos sobre os culpados pelo aumento do desemprego. Cerca de um quinto respondeu que a culpa é do governo federal ou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, os paulistanos apontaram a crise (9%) e o governo, sem especificar (7%).

Em relação à capacidade do presidente Lula de combater o desemprego, 41% disseram que o desempenho é ótimo ou bom e 22% que é ruim ou péssimo.

O Datafolha ouviu 613 pessoas com 16 anos ou mais na cidade de São Paulo. A margem de erro máxima da pesquisa é de quatro pontos percentuais.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1234&portal=

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Lulismo e tradição

EDITORIAL
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Ambiguidades da retórica presidencial evidenciam linhas de continuidade entre seu governo e antecessores

DO ALTO de impressionantes níveis de popularidade, o presidente da República parece mais do que nunca imbuído daquele estilo que, há tempos, ele próprio denominou jocosamente de "Lulinha paz e amor".

Inaugurando uma hidrelétrica em Tocantins, nesta quinta-feira, Lula tratou de irradiar essa atitude de plenipotenciária bonomia às autoridades que o circundavam no palanque -com destaque para a ministra Dilma Rousseff, cuja eventual candidatura à Presidência vai sendo testada em cerimônias desse tipo.

Desse espírito de conciliação acabam resultando curiosas inflexões no discurso presidencial. De um lado, o presidente Lula guarda resquícios da antiga retórica petista. No evento desta quinta-feira, lembrou-se de acusar, por exemplo, as "oligarquias" brasileiras de terem impedido, "por vários séculos", a realização de uma obra como a transposição das águas do rio São Francisco.

Perguntaram-lhe em seguida se é possível, no Brasil, governar sem apoio de oligarquias. "Não", respondeu Lula, "tanto que eu tenho uma parceria extraordinária com os empresários brasileiros". Terminou afirmando que todo mundo, na vida, "seja o trabalhador ou o oligarca", tem seus momentos de mudar de ideia.

Em meio a tais retorções de vocabulário, pode-se ver com nitidez o estilo "lulista" de fazer política. Apesar das constantes menções a tudo o que teria havido de inédito em sua ascensão ao poder, o presidente Lula segue um roteiro conhecido na história política brasileira.

Desde Getúlio Vargas, passando por JK, e repetindo-se mesmo no caso aparentemente tão diverso de Fernando Henrique Cardoso, a Presidência da República muitas vezes se equilibrou entre o impulso das tendências modernizantes, nos centros mais desenvolvidos, e uma arraigada base oligárquica regional.

A aliança entre PT e PMDB, no atual governo, corresponde em boa medida ao que, no governo Fernando Henrique, unia o PSDB e o então PFL. Diferenças de coloração ideológica contam menos do que a influência da conjuntura econômica internacional no sucesso ou insucesso popular de cada administração.

Os altos índices de aprovação do governo Lula sem dúvida se devem à combinação dos razoáveis índices de crescimento econômico obtidos até agora, e de ganhos efetivos de renda nas camadas mais pobres da população, com a empatia pessoal do presidente. Este último fator, embora não irrelevante, conta menos no cenário político do que o desempenho da economia no futuro próximo -sobre o qual pairam as maiores incertezas.

O indubitável, contudo, é que o papel do governo Lula na história brasileira não foi o de representar uma ruptura. Inscreve-se, no que esta tem de criticável e de positivo, numa tradição conhecida -a de conciliar atraso e desenvolvimento, oligarquia e mudança. O resto é retórica - cujas ambiguidades, no caso do presidente Lula, apenas confirmam o que há de essencial no seu modo de governar.

O pior cego...

Sérgio Fausto
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Um amigo, que agora acompanha de perto a cena política da Itália e faz tempo reflete sobre as relações internacionais, sob a perspectiva das sociedades civis, e não apenas dos governos dos países, escreveu-me esta semana a respeito dos danos que o episódio Battisti vem provocando à imagem do Brasil na sociedade italiana.

Muito se tem falado sobre os efeitos do episódio nas relações governo a governo. O estrago salta aos olhos. Menos visível, mas não menos importante, é a perda de parte da simpatia e do prestígio acumulados ao longo de anos pelo Brasil entre os italianos.

Não é uma perda irreversível, claro, mas levará tempo para sanar os efeitos da decisão desastrada e quase inexplicável do ministro Tarso Genro. Ao conceder refúgio a Cesare Battisti - nunca é demais lembrar, contrariando a decisão do Conselho Nacional dos Refugiados e não obstante sentenças condenatórias em tribunais italianos e uma corte europeia - ele desconsiderou não apenas a reação previsível do governo daquele país, mas principalmente o sentimento existente na sociedade italiana em relação aos chamados "anni di piombo".

Foram mesmo anos de chumbo: entre o atentado a bomba da Piazza Fontana, em 1969, e a explosão da estação de trem de Bolonha, em 1980, grupos de extrema-direita e extrema-esquerda promoveram o terror. Não apenas se trucidaram reciprocamente, mas também vitimaram políticos, agentes do Estado, principalmente policiais e juízes, e muitas pessoas comuns. Foram muitos os mortos - 85 deles apenas no atentado na estação de Bolonha, perpetrado pela extrema-direita. E imenso o trauma deixado.

O sequestro e o posterior assassinato de Aldo Moro, pelo seu significado político, dão a chave para entender a dinâmica daqueles anos terríveis. Moro havia sido primeiro-ministro por duas vezes, era uma das principais lideranças do maior partido do país, a Democracia Cristã (DC), e estava empenhado na construção do que à época ficou conhecido como "o compromisso histórico".

Tratava-se de uma aliança entre a DC e o Partido Comunista Italiano (PCI), que atingira quase 35% nas eleições legislativas de 1976. Pelo lado da DC, Moro era o principal artífice da aliança. Pelo PCI, Enrico Berlinguer, que vinha conduzindo o partido para longe do PC da URSS. Da sua ótica, o "compromisso histórico" serviria para dar estabilidade política à Itália num momento especialmente delicado (além do terrorismo, o país enfrentava os efeitos da crise resultante do primeiro choque do petróleo) e pavimentar o caminho para uma transição pacífica para o socialismo. O Chile, onde a polarização entre os partidos de esquerda e a DC abrira caminho para o golpe de Pinochet, em 1973, oferecia-lhe o contraexemplo.

O "compromisso histórico" tinha muitos inimigos. Na extrema-esquerda, as Brigadas Vermelhas e outros grupúsculos, entre os quais o de Cesare Battisti, que apostavam na polarização política e na destruição do "Estado imperialista das multinacionais" (as Brigadas assim designavam o Estado italiano), pela via armada. Na extrema-direita, os setores terroristas do Movimento Social Italiano, partido fascista, que viam no "compromisso histórico" a antessala da "comunização" do país.

Compartilhavam essa percepção, com maior ou menor nuance, setores do serviço secreto italiano e do establishment conservador norte-americano. Sim, a Itália, pela presença de um partido comunista de massas, foi o foco das preocupações e da atuação dos Estados Unidos na Europa Ocidental durante a guerra fria. Na Bota, a intromissão da CIA na política doméstica não é mito, mas um fato histórico fartamente documentado. Como se não bastasse, o "compromisso histórico" encontrava oposição na ala da Democracia Cristã ligada a Giulio Andreotti, também ele primeiro-ministro da Itália por duas vezes, político mais conservador, cujas ligações com a Máfia viriam a público anos depois.

A despeito de tudo, a aliança entre a DC e o PCI avançou. Moro foi sequestrado quando se dirigia ao Parlamento para uma sessão na qual seria confirmado o primeiro governo da DC com o apoio dos comunistas. Brutalmente assassinado com dez tiros à queima-roupa, desferidos pelo líder brigadista Mario Moretti, teve seu corpo encontrado 55 dias após a sua captura no porta-malas de um carro abandonado na Via Caetani, em Roma, num ponto equidistante entre as sedes do PCI e da DC. O simbolismo não poderia ser mais claro. Ao assassinar Moro, as Brigadas procuravam sepultar o "compromisso histórico".

A aliança entre a DC e o PCI, ao final, não teve vida longa, por razões que vão além do assassinato de Moro. Na esteira de seu fracasso, a política italiana voltou a girar em torno das alianças da DC com outros partidos menores, lubrificadas por práticas pouco ortodoxas na lida com recursos e cargos públicos, que foram desnudadas no âmbito da Operação Mãos Limpas, nos anos 90. Desnudadas, mas não erradicadas, infelizmente.

Num aspecto crucial, porém, houve progresso na política italiana nos mais de 30 anos que nos separam do caso Aldo Moro: o terrorismo, cujas fronteiras com o crime comum se tornaram cada vez mais tênues, foi eliminado pela atuação do Estado e pela repulsa veemente da quase totalidade da sociedade italiana.

Foi esse sentimento de repulsa - guardado, mas ainda vivo - que a decisão do ministro Tarso Genro atraiu contra o Brasil e o governo atual. Fosse apenas contra o governo atual, teríamos, em tese, um problema circunscrito e com prazo determinado. Mas é a imagem do Brasil que se vê atingida, a menos que o STF "corrija" a decisão ministerial. Isso parece improvável. É que a decisão de Tarso Genro, ao que tudo indica, não fere a legalidade. Ela fere o bom juízo político que se espera de um ministro de Estado.

Sérgio Fausto, coordenador de Estudos e Debates do iFHC, é membro do Grupo de Acompanhamento da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP

Quem é o Estado?

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O Estado somos nós – os três poderes formais, o Ministério Público, a imprensa, seus leitores, a sociedade que se manifesta e vota.

O escandaloso comportamento do novo Severino Cavalcanti, o deputado-corregedor Edmar Moreira (DEM-MG), na inauguração da legislatura, teve o mérito de oferecer uma panorâmica da putrefação do Legislativo. Com apenas algumas frases e um inacreditável currículo exibiu o mau estado do nosso Estado.

No momento em que o mundo celebra o retorno do Estado atuante, rigoroso e responsável nos é oferecida a tomografia de um Estado moralmente arruinado e deficiente. A culpa, evidentemente, não é do governo que apoiou a chapa vitoriosa na Câmara Federal, a oposição também votou nela. A culpa não é do novo presidente da Casa do Povo, jurista Michel Temer (PMDB-SP), que não achou necessário investigar em profundidade a biografia, currículo e folha corrida de um de seus eventuais substitutos (o corregedor é também um dos vice-presidentes da Casa). O castelo medieval de 30 milhões de reais construído por Edmar Moreira sem o conhecimento do fisco e da Justiça Eleitoral não é obra recente. As aberrações que envolvem o deputado federal e seu filho, Leonardo, deputado estadual, estão sendo investigadas desde 2006.

A proposta de acabar com a corregedoria da Câmara e considerar os deputados como anjinhos que sofrem apenas de um vício, o "vício da amizade" não resultou de um escorregão retórico. Edmar Moreira completará em breve seus 70 anos, tem 18 de carreira parlamentar, é um sólido e perfeito exemplo da estupidez, despreparo, cinismo e ganância de um grupo considerável de servidores do Estado brasileiro eleitos para protegê-lo.

Edmar Moreira é mais um caso de geração espontânea. Ninguém é responsável por seu súbito aparecimento na cena pública, cada um tenta inocentar-se alegando que cumpre escrupulosamente as suas tarefas. A culpa é sempre do outro. E o outro são todos os que aceitam, convivem e reforçam o descalabro sem protestar, indignar-se ou, pelo menos, sofrer diante de suas dimensões.

O senador José Sarney (PMDB-AP) certamente não conhece o deputado Edmar Moreira, operam em esferas, níveis e ambientes diferenciados. Mas ao ser reconduzido pela terceira vez em 14 anos à presidência da Câmara Alta, Sarney incorpora-se ao mesmo sistema que na Câmara Baixa produz um deputado que aceita o convívio com o crime e a corrupção. Sarney chefia o Legislativo, esta deformação deveria sensibilizá-lo. Não está obrigado a pronunciar-se diante de cada delito cometido por um parlamentar, mas de alguma forma deveria consolar os milhões de concidadãos que esperam dos legisladores um mínimo de dignidade.

Um Legislativo desacreditado, desacredita o Estado, anula sua legitimidade. Aliena para o Executivo e o Judiciário parte de seus compromissos, desequilibra o edifício institucional. A "judicialização" da vida nacional que tanto incomoda o presidente Lula – e ele está certo em reclamar – decorre apenas da lenta e inexorável desmoralização do Legislativo. Quando os candidatos à presidência da Câmara Federal denunciavam o excesso de Medidas Provisórias encaminhadas pelo governo assumiam plenamente o estado calamitoso de um dos sustentáculos do Estado e que, ao longo dos anos, vem abdicando de suas prerrogativas absorvido apenas pela manutenção de privilégios.

A discussão mundial sobre o papel do Estado não se limita ao campo econômico. A crise não é apenas financeira, seus efeitos políticos logo começarão a aparecer. Conflitos sociais – espontâneos ou orquestrados – não tardarão. São inevitáveis, basta examinar o que aconteceu em todo o mundo nos anos 30 do século passado, na véspera da Segunda Guerra Mundial.

A famosa declaração do Rei Sol, Luis XIV, "O Estado Sou eu", pode não ter acontecido, os historiadores ainda discutem sua autoria. Mas a frase completa seria ainda mais preocupante: "Eu sou a Lei, eu sou o Estado, o Estado sou eu".

» Alberto Dines é jornalista

Pode ser, mas está difícil

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os novos presidentes da Câmara e do Senado acertaram na escolha do conteúdo, mas claudicaram visivelmente na forma de conversar com o presidente da República sobre a edição de medidas provisórias, no primeiro encontro oficial dos três depois das eleições de Michel Temer e José Sarney.

Do jeito como foi posto o assunto, é difícil que se chegue a uma solução minimamente razoável. Do ponto de vista do Poder Legislativo, porque sob a ótica do Executivo tudo está bem.Não merece muita credibilidade a declaração feita pelo ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, logo após a reunião. "O governo tem consciência de que precisa diminuir a edição das medidas provisórias", disse.

Se tem, adquiriu muito recentemente, pois durante toda a legislatura passada embromou solenemente os então presidentes Arlindo Chinaglia e Garibaldi Alves - que se deixaram docemente embromar, diga-se -, evitando a votação da proposta de mudança no rito das MPs. O assunto é discutido há dois anos e há dois anos não sai do lugar.

O presidente do Senado comunicou ao presidente Lula que considera "inaceitável" a quantidade de edições. Um adjetivo. O presidente da Câmara promete algo mais substantivo. Prega obediência total à Constituição.

A julgar por aquele encontro entre os três presidentes, é difícil sair algo de efetivo. Pelo seguinte: Temer e Sarney já começaram a conversa flexibilizando posições. Praticamente pediram licença a Lula para cumprir o que diz a Constituição e o fizeram quase em tom de escusas.

Não que devessem chegar ao Palácio do Planalto com a Carta em punho informando que dali para frente tudo seria diferente. Não. Mas também não precisavam chegar abrindo a guarda para a solução que for mais conveniente ao Executivo.

E foi esse o ponto de partida, quando o princípio da discussão é outro: o presidente tem a prerrogativa de editar MPs sobre o que julga urgente e relevante e o Congresso tem o direito de analisar se concorda. Se discordar, devolve. Simples e institucional, sem brigas nem atritos.

Conversar previamente com o presidente da República sobre o conteúdo de cada medida, como propõe Temer, é uma distorção de funções. Primeiro, porque o regime é presidencialista, o que confere a decisão ao presidente.

Segundo, porque há uma regra muito clara sobre o passo seguinte: o Congresso admite ou não a tramitação da medida. Em terceiro lugar, porque o presidente da Câmara ou do Senado não pode se substituir ao colegiado e assumir esse papel previamente. Muito menos em feitio de negociação.

Em tese, o senador José Sarney compreende do que se trata quando diz que sua autonomia terá de ser exercida independentemente do apoio político dado ao presidente da República. "Nós separamos o que é relação pessoal e o que é relação institucional", disse.

Não separam. Nem eles nem político nenhum. No Brasil não é a impessoalidade que preside as relações. Nem mesmo entre eleitos e eleitores.

Se fosse, esse cuidado todo, esse pisar em ovos seria dispensável. Não haveria a dicotomia entre o conflito e a harmonia, a devolução de uma medida provisória não renderia crises, não seria fruto de pressões nem sempre bem intencionadas, não geraria retaliações.

A consciência da obediência à Constituição como dever primeiro do cidadão não requer negociações, acertos, reverências, concessões. É autoexplicável e, portanto, autoaplicável.

Plano B

O PT caminha para 2010 com Dilma Roussef, reservando-se, contudo, o direito à descrença sobre as condições objetivas da ministra para se tornar uma candidata presidencial competitiva.

Os petistas não sabem direito quais os planos de Lula, mas estão com ele. Por via das dúvidas, preparam-se para refazer o trajeto à esquerda e retomar o discurso da ética.

Uma sinalização para quem se interessa em pilotar o andar dessa carruagem será a posição do PT em relação ao código de ética do partido, a ser discutido ao longo de 2009.

Se a maioria pedir um código mais ameno, menos "moralista e udenista", significa que há esperança de vitória em 2010. Se prevalecer a defesa aguerrida dos bons costumes, quer dizer que o PT trabalha para voltar à oposição.

Ponto pacífico

Ainda presidente do PMDB, em vias de se licenciar para evitar questionamentos no exercício da presidência da Câmara, Michel Temer põe um ponto final na expectativa de que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, possa se filiar ao partido.

No ano passado, Temer conversou muito a respeito com Aécio; chegaram a falar sobre o rito de passagem e a necessidade de o governador levar junto um grupo expressivo de políticos mineiros, tucanos ou não.

Agora, na avaliação de Temer, o PMDB entendeu (ou quis entender) que Aécio não sai do PSDB; vai disputar posições dentro do partido. "Isso é fato vencido", diz o presidente da Câmara.

Em marcha forçada

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Dilma opera com o Orçamento da União, os bancos oficiais, os fundos de pensão e as agências reguladoras, numa espécie de novo “dirigismo estatal”

O Brasil, tecnicamente, entrou em recessão. Ilha de tranquilidade num mar proceloso, o nosso ciclo de desaceleração está em curso desde dezembro passado, no rastro da crise nas 30 nações mais ricas do mundo. Talvez por isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha resolvido antecipar a disputa sucessória. Numa espécie de marcha forçada, colocou na estrada a candidatura da “mãe do PAC”, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), gerente do “Programa de Aceleração do Crescimento”. Se o Brasil conseguir sair da recessão antes das eleições de 2010, Dilma poderia virar uma espécie de Fernando Henrique Cardoso de saias, isto é, se eleger presidenta da República de forma semelhante ao tucano, que chegou ao Palácio do Planalto, em 1995, graças ao Plano Real.

Recessão

Nesta semana, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) diagnosticou a desaceleração da economia brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta a recessão de duas maneiras. No plano objetivo, adota medidas fiscais e monetárias para garantir o crédito e a produção, estimula o consumo das famílias e amplia o gasto público. No subjetivo, diz que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está com um “pepinaço” nas mãos e estamos pagando pelos erros dos norte-americanos. Ou seja, se a crise chegar aqui pra valer o fracasso será de Obama.

A estratégia de Lula é eficiente do ponto de vista eleitoral. Dos 35 países avaliados pela OCDE, o Brasil é o único que não está em “forte desaceleração”. Ou seja, a “marolinha” virou “calhau”, mas não deu um “caldo” no governo. Porém, não sabemos ainda se a crise chegou mais branda por aqui ou está vindo atrasada. Os próximos meses é que dirão. Na primeira hipótese, as chances de o governo Lula sair altaneiro da crise em 2010 são reais; na segunda, a sucessão presidencial ocorreria em plena recessão, com o governo desgastado.

Nos países industrializados e emergentes, a desaceleração foi de 8,2 pontos em 12 meses, chegando a 92,9 pontos. Na zona do euro, a queda foi de 8,2 pontos em relação a 2007, com 93,8 pontos. Nos Estados Unidos, o recuo foi de 9,5 em um ano, com total de 91,3 pontos. O Japão caiu para 92,2 em dezembro, uma queda de 7,3 pontos em relação ao ano passado. O Brasil ficou abaixo de cem pontos pela primeira vez em cinco anos. Em dezembro, ficou em 98,8 pontos, uma perda de 5,4 pontos no ano, a melhor situação entre os BRICs: China recuou 14 pontos no ano, total de 87,6 pontos; Índia, 7,5 pontos, soma de 94,4 pontos; e Rússia queda de 17,7, total de 86,7 pontos. Para a OCDE, nota inferior a 100 significa recessão.

Sucessão

O presidente Lula, cuja popularidade cresceu ainda mais com a crise, conseguiu a proeza de transformar a ministra Dilma Rousseff na candidata natural do PT dois anos antes da eleição.

Agora, tece alianças para que seja a monopção das forças que apoiam o seu governo. Essa aglutinação, inicialmente, não se dá por meio dos partidos políticos. É construída a partir das relações do governo Lula com os movimentos sociais e os agentes econômicos. Dilma ocupa a segunda posição no vértice do sistema de poder, abaixo da presidente da República, mas acima de todos os demais ministros. Não há demanda social expressiva ou grande negócio no país que não dependa do aval “técnico” da ministra.

Graças ao marketing político, que dita o gestual, a retórica e o visual de Dilma, a ministra subiu nas pesquisas e acumula forças para conquistar a adesão maciça do PMDB, hoje muito bem plantado na Esplanada dos Ministérios. Há que se considerar, para isso, o papel dela na execução da política “anticíclica” do governo Lula. Dilma opera com o Orçamento da União, os bancos oficiais, os fundos de pensão e as agências reguladoras, numa espécie de novo “dirigismo estatal”, sem precedentes desde o governo Geisel. A crise econômica fortaleceu no governo os setores que veem no “capitalismo de Estado” uma alternativa para o desenvolvimento econômico e as mudanças sociais, ainda que o “ciclo de substituição de importações”, que fomentou essa concepção entre os militares e na esquerda brasileira, tenha sido ultrapassado pela integração do Brasil à economia mundial na década de 1990. Dilma defende e encarna esse projeto no governo.

Lula e Obama: proximidades

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. A começar pelo próprio presidente Lula, e referendado por muita gente boa da academia, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, é comum fazer-se um paralelo entre as eleições do ex-operário e do primeiro negro, como se os dois eventos tivessem o mesmo significado dentro do processo político de seus respectivos países. Fora o fato de que cada um deles representou, na época em que foi eleito, um sentimento de mudança latente na sociedade, e de que sejam políticos que, à sua maneira, têm o dom da oratória, são muito diferentes entre si, mas têm pontos de contato que podem ajudar na aproximação.

A elegância da oratória de Obama, em contraste com a espontaneidade da de Lula, não impediu que recentemente os dois se aproximassem no uso de expressões vulgares. Lula soltou um "sifu" em um improviso, e recentemente Obama usou uma expressão ("I screwed up") próxima ao linguajar vulgar para dizer que cometera um erro. A tradução tanto pode ser "fiz uma besteira" como "fiz uma c...".

Mesmo tendo tido trajetórias semelhantes, no sentido de serem de famílias pobres e terem conseguido ser bem-sucedidos na vida através da política, Obama e Lula têm formação cultural totalmente diferente, e seus caminhos políticos foram forjados com instrumentos distintos.

Os pais de Obama eram professores universitários, ele é parte da elite intelectual americana, é um scholar formado por Harvard, que deu aulas em universidades em Nova York (Columbia) e Chicago antes de se dedicar a trabalhos comunitários que o levaram à política. Lula não se cansa de lembrar que é filho de uma analfabeta; como Obama, cresceu sem o pai em casa.

Depois de ter passado muitos anos se vangloriando de ter vencido na vida sem estudar, Lula nos últimos tempos envia sinais de que já entendeu que não deve dar o mau exemplo e desestimular o estudo. Recentemente, disse em uma entrevista que se dar bem na vida sem estudar é como ganhar na Mega-Sena.

Obama tem a autoconfiança de quem se sabe preparado intelectualmente para a tarefa a que se propôs e a audácia de enfrentar o establishment político logo no início da carreira, preferindo desafiar a cúpula democrata na disputa pela indicação de candidato a Presidente com a senadora Hilary Clinton a esperar que sua vez chegasse pela ordem hierárquica natural ditada pelas lideranças mais antigas.

Tem andar elegante e um porte altivo que pode ser confundido com arrogância, o queixo sempre para cima num sinal de disposição para o enfrentamento. Lula é da elite operária brasileira, foi forjado como líder nas lutas sindicais e delas tirou um estilo autoritário de liderança política que se reflete na sua impaciência com as críticas e na maneira impositiva de comandar.

Desde sempre se colocou como candidato a presidente, recusando uma carreira política tradicional. Passou pelo Congresso na Constituinte de 1988 como um deputado federal medíocre, não por incapacidade, mas por total falta de adaptação aos códigos e procedimentos do Congresso, de onde saiu sem vontade de voltar, afirmando que dos 513 deputados, pelo menos 300 eram picaretas.

Mesmo vitorioso, Lula se considera perseguido pela elite brasileira, que não teria nunca o aceitado. Também Obama destacou-se por fazer política longe do establishment de Washington, e é um dos maiores críticos da "pequena política" do Capitólio. Tentou fazer uma política suprapartidária diante do momento de crise econômica internacional, mas encontrou uma resistência inesperada nos republicanos que, embora em esmagadora minoria no Congresso, apostam no fracasso do plano de recuperação econômica para voltarem ao poder em 2010.

Lula, como Obama, começou querendo mudar "tudo isso que está aí", e garantia que bastaria "vontade política" para mudar as coisas. Seis anos depois, montou a maior coligação partidária já vista na política brasileira, um saco de gatos onde grande parte dos 300 picaretas, de esquerda ou de direita, encontram espaço suficiente para exercerem seu fisiologismo.

Identificado com a esquerda, Lula já declarou que um homem de cabeça branca que continua comunista deve ter algum problema sério. Obama, considerado o mais esquerdista dos senadores, é apontado como socialista pelos conservadores mais radicais, mas reuniu em torno dele a fina flor dos economistas considerados "de direita".

A falta de experiência política tradicional foi uma crítica que Lula ouviu durante todas as campanhas presidenciais de que participou, assim como Obama teve que superar essa mesma desconfiança.

Obama é negro para os padrões americanos, mas na verdade é um mestiço, como já se definiu ao se referir ao cachorro de estimação que levaria para a Casa Branca. Filho de mãe branca com pai negro do Quênia, Obama é um mulato e disse a Lula que, se saísse nas ruas de uma cidade do nosso país, ninguém diria que ele não é um mulato brasileiro.

Está melhor que o antecessor, George Bush, que se espantou ao saber que no Brasil havia negros. Lula acha que vai se tornar "logo, logo" camarada de Obama, quem sabe mais camarada ainda do que era de Bush, a quem o ligava uma simpatia recíproca.

Lula acha que, como ele, Obama não pode errar. Nesse raciocínio, um ex-operário como ele, errando, faria com que ficasse mais difícil para uma pessoa humilde chegar à Presidência no Brasil, assim como o primeiro negro, se não for bem na presidência, pode estigmatizar os políticos negros, provocando um retrocesso no amadurecimento democrático dos Estados Unidos.

Os dois se encontrarão em breve e, além das proximidades, o programa de energia alternativa pode aproximá-los ainda mais. O Brasil tem a tecnologia e os meios para a produção de biocombustíveis, entre eles o etanol da cana de açúcar. Obama tem um projeto de fazer uma economia verde para livrar os Estados Unidos da dependência do petróleo estrangeiro. Pode dar liga.

Drama maior

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O maior drama numa crise é o desemprego. Na virada do ano eu perguntei ao professor José Pastore quantos empregos o Brasil perderia em 2009 e ele me assustou com o número: um milhão. Voltei a falar com ele agora, e a previsão aumentou: "Acho que o Brasil deve perder um milhão e meio de empregos e eu não sei se quando houver a recuperação todos eles serão repostos."

Para o sociólogo, um dos maiores especialistas brasileiros no tema, sua previsão não se baseia apenas na crise, mas na maneira como o Brasil reage a ela.

- Há muito entrave na Justiça, no Ministério Público e nos sindicatos a qualquer tentativa de se ter algum ambiente mais flexível para o acerto entre trabalhador e empresa. O Tribunal Superior do Trabalho tem anulado acordos que as partes acertaram, e uma anulação como essa cria um tremendo de um passivo trabalhista - lembra José Pastore.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) de São Paulo divulgou uma recomendação aos sindicatos e federações patronais que estão negociando diminuição da jornada com redução de salário que mais parece uma ameaça. Diz que o acordo tem que ser precedido da "situação financeira precária da empresa" e que seja uma negociação coletiva, da qual participem todos os trabalhadores, mesmo os que não são sindicalizados. Diz ainda que a redução salarial não pode ser superior a três meses, que os direitos trabalhistas são irrenunciáveis e que tudo tem que ter a assinatura do MPT.

Num país em que metade dos trabalhadores não tem qualquer proteção, fica até engraçado tanto alerta e cuidado com os que estão no mercado formal. No Brasil, gasta-se mais tempo e dinheiro protegendo-se os protegidos. Se a empresa estiver em situação precária, ela não estaria negociando reduções temporárias e, sim, demitindo. O movimento é para impedir que ela entre em "situação financeira precária".

O Ministério Público do Trabalho mandou notificações para seis centrais e 16 federações sobre o assunto e instaurou um procedimento preparatório para investigar as negociações. Tudo é para evitar, segundo o MPT, "a disseminação" desses acordos. Segundo a procuradora Laura de Andrade, "essa discussão não pode ser feita de forma generalizada". Vários procuradores já avisaram que vão pedir a anulação. Isso deixa as empresas numa situação de insegurança para procurar qualquer solução que não seja a demissão do funcionário.

Em Minas, semanas atrás, um acordo entre trabalhadores e uma empresa para redução de jornada e salário foi vetado pelo sindicato. O governo faz campanha aberta contra a terceirização. Deveria regulamentar a medida, para ampliar a oferta de emprego neste momento, mas evitar os abusos já ocorridos no passado.

Os Estados Unidos têm uma legislação flexível em que as partes podem acertar uma série de formas diferentes do contrato de trabalho, e a Europa tem legislação rígida. Nos EUA, tradicionalmente, o desemprego é menor do que na Europa, e o mercado de trabalho se recupera mais rapidamente após uma crise. Mesmo subindo para 7,6%, no dado divulgado na última sexta-feira, o desemprego americano foi, durante todo o ano passado, menor do que no Brasil.

O desemprego e a informalidade vão aumentar, segundo Pastore, e o temor que ele tem é que não seja passageiro.

- A dúvida que eu tenho é se, passando a crise, o emprego volta. As empresas estão fazendo remanejamentos e mudanças que podem afetar o nível de emprego de forma permanente. Hoje, elas demitem por falta de confiança, por falta de crédito e por desestímulo para investir. Os novos arranjos produtivos podem acabar sendo permanentes e esses empregos não serão recriados - diz Pastore.

O desemprego bate nos trabalhadores de forma geral, como perda de renda ou como ameaça que gera estresse, adia decisões de compras, que impede atividades de lazer, desestrutura famílias. Mas as estatísticas não deixam dúvidas. Os mais vulneráveis são os negros, as mulheres e os muito jovens. A taxa de desemprego das mulheres no melhor momento do mercado de trabalho é igual à taxa dos homens no pior momento. Em 2003, pior ano recente, a taxa de desemprego dos homens era de 10% e a das mulheres era 15,2%. No ano passado, o melhor ano recente, o desemprego das mulheres era de 10% e o dos homens, 6%. Os dados são do IBGE.

Quando o recorte é pela idade, é a mesma coisa. Em 2003, o desemprego de 18 a 24 anos era de 23,4% e o de 25 a 49 anos era de 9,4%. No ano passado, o dos jovens tinha caído para 16,6% e o dos trabalhadores até 49 anos era de 6,3%. Importante notar que só entra na estatística quem está procurando emprego. Se o jovem está estudando, e não procurando emprego, ele não entra na estatística.

A mesma realidade se vê quando se comparam os dados de brancos e negros (pretos e pardos). Na Pesquisa Mensal de Emprego de dezembro, o desemprego dos brancos era de 5,8%, - a média de desemprego da população estava em 6,8% - mas a dos negros estava em 8%. Ou seja, a taxa de desocupação dos negros se mantém 40% acima da dos brancos.

O desemprego tem mais essa perversidade, ele atinge mais os negros, as mulheres e os jovens. Negros e mulheres pelos velhos preconceitos. Jovens porque, na crise, as portas se fecham para os recém-chegados. O desemprego é um drama social e pessoal. O pior lado de qualquer crise.

O pacotão de Lula, a banca e o BC

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Governo já fez o que podia no crédito, falta só cortar gastos. Mas BC e banca privada ainda estão devendo juros menores

O PACOTE anticrise do governo federal já passou bem dos R$ 200 bilhões, embora seja quase impossível fazer uma conta precisa. Não há como somar oferta de crédito público com isenções fiscais, medidas indiretas de estímulo com subsídios etc. Trata-se de alhos e bugalhos, de dinheiros que não se somam sem mais nem menos. Ainda assim, não está errado dizer que se trata da maior intervenção oficial de estímulo econômico da história.

Neste ano, o BNDES poderá emprestar R$ 76 bilhões a mais do que o fez em 2008, quando financiou R$ 92 bilhões. Para bancar a conta, o governo pode usar reservas do Tesouro, ora ociosas e sobrantes. Ou, um tanto pior, pode emitir dívida nova.

O Banco Central pode emprestar o equivalente a uns R$ 50 bilhões, via bancos, para que empresas paguem suas dívidas externas. Desde setembro de 2008, as reduções do compulsório liberaram cerca de R$ 85 bilhões para o caixa dos bancos, dinheiro para ser emprestado livremente ou que serviria, em tese, para reduzir os juros bancários (compulsório é o jargão para o dinheiro que os bancos têm de deixar parado no BC). O Banco Central ainda tem emprestado uns bilhões a exportadores, para não mencionar outras intervenções no mercado de dólares, as quais acabam por baratear custos cambiais de certas empresas.

O governo adiou o recolhimento de alguns tributos de empresas (um subsídio para capital de giro). Reduziu impostos sobre operações financeiras, carros e certas importações. Vai cortar impostos sobre a construção de casas e elevar o subsídio para a habitação popular. Criou linhas especiais de crédito para montadoras, construtoras e agricultura.

Em 2008, o estoque de crédito "livre" na economia cresceu R$ 211 bilhões (não se trata de novas concessões de crédito, mas da variação do saldo de empréstimos a pagar). No crédito "livre", não estão incluídos os financiamentos com destino definido pelo governo, como os do BNDES ou do crédito direcionado para habitação e agricultura. Em suma, no crédito "livre", contam-se os empréstimos decididos no mercado. Pois bem: a oferta adicional de crédito "oficial" para 2009 deve equivaler a uns 60% de todo o aumento de crédito "privado" no ano passado.

A maior parte do dinheiro do pacote anticrise luliano tem volta, a princípio: trata-se de empréstimos. O risco do crédito oferecido pelo BC a empresas fica com os bancos. No caso do BNDES, eventuais calotes caem na conta do setor público.

Mas a estatização de boa parte do crédito talvez fosse medida incontornável, dada a hecatombe financeira. Ainda assim, faltam ingredientes básicos nessa torta emergencial. O governo precisa cortar gasto corrente. O Banco Central deve cortar a Selic de modo a achatar ainda mais a taxa de juros real, em vez de apenas deixá-la estável nos atuais 6% ao ano, historicamente baixos, mas não o bastante. Os bancos privados precisam comparecer. Até agora estão saindo de fininho, apesar do seu caixa gordinho.

Não se trata de fazer a economia crescer os amalucados 4% da propaganda oficial. Mas deixar o PIB encolher, ora um risco real, pode criar um círculo vicioso econômico. E o risco de mau governo cresce em ambiente de tumulto social e político.