sábado, 28 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Ajuste fiscal é a prioridade na Argentina

O Globo

Quem quer que vença o segundo turno precisará angariar apoio para resgatar credibilidade do país

O segundo turno da eleição na Argentina, marcado para 19 de novembro, será decisivo não apenas para o país, mas para toda a América Latina. De um lado, o populista Javier Milei, ultraliberal antissistema que surpreendeu os argentinos ao vencer as primárias em agosto. Do outro, o peronista Sergio Massa, ministro da Economia de um país com inflação de quase 140%, dólar em disparada e dívida pública fora de controle, que também surpreendeu ao vencer o primeiro turno com 37% dos votos (Milei obteve 30%). Ambas as opções diante do eleitor argentino são ruins — mas são ruins de formas distintas.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Política em tempo de guerra ou a busca do mais humano em nós

Vão passando, um a um, os sábados seguintes ao 7 de outubro e é um dispêndio exaustivo de energia buscar modos de falar semanalmente de política num ambiente tomado por noticiário de guerra traduzido em redes e por reações das pessoas ao contato em tempo real com a tragédia consagradora da violência. Até espíritos de predisposição moderada cedem à força de gravidade do maniqueísmo que se proclama síntese da “realidade”. A captura de consciências, em espiral assustador, não respeita grau de informação ou nível intelectual das pessoas implicadas. É contaminação à distância, pela crueza instantânea das repercussões midiáticas, modeladoras de fatos. Há que providenciar vacina para todos. 

Qualquer pessoa parece poder, a qualquer momento, desistir de buscar saber sobre o que se passa, ou cansar de se conter, deixar transbordar instintos obscuros e passar a vociferar e agir como gladiador. Em “debates” viralizados em rede, o verbo torna-se veneno e lava. A intervenção seguinte dobra a aposta antecedente na mobilização aguda de ressentimentos estéreis. Usa-se emoções - autênticas ou encenadas, não importa - como armas para abortar chances de um antagonista vir a ser interlocutor.

À medida em que relatos de atrocidades, com devido registro seletivo de algozes e vítimas, se repetem e entrelaçam, mais pessoas escolhem um lado e adensam a polarização entre “israelenses” e “palestinos”. Há escolhas por boa-fé, uma empatia desatenta, que não pergunta se o lado escolhido está realmente numa guerra movida por entes geopoliticamente situados ou se é ator e vítima de violência desregrada. 

Marco Aurélio Nogueira* - De olhos bem abertos

O Estado de S. Paulo

Judeus e palestinos precisam do mundo. Mas de um mundo politicamente articulado, sem condutas unilaterais, como as de Netanyahu e dos EUA

As comunidades humanas sempre viveram atentas ao que estava fora do local em que habitavam. Bestas selvagens, invasores, salteadores, contrabandistas, ladrões, vizinhos cobiçosos, tudo representava perigo. Fogueiras, vigilantes, muros, cercas, fossos, torres, trincheiras, rochas e estacas pontiagudas, muita coisa foi usada para proteger o território de referência.

Os olhos que se abriam para fora também precisavam olhar para dentro, para os inimigos internos, servidores corruptos, conspiradores, malfeitores. A ideia de segurança nasceu colada ao poder político.

As ameaças internas e externas aumentaram quando as sociedades ficaram maiores e mais encorpadas: pressões internacionais, transações fraudulentas, corrupção, tráfico, crime organizado. As tecnologias passaram a prover recursos de defesa, ataque, vigilância e segurança aos Estados, que aos poucos se tornaram complexos industrial-militares, prontos para a guerra e para a submissão de outros povos e Estados.

Demétrio Magnoli - Dois reféns do Hamas

Folha de S. Paulo

Recusa a condenação do grupo descortina uma avaliação envenenada por opções ideológicas

Não se sabe ao certo o número de israelenses mantidos em cativeiro pelo Hamas. Dias atrás, porém, a organização terrorista capturou dois novos reféns, de alto perfil: António Guterres, secretário-geral da ONU, e o governo do Estado de Israel. O primeiro proferiu uma caprichosa justificativa para os atos de terror do 7/10. O segundo adotou como represália a negação de vistos a autoridades humanitárias da ONU, o que simboliza seu desprezo pela ajuda emergencial aos civis palestinos.

O discurso de Guterres na ONU qualificou os atentados do Hamas como injustificáveis para, na sequência, argumentar que eles "não ocorreram num vácuo", mas no contexto de "56 anos de ocupação sufocante". No fundo, é a mesma lógica de vozes estatais da direita, como o presidente turco Erdogan, que descreveu o Hamas como "um grupo de libertação", e da esquerda acadêmica, como os professores da USP que atribuíram "esse ponto de violência extremada" à ocupação dos territórios palestinos.

Dora Kramer - Faca no peito

Folha de S. Paulo

Ministras não caíram por serem mulheres, mas por ocuparem cargos ao alcance da gula do centrão

As mulheres demitidas de três altos cargos do governo não caíram por serem mulheres. Fosse de gênero o problema até estaríamos num estágio mais avançado nas relações político-institucionais. É na gênese do convívio entre Planalto e Parlamento, na situação minoritária do governo, que mora o xis da questão.

Daniela CarneiroAna Moser e Rita Serrano caíram porque estavam em postos ao alcance da conveniência e da possibilidade do governo em ceder ao apetite do centrão que, diga-se, rivaliza com a gula do PT.

Não é a diversidade o que conduz ou aflige o presidente Luiz Inácio da Silva. É a sobrevivência. O critério vale para o Supremo Tribunal Federal, para a Procuradoria-Geral da República e muito mais para um Congresso atuante no modo faca apontada ao peito. Ora mais frouxa, ora mais forte, a pressão é permanente.

Alvaro Costa e Silva - No Rio, o crime é íntimo do poder

Folha de S. Paulo

Da fraude na vacina de Bolsonaro ao desvio de maconha, tudo se resolve no jeitinho

Em mais um capítulo de sua delação premiada, o tenente-coronel Mauro Cid acusou Bolsonaro de ter dado ordem para fraudar os cartões de vacinação de Covid –o dele e o da filha, Laura, de 13 anos. Espanto nenhum. Na inversão de valores que virou marca do Brasil, há quem defenda que ele tinha esse direito.

Como não causa surpresa a maneira pela qual o faz-tudo do ex-presidente levou a cabo a missão. As investigações mostram que a fraude teve origem em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Servidores da prefeitura inseriram no ConectSUS os dados falsos não só dos Bolsonaro como de dois assessores. A exclusão dos dados, sob alegação de erro, para tentar encobrir o esquema, envolveu uma funcionária do município –feudo político de Washington Reis, supersecretário do governador Cláudio Castro.

Pablo Ortellado - Podemos agir antes dos massacres

O Globo

Se o governo federal não agir, governadores e secretários de Segurança devem intervir

Aconteceu mais uma vez. Mais uma vez um menino entrou numa escola e atirou contra colegas — agora deixando uma estudante morta e três feridos graves. O crime não poderia ser menos original: adolescente alegando trauma por ter sofrido bullying se radicaliza, consegue orientação em fóruns on-line e, munido de arma (neste caso, do pai), comete massacre em escola ou creche. A motivação? Ganhar fama e se inscrever numa história infame de crimes notáveis — ser adorado como são venerados os autores dos massacres de Columbine nos Estados Unidos e de Suzano no Brasil.

Eduardo Affonso -O último de nós

O Globo

Os novos ‘progressistas’ e os novos ‘conservadores’ ainda não queimam pessoas, mas já acenderam suas fogueiras

Em artigo recente, João Pereira Coutinho convoca Sebastian Castellio, teólogo francês do século XVI, para falar da intolerância dos nossos tempos:

— Queimar uma pessoa não quer dizer defender uma doutrina, mas sim matar uma pessoa.

Meio milênio separa a Genebra calvinista, contra a qual se bateu Castellio, do Afeganistão talibã, do Irã dos aiatolás, da Coreia do Norte da dinastia Kim, da Faixa de Gaza sob a tirania do Hamas. Em todos esses lugares, pessoas são oprimidas — e mortas — a pretexto de uma fé ou ideologia (o que, no fim das contas, dá na mesma: é só uma escusa para os piores instintos de quem detém o poder).

Carlos Alberto Sardenberg - Programa de governo? Bobagem

O Globo

Lula não acredita que o governo conseguirá arrumar os R$ 168 bilhões em receitas novas para fechar as contas de 2024

Todo mundo sabia que o governo não conseguiria zerar o déficit das contas públicas em 2024. Sem drama. No arcabouço fiscal, há previsão de desvios, com regras de correção. Mas havia também uma combinação tácita entre integrantes da equipe econômica e analistas de fora: melhor manter a meta zero porque, sabe como é, aberta uma mínima brecha, passam bilhões de reais.

Foi exatamente o que fez ontem o presidente Lula. Abriu não uma brecha, mas um janelão. Deixou claro que, para ele, isso de déficit zero é uma bobagem. Ele não tem a menor disposição de cortar gastos, mesmo porque um déficit de 0,5% do PIB “não é nada”.

Há vários subtextos aí. Primeiro: Lula não acredita que o governo conseguirá arrumar os R$ 168 bilhões em receitas novas para fechar as contas de 2024. Sem essa arrecadação, que o ministro Fernando Haddad busca desesperadamente, restaria a opção de cortar despesas, coisa que o presidente rejeita.

Lula pede a Haddad ‘check-up’ na economia para evitar impacto negativo em 2024

Jeniffer Gularte, Renan MonteiroCamila TurtelliDaniel Gullino e Bernardo Lima/ O Globo

Perspectiva é de desaceleração econômica dos EUA e China no ano que vem, com repercussão no Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira ter pedido ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que prepare o governo para enfrentar um cenário negativo na economia mundial a partir do ano que vem. Segundo Lula, o pedido foi para que o ministro faça um "check up" a fim de "evitar que a doença se prolifere".

Em café com jornalistas no Palácio do Planalto, o presidente citou a perspectiva de desaceleração econômica dos EUA e China no ano que vem, com possível repercussão no Brasil.

— Obviamente, nós sabemos que o ano que vem se apresenta como um ano difícil por conta da queda do investimento na China, a queda de crescimento na China e do aumento da taxa de juros americana. Mas eu estava dizendo agora há pouco, em uma conversa com Haddad, ‘a gente quando está no governo, é por isso que é necessário o check-up, é para a gente evitar que a doença se prolifere’ — afirmou Lula.

Alvaro Gribel - Erro de Lula ao minar a meta

O Globo

Presidente dificulta o próprio governo ao enfraquecer o arcabouço fiscal elaborado pela equipe de Fernando Haddad

O presidente Lula deu mais uma declaração para dificultar o próprio governo e a vida do ministro Fernando Haddad. Ao dizer ontem que dificilmente a Fazenda irá cumprir a meta de zerar o déficit primário no ano que vem, Lula enfraquece o esforço feito pela pasta para aprovar medidas de arrecadação no Congresso.

O risco maior para a economia, na verdade, não é o descumprimento da meta, em si, já que o mercado financeiro já “colocou no preço” um déficit em torno de 0,7% do PIB em 2024. O problema irá escalar caso o governo proponha alterar a meta para pior, o que impedirá que os gatilhos de contenção de gastos, previstos no arcabouço fiscal, sejam acionados nos anos seguintes.

Adriana Fernandes - A fala de Lula e o custo para Haddad

O Estado de S. Paulo

Que estímulo o Congresso terá agora para aprovar pacote com aumento de receitas?

O presidente Lula pavimentou o caminho para a mudança da meta de zerar o déficit das contas públicas em 2024. Governo e Congresso fizeram as contas e viram no horizonte o cenário cada vez mais provável de a equipe econômica ter de bloquear R$ 53 bilhões de despesas discricionárias (não obrigatórias) no início do ano que vem. Isso significaria menos investimentos para obras de Lula e também para emendas parlamentares.

A nova regra fiscal permite bloqueio de até 25% dessas despesas de custeio e investimento e, no cenário de hoje, o primeiro bloqueio teria de ficar próximo a esse limite. Uma paulada no início do primeiro ano do novo arcabouço fiscal.

Lula deu a dica quando antecipou, em entrevista ontem, que a meta fiscal não precisa ser zero. Acusou o mercado de ser ganancioso por cobrar a meta, mas não falou que ela foi definida pelo seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que estava em voo quando a notícia se espalhou.

Miguel Torre* - Em defesa do interesse nacional e dos empregos no Brasil

Correio Braziliense

A importação e a exportação de bens fazem parte do livre mercado, desde que observadas práticas justas de comércio. Não é o que vem acontecendo

Chamou-me a atenção a reação de alguns setores à decisão da indústria do aço de pedir elevação emergencial e temporária da alíquota de importação de 18 produtos siderúrgicos para fazer frente à avalanche do aço que vem ingressando, especialmente da China. Esses setores, de forma intrigante e incompreensível, alegam que a iniciativa não só estaria associada a um suposto oportunismo de elevação de preços, como também inviabilizaria o processo de reindustrialização.

A importação e a exportação de bens fazem parte do livre mercado, desde que observadas práticas justas de comércio. Não é o que vem acontecendo. Há um enorme excesso de capacidade de produção de aço no mundo, grande parte instalado na Ásia. Há, vale ressaltar, uma desaceleração do crescimento, especialmente na China, diminuindo o consumo de aço em seu mercado doméstico. Diante da produção anual de mais de 1 bilhão de toneladas de aço, cerca de 31 vezes maior do que a produção de aço no Brasil, as siderúrgicas chinesas precisaram encontrar uma solução urgente para seus estoques.

Eduardo Leite e Paulo Abi-Ackel* - Centro democrático e as eleições de 2024

O Globo

Nós, do PSDB, sairemos ainda mais fortes, uma alternativa real a quem rejeita os extremos

Não dê ouvidos a quem vaticina que o PSDB acabou. Não se espante quando esses mesmos mensageiros do caos vierem cerrar fileiras ao nosso lado, nas trincheiras tucanas, no centro do espectro político brasileiro. O PSDB está se reconstruindo. Não há razão para brigar com os números, somos mesmo hoje muito menores do que já fomos. Mas os números não dizem tudo. A política é feita de ciclos e, aos 35 anos de idade, o PSDB está maduro o suficiente para compreender isso.

— Nós não lutamos para ganhar a eleição seguinte. Lutamos para criar um horizonte de alternativas.

Cristovam Buarque* - Faltam ‘educacionistas’

Revista Veja

O Brasil nunca teve um estadista atento à educação

O Brasil tem bons educadores e péssima educação. Porque eles formulam a teoria de como deve ser uma boa sala de aula, mas são os políticos que implantam a rede de escolas com professores bem formados e dedicados, edificações com qualidade, equipadas com os mais modernos instrumentos, currículo eficiente, usando os métodos mais recomendados. Temos educadores, não temos “educacionistas”: estadistas com motivação, liderança, base eleitoral e poder para implantar um sistema nacional de educação. É como se tivéssemos grandes médicos sem políticos que investissem na implantação do SUS ou na construção de hospitais.

Marcus Pestana* - O cenário que nos espera e o Brasil com que se sonha

Minha geração do movimento estudantil acreditou que conquistada a agenda democrática – anistia, Constituinte, eleições diretas e liberdade política – a desigualdade social e os desafios brasileiros seriam naturalmente enfrentados e construiríamos o Brasil dos sonhos.

Outro dia, fui tomado por um baixo astral incrível ao ler um artigo do economista Samuel Pessoa, na revista Conjuntura Econômica do IBRE/FGV, onde ele informava que no PISA – programa internacional de avaliação do ensino – os 10% de alunos vietnamitas com o pior desempenho estavam na frente dos 10% com melhor desempenho entre os brasileiros. É inevitável, diante de um fato dessa gravidade, sentir na boca um certo gosto amargo de fracasso geracional. Afinal, educação é tudo.

Poesia | "O menino que carregava água na peneira" - Manoel de Barros

 

Música | Paulinho da Viola - Coração leviano

 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Reforma tributária cheia de exceções trará alíquota maior

O Globo

A realidade aritmética é inescapável: se uns pagarem menos imposto, os outros precisarão pagar mais

Não há dúvida de que a reforma tributária em tramitação no Congresso representará um enorme avanço para a economia brasileira. Ela acaba com a cobrança cumulativa dos impostos sobre serviços e consumo, põe fim à guerra fiscal entre os estados, aproxima o sistema tributário brasileiro dos melhores e contribui para aumentar a competitividade do país. Ao analisá-la, porém, os parlamentares precisam compreender que há uma contradição intrínseca no parecer apresentado pelo relator, senador Eduardo Braga (MDB-AM).

O texto amplia as exceções à alíquota de referência adotada nos novos impostos criados — a CBS (federal) e o IBS (estadual e municipal) — em substituição a outros cinco. Ao mesmo tempo, quer manter intacta a arrecadação. Isso significará necessariamente uma alíquota maior, em prejuízo das empresas não enquadradas nas exceções.

Fernando Abrucio* - As dificuldades de inovação no governo Lula III

Valor Econômico

Se não houver políticas eficientes em áreas como segurança pública e educação da primeira infância, o presidente corre o risco de não obter um crescimento de aprovação

A tarefa mais urgente colocada ao governo Lula III é reconstruir o que foi desmontado pelo bolsonarismo. Não só a democracia esteve em risco, mas as políticas públicas foram, em quase sua totalidade, desmanteladas, causando uma piora na vida da população mais vulnerável e problemas para o desenvolvimento sustentável do país.

O lulismo sabe como voltar ao modelo dos programas que tiveram, no geral, bom desempenho no seu período áureo. Todavia, há questões novas e outras que não foram equacionadas no passado que esperam por soluções ainda não inventadas. E aqui estão as maiores fragilidades da gestão atual.

Se Bolsonaro tivesse um plano consistente de reeleição, não teria optado pela descontinuidade da maior parte das políticas sociais criadas por Fernando Henrique Cardoso e aperfeiçoadas durante os governos petistas, especialmente quando Lula esteve no poder. Mas o bolsonarismo segue uma ideologia fechada, pouco pragmática, que se alimenta das ideias da extrema direita internacional, que se somam ainda a temáticas conservadoras locais. É uma agenda majoritariamente de guerra cultural, e não de políticas públicas, o que garante aos bolsonaristas um apoio consistente de um terço dos eleitores, mas que os impede de ter os votos da maioria do eleitorado.

José de Souza Martins* - Uma democracia inegociável

Valor Econômico

Relatório da CPMI do 8 de janeiro revela a nova convicção institucional de que o regime democrático é componente inquestionável da República

O relatório da CPMI sobre a intentona de 8 de janeiro, da senadora Eliziane Gama, foi aprovado por 69% dos membros. A lista dos 61 indiciados inclui o ex-presidente da República, ex-ministros, oito generais, outros militares, milícias digitais, financiadores. É um documento revelador de mudanças significativas na orientação das instituições em relação à democracia como componente inquestionável do regime republicano.

Desde a Proclamação da República, temos o mau costume da condescendência contra os autores de golpes de Estado e tentativas de golpes. Nesta República tudo tem sido negociável. As robustas 1.332 páginas do relatório, porém, indicam que as instituições estão funcionando e que a democracia é inegociável.

Não se trata de uma questão de esquerda e direita, mas significativamente de democracia contra a barbárie. Os apoiadores do documento filiam-se a distintas orientações partidárias, o que indica que há no Congresso um partido pluripartidário, o da democracia.

César Felício - Tributação das offshores surpreende pela demora

Valor Econômico

Vantagens do mecanismo para quem tem bolso para usá-lo não desaparecem com o tributo

A aprovação do projeto de taxação das empresas offshore na noite de quarta-feira na Câmara deu vazão a narrativas duvidosas sobre esse refúgio patrimonial acessível a poucos afortunados. Essas empresas não irão acabar porque o rendimento de seus cotistas passará a ser taxado anualmente, e não apenas na retirada. Pelo menos não enquanto o modelo da taxação for o proposto, de 15%, equivalente a um investimento dentro do Brasil. As vantagens do mecanismo para quem tem bolso para usá-lo não desaparecem com o tributo.

Especialistas na constituição de offshore destacam que esse mecanismo não é usado apenas para se pagar menos imposto do que se pagaria no Brasil. Muito menos pode ser vista como sinônimo de dinheiro sujo, duto de propinas ou coisas do gênero, embora isso exista também.

Claudia Safatle - Problema da arrecadação vai além de petróleo e câmbio

Valor Econômico

Situação só não está pior porque houve uma retomada da formalização no mercado de trabalho

A arrecadação das receitas federais chegou em setembro a R$ 174,3 bilhões, valor que representou uma queda real de 0,34% em relação a setembro de 2022 e, de janeiro a setembro, houve uma retração de 0,78%, quando a arrecadação atingiu R$ 1,69 trilhão. Embora o período coincida com o de uma muito provável desaceleração da economia, a Receita Federal do Brasil ainda não atribui a contração da arrecadação de impostos à baixa do nível da atividade.

Como as receitas administradas pela RFB apresentaram crescimento real de 0,19% em setembro e de 0,64% entre janeiro e setembro, deflacionados pelo IPCA, no conceito das receitas federais, a retração se explicaria mais pelas condições externas, seja pela taxa de câmbio, seja pelo preço do barril de petróleo. Destaca-se que a RFB não analisa essas receitas por não serem administradas por ela, explicam os técnicos.

Eliane Cantanhêde - Exército vai entrar na guerra contra o crime

O Estado de S. Paulo

Exército participa do esforço contra o crime no Rio, mas sem GLO, tanques na rua e operações nos morros

O Exército vai entrar na guerra contra o crime no Rio, mas, até aqui, sem Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sem tanque nas ruas e sem tropas subindo os morros e trocando tiros com o “inimigo”, leia-se o crime organizado e as milícias, embolados numa coisa só, desafiando o Estado e aterrorizando a sociedade.

A intenção é usar a Força Terrestre na fronteiras, sobretudo nas fronteiras de Paraná e Mato Grosso, estratégicas para esse “inimigo”. Mas com limites: a responsabilidade (e culpas) continuará com o governo do Estado e a solução é de todos os poderes e órgãos.

O que está em estudo é a aplicação da GLO, prevista na Constituição, para a Marinha agir nos portos e a Aeronáutica nos aeroportos, também pontos nevrálgicos para o crime. Já o Exército, que lambe as feridas e tenta superar os traumas da era Bolsonaro, basta usar a Lei Complementar 97, de 1999, depois atualizada como 136.

Fernando Gabeira - Crianças não declaram guerra

O Estado de S. Paulo

Quando o Brasil deixar de presidir o CS da ONU, o que podemos fazer, dentro dos nossos limites, é uma campanha por todas as crianças que vivem em área de guerra

Nas duas primeiras semanas de guerra no Oriente Médio, 20 jornalistas foram mortos. Merecem nosso reconhecimento por terem dado a vida fornecendo a matéria-prima para que possamos saber do que se passa no front e tentar entender o futuro deste conflito. Temos mais perguntas do que certezas. Creio que será assim por muito tempo. Não adianta colar nos aparelhos de tevê, ler os principais jornais do mundo, comprar livros – tudo o que conseguimos é uma visão parcial. Mesmo os especialistas que não vivem a realidade cotidiana da região têm dificuldades para interpretá-la fielmente.

Meus avôs vieram do Líbano, no princípio do século passado. Já tinham memória de conflitos religiosos. Minha avó tinha uma cruz tatuada no braço e nem sempre a vida foi fácil para os cristãos libaneses. Uma região de antigos conflitos.

Bernardo Mello Franco – A ONU na mira

O Globo

Governo Netanyahu pede renúncia de Guterres para minar legitimidade das Nações Unidas na crise

O governo de Israel elegeu um novo alvo de guerra: a Organização das Nações Unidas. Em meio aos ataques a Gaza, o embaixador israelense cobrou a renúncia do secretário-geral António Guterres. Alegou que ele não estaria “apto a liderar” a entidade.

Na terça-feira, Guterres reforçou o apelo por um cessar-fogo humanitário. Ele criticou as “claras violações” do Direito Internacional e pediu que as operações militares parem de sacrificar civis inocentes.

O português condenou os “atos de terror” do Hamas e afirmou que “nada justifica” o assassinato e o sequestro de israelenses. Em seguida, disse que os atentados “não aconteceram no vácuo” e lembrou a “ocupação sufocante” de territórios palestinos há 56 anos.

Flávia Oliveira - Precarização nua e crua

O Globo

Sob a ilusão da autonomia, profissionais estão expostos a jornada maior e remuneração menor

Foi a pedido do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Unicamp, no início de 2022, que o IBGE pôs de pé o módulo da Pnad Contínua que investigou o mercado de trabalho em plataformas digitais e aplicativos de serviços. A pesquisa ganhou as ruas no último trimestre do ano passado. Nesta semana, tornou-se o mais sólido diagnóstico já feito no Brasil sobre perfil e condições de ocupação de motoristas e entregadores uberizados. São profissionais que, sob a ilusão da autonomia, estão expostos a jornada maior, remuneração menor e altíssima informalidade, não contam com benefícios trabalhistas nem previdenciários. Homens adultos, de média escolaridade, que circulam em carros, motos e bicicletas para basicamente sobreviver.

Vera Magalhães - Governo, Lira e a lógica do 'quem não faz, leva'

O Globo

O que a dinâmica da 'lirodependência' no Congresso diz a respeito da incapacidade do Executivo de propor um projeto ao país?

O governo capitulou, uma vez mais, à lista dos desejos de Arthur Lira. Mais rápido que a Amazon, o presidente da Câmara entregou o projeto dos fundos em tempo recorde depois de assegurar a presidência da Caixa e negociar as vice-presidências. Como, diga-se, estava acertado desde a reforma ministerial.

O que isso diz a respeito do apetite do Centrão, muito temos analisado. Mas o que a dinâmica da lirodependência mostra a respeito da capacidade do Executivo de ter um projeto para o país? A resposta é em tudo mais preocupante para Lula que ter de fazer um Pix para o Congresso com mais frequência do que a aprovação tranquila da PEC da Transição permitia antever.

Preocupante porque mostra que Lula e seus muitos ministros não têm sido capazes de envolver a sociedade — e o Parlamento, que, mesmo famélico, de qualquer maneira espelha essa sociedade — na discussão de um conjunto de propostas para o país.

Luiz Carlos Azedo -Derrota do governo na votação da DPU é recado

Correio Braziliense

Indicado pelo presidente da República teve o nome rejeitado por 38 x 35. “No comando da poderosa CCJ, Alcolumbre promete jogar mais pesado com Lula do que Lira jogou

Mais importante escritor brasileiro, Machado de Assis orgulhava-se de ter iniciado suas atividades profissionais como jornalista, aos 20 anos, fazendo a cobertura das sessões do Senado do Império, a partir de 1860. Começou no liberal Diário do Rio de Janeiro, sob a direção de Saldanha Marinho. O chefe de redação era Quintino Bocaiuva, de quem se tornou um grande amigo. Sua missão era fazer a resenha dos debates do Senado, além de eventuais críticas teatrais. Essa experiência foi decisiva para o escritor, obrigado a escrever diariamente e enfrentar o grande público, tendo de relatar e refletir sobre os fatos políticos da época.

Vinicius Torres Freire - O preço que Lula ainda terá de pagar

Folha de S. Paulo

Custo de apoio político está sem limite e há até risco de Petrobras voltar à barganha

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou a Caixa Econômica Federal ao centrão a fim de conseguir aprovar sua pauta parlamentar do segundo semestre e evitar mais fritura de parte de seus ministros.

Interessa saber agora é quantos anéis, braços e rins Lula terá de entregar; se prêmios da ordem de grandeza da Petrobras estão no horizonte do comércio político; se o governo assim vai conseguir uma bancada estável —não parece, pois o jogo mudou.

Lula deu a Caixa ao condomínio parlamentar sob o comando de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara. Não causou muita sensação, se por mais não fosse porque um noticiário exuberante de horrores de guerras, crime, fofocas de celebridades e o fastio do público com economia e política ajudam a distrair.

Marcos Augusto Gonçalves - O cinismo dos EUA e o vale-tudo

Folha de S. Paulo

Quando discutimos quem matou mais crianças e civis é que já estamos no inferno

Um ato de barbárie não transforma uma revanche bárbara em resposta moralmente defensável. O terrorismo não se define pela precedência da iniciativa, como se um primeiro gesto de horror merecesse condenação e absolvesse os que porventura viessem a ocorrer em sentido contrário. Sendo assim, não são sustentáveis os argumentos que procuram justificar o inominável ataque do Hamas sob a alegação de que Israel promove hostilidades que poderiam ser caracterizadas como terrorismo de Estado.

Do mesmo modo, são uma afronta à ética humanitária os bombardeios indiscriminados contra civis em Gaza e a supressão de alimentos, energia e água da população confinada. A ideia de que os palestinos devem ser tratados como animais é fundamentalmente terrorista.

Hélio Schwartsman – Degeneração

Folha de S. Paulo

Tomada do Rio de Janeiro por milícias inverte a ordem do processo civilizatório

As milícias parecem exercer mais controle sobre o território fluminense do que o governador do estado. Há algo de particularmente inquietante nesse fenômeno.

Intelectuais debatem desde sempre as condições que levaram ao surgimento do Estado. Uma ideia particularmente prolífica é a de contrato social, a noção de que as pessoas racionalmente aceitam abrir mão de determinadas liberdades em troca de objetivos comuns, fundando assim a moralidade e as instituições políticas. O contrato social está na base de obras de autores tão diversos como Hobbes, Locke, Rousseau e, mais modernamente, Rawls e Scanlon. Embora filosoficamente produtiva, a ideia de contrato social é historicamente falsa. Sabemos que os bons selvagens de Rousseau nunca se reuniram em grandes assembleias para criar países, sistemas éticos ou a própria política.

Bruno Boghossian - Intriga e inteligência

Folha de S. Paulo

Briga envolve órgãos sensíveis, sob o comando de delegados que disputam influência no círculo de Lula

Polícia Federal fez uma batida na sede da Abin na semana passada. A ação mirou agentes que operavam um sistema secreto de monitoramento de celulares no governo Jair Bolsonaro. O que deveria ser só uma investigação sobre a bisbilhotagem feita pelo órgão de inteligência também virou uma intriga institucional.

A Abin reclama que a PF invadiu seu quintal. A agência argumenta que interrompeu o uso do sistema em 2021, abriu uma apuração interna e colaborou com investigadores. Alega ainda que a operação cria o risco de vazamento de dados sigilosos. Em outras palavras, o órgão sugere que não confia na Polícia Federal.

Ruy Castro - Vigiado por Bolsonaro

Folha de S. Paulo

A Abin tentou me espionar pelo celular. Mas, como não uso celular, teve de me seguir sapato a sapato

O fato de você ser paranoico não impede que esteja sendo seguido. Foi do que suspeitei durante quatro anos ao identificar, em vários lugares, sujeitos me espiando por trás de postes, fingindo ler jornal encostados em paredes ou caminhando às minhas costas e se voltando para trás quando eu me virava para encará-los. Décadas de filmes de gângsteres me fizeram achar que estavam me vigiando.

Agora aposto que sim. A revelação de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), comandada pelo famigerado Alexandre Ramagem, foi usada pelo governo Bolsonaro para bisbilhotar a vida de seus adversários, confirma tudo. Por meio das antenas de telefonia, monitoraram os passos de 10 mil usuários de celulares para saber aonde iam, com quem se encontravam e quais sujeiras de Bolsonaro eles haviam descoberto. Especial atenção era dada a políticos, advogados, ministros do STF, ex-aliados e os suspeitos de sempre, nós, os jornalistas.

Poesia | Definição de Filho -José Saramago

 

Música | Malandro - Baby do Brasil (Sambabook Jorge Aragão)

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Limitar passageiros no Santos Dumont é alternativa sensata

O Globo

Objetivo é reequilibrar tráfego com o Galeão sem abrir margem a questionamento jurídico

Faz sentido o governo mudar a estratégia para reequilibrar o tráfego entre os principais aeroportos do Rio. O Tom Jobim/Galeão opera abaixo da capacidade, enquanto o Santos Dumont é conhecido por filas e atrasos. Em agosto, o Conselho de Aviação Civil (Conac) publicou resolução limitando, a partir de 2 de janeiro de 2024, os voos do Santos Dumont a um raio de 400 quilômetros. A medida, bem-intencionada, suscitou questionamentos de técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) e foi parar na Justiça.

Com apoio do governador Cláudio Castro (PL) e do prefeito Eduardo Paes (PSD), o governo pretende agora revogar a resolução e quer, no lugar dela, restringir a movimentação anual no Santos Dumont a 6,5 milhões de passageiros (hoje 10 milhões têm viajado pelo aeroporto). Será preciso ainda chegar a um consenso sobre a melhor forma de pôr isso em prática. Haverá pressão para transformar os 6,5 milhões em 7,5 milhões, 8,5 milhões etc. Ao governo, não restará opção senão ser rigoroso. É fundamental zelar pelo equilíbrio entre os dois aeroportos — o regional e o internacional —, como ocorre em toda grande cidade.

Merval Pereira - Uma questão política

O Globo

A Presidência da República precisa se envolver na formulação de uma estratégia de combate ao crime

A questão da segurança pública, sobretudo no Rio, mas também no Brasil, é essencialmente política, por isso é preciso que a própria Presidência da República se envolva na formulação de uma estratégia de combate. Pois é a segurança nacional que está em jogo. Até recentemente, os presidentes evitavam se envolver com a questão, pois certamente seriam atingidos pelas consequências dos problemas que afetam milhões de brasileiros.

Como, pela Constituição, a segurança pública é atribuição de governadores e prefeitos, pensavam que as crises não atingiriam diretamente o Palácio do Planalto. Mas governar um país com territórios dominados por milicianos e traficantes, cada vez mais interligados nas ações criminosas, é tarefa que se transforma a cada dia em desafio grandioso.

Malu Gaspar – Uma estátua para Lewandowski

O Globo

Petrobras derreteu R$ 32,3 bilhões na Bolsa e perdeu quase 7% de seu valor na segunda-feira, logo depois de divulgar ao mercado duas decisões do Conselho de Administração. A primeira foi a retirada de artigos do estatuto que blindavam a companhia de conflitos de interesse e indicações políticas. A segunda, a criação de uma reserva financeira que, em tese, servirá para uma série de objetivos, entre eles pagar juros e cobrir eventuais prejuízos.

As mudanças ainda precisam passar pela assembleia de acionistas, mas certamente serão aprovadas, porque o governo Lula tem maioria dos votos.

Quando isso acontecer, cairão as proibições para que ministros, secretários de estado, dirigentes partidários ou sindicais e seus parentes ocupem cargos de direção na companhia — mesmo que possam usá-los na aprovação de obras de refinarias deficitárias para ajudar aliados políticos ou para baixar artificialmente o preço do combustível.

Míriam Leitão - Energia e guerra, segundo a Opep

O Globo

O secretário-geral da Opep calcula que o Brasil vai ser um dos únicos países em que a produção de petróleo vai continuar crescendo até 2030

O secretário-geral da Opep, Haitham Al Ghais, acha que o preço do petróleo tem sido afetado principalmente por fatores psicológicos, já que a região do conflito Israel–Hamas não é produtora de petróleo. Perguntei o que aconteceria se alguma coisa saísse do controle como, por exemplo, a comprovação do envolvimento do Irã. “Na Opep, não vemos cenários hipotéticos”. Ontem circulou a informação, inicialmente publicada pelo “Wall Street Journal”, de que 500 integrantes do Hamas teriam feito treinamento no Irã, nas semanas anteriores. Mesmo com todo o cuidado de Al Ghais em não admitir o cenário “hipotético”, o fato é que ele existe, e o mercado de petróleo ficará pressionado enquanto durar essa guerra.