Folha de S. Paulo
A montanha de novos escândalos de Flávio
pariu um rato nas intenções de voto
Discussão nacional segue ruim, entre planos
'Mais Coisinha' de Lula e barbárie da direita
A montanha de escândalos de Flávio
Bolsonaro pariu um rato nas intenções de voto, como
mostrou o Datafolha. A esta altura do campeonato eleitoral, era previsível.
Falta alternativa para quem quer evitar Lula 4, entre
outros motivos das profundezas da preferência pelos Bolsonaro. Faz tempo e até
agora, o antilula tem uns 40% dos votos.
Não quer dizer que a situação não possa se alterar, para pior ou melhor, a depender do gosto do freguês eleitor. Os motivos deveriam ser óbvios e podem ser relevantes em disputa acirrada.
Faltam quatro meses para o primeiro turno,
eternidade no tempo digital. Flávio é "muito bem" conhecido por um
terço do eleitorado; não se sabe o que povo todo vai achar da personagem quando
houver TV, debates e tiroteio mais feroz nas redes.
No vasto mundo do que se chama
vagamente "economia" deve haver novidades, menores, mas
que podem importar em disputa apertada. Pode haver efeito retardado dos
pacotes eleitorais de Lula 3 ou escândalos no forno. Enfim, surtos de loucura
podem se espalhar por mensagens e redes de modo rápido e imprevisível, ainda
que provocado. A formatação das opiniões a respeito do que sejam fatos pode
mudar de modo profundo e veloz.
Pouco se discute o que está em jogo. Parte
minoritária do eleitorado teme a ameaça golpista. Parte pequena parece se
ocupar de fato do que se chama vagamente de "moralidade" (aliás, a
perda mais significativa de votos de Flávio ocorreu entre evangélicos). Quanto
a apenas um aspecto da "economia", a mais ligada ao Estado, do que se
trata?
A elite econômica quer menos imposto e
"desregulamentação", desde que mantenha proteção comercial, juros
subsidiados e outras rendas do Estado. Boa parte dos eleitores da direita
desconfia do Estado, mas quer benefícios sociais engordados por Lula. A
esquerda oficial acha que "colocou o pobre no Orçamento". Colocou, um
tico mais, mas a redistribuição de renda é dominada por conversa ideológica. Em
quatro governos de esquerda, o Estado continuou a redistribuir para cima, sob o
mote do "desenvolvimento nacional" ou de acordos quaisquer (para nem
falar das ineficiências associadas). Lula 3 continuou a dar dinheiro para ricos
e empresas; dada a política macroeconômica ruim, dá juros gordos para credores
do governo ("rentistas").
A apropriação da renda é majoritariamente
(mais de 80%) definida pelo rendimento do trabalho (75%) e rendimentos
financeiros, aluguéis etc. (deve ser mais, pois a renda de capital e ricos é
subestimada nas pesquisas). A redistribuição via transferências sociais tem
impacto menor e terá efeito marginalmente menor, dada a carga tributária, mas
não só. A conta é imprecisa porque sabemos pouco do impacto da tributação sobre
classes de renda.
A esquerda
acha que a situação melhora com transferências diretas (de resto ora
um tanto ineptas), esquece de trabalho e produtividade; se
ocupa ingenuamente de desigualdade e pouco fala de pobreza. O alto da
direita quer manter seus favores e que o povo se vire. Gatos pingados pensantes
à esquerda, à direita e, em especial, no minúsculo centro se ocupam de
problemas socioeconômicos estruturais.
Essa é uma colherinha de chá do nosso mar de
problemas. Do que falamos, porém? Do barbarismo inepto da extrema direita ou do
último programa "Mais Coisinha" de Lula ou de como os rachadões dos
Bolsonaro podem definir a eleição. Nem a democracia é valor geral. Não vai dar
certo. De novo.
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