quarta-feira, 1 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Em afã eleitoreiro, Lula lança álcool no incêndio fiscal

Por O Globo

Ao acelerar gastos, governo se torna responsável pelo patamar sufocante dos juros, que incentiva inadimplência

A menos de uma semana do início do período de silêncio imposto pelo calendário eleitoral — em que o presidente fica impedido de comparecer a inaugurações ou eventos, e a publicidade institucional é suspensa —, Luiz Inácio Lula da Silva pisou no acelerador das “bondades” eleitoreiras e tem gastado em propaganda como se não houvesse amanhã.

Depois da isenção do Imposto de Renda, do fim da “taxa das blusinhas”, do crédito barato para caminhoneiros, motoristas de aplicativo e táxi, da extensão do Minha Casa, Minha Vida à classe média, de benesses a setores variados — de companhias aéreas a agricultores — e do alívio a dívidas de famílias e pequenas empresas, o frenesi eleitoreiro continuou nesta semana com benefícios a quem paga dívidas em dia, crédito estudantil subsidiado e liberação do FGTS como garantia para quem toma empréstimos consignados.

Cenários da caserna em caso de vitória de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que Flávio Bolsonaro apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se

Há uma inquietação na caserna quanto ao futuro do Ministério da Defesa em um eventual governo Lula 4.

Sim, há muito jogo pela frente até a eleição. E o “imponderável” tem mantido presença nas eleições presidenciais brasileiras, com a ocorrência de eventos de grande magnitude que mudam os rumos da campanha. Mas entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se.

Como consequência, embora possa parecer precoce, militares, investidores e políticos que pretendem estar no próximo governo de qualquer maneira passaram a produzir o que sabem fazer muito bem: cenários.

Temporada de busca do vice ideal começa com dobradinha Caiado e Kassab, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Riscos jurídicos e passivos podem transformar a peça que deveria agregar em problema: investigações, processos ou escândalos potencializam a necessidade de substituição do vice

A escolha do vice tem se revelado um dos nós mais espinhosos da atual pré-campanha, porque combina necessidades de costura partidária, cálculo eleitoral e gestão de riscos. Hoje, quem sai na frente é Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD, com a indicação de Gilberto Kassab como vice. A antecipação da decisão tem muito a ver com as dificuldades enfrentadas pelo ex-governador de Goiás, cuja campanha está estagnada.

A entrada de Kassab na chapa, tudo indica, tem por objetivo evitar a cristianização de Caiado, que enfrenta dificuldades internas no PSD para unificar a legenda e mobilizar a máquina partidária. Caiado oscila em torno de 3% nas pesquisas e precisa alavancar sua candidatura, cujo patrono é Kassab, depois da desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior, e do fato de ter sido descartado o nome de Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul, que poderia atrair para vice um nome do PSDB.

Flávio tem força, na Casa Branca, por Elio Gaspari

O Globo

Um novo anti, o antibolsonarismo

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.

Flávio Bolsonaro trata Brasil como uma peça a mais no mapa da ultradireita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidato do PL vai à Argentina bajular Milei e promete 'equipe de transição' a Trump

Em visita à Argentina, Flávio Bolsonaro festejou as eleições recentes que redesenharam o mapa político das Américas. O senador enumerou 13 países que dobraram à direita nos últimos anos, dos Estados Unidos de Donald Trump à Colômbia de Abelardo de la Espriella.

“Nós somos a peça que falta nesse mapa”, disse, em evento promovido no domingo por uma entidade pró-Israel em Buenos Aires. “O Brasil será o próximo”, prometeu.

Todo mundo tem sua pauta-bomba, por Vera Magalhães

O Globo

Congresso concentra projetos que aumentam gastos, mas governo e STF não ficam atrás ao promover benesses com dinheiro público

Os olhos da imprensa e da sociedade estão, com razão, postos sobre a pauta-bomba que se avoluma no Congresso. Mas senadores e deputados estão longe de ser os únicos que resolveram abrir a torneira do gasto público como se não houvesse o dia de amanhã depois das eleições de outubro.

O governo pode se fazer de alarmado com os projetos recém-aprovados ou na pauta do Senado e da Câmara, mas foi Lula quem primeiro lançou mão de medidas eleitoreiras (e custosas) para aumentar suas chances eleitorais no momento em que as pesquisas lhe eram mais desfavoráveis, no ano passado e neste semestre. Também pisou no acelerador no volume e nos valores da propaganda oficial, principalmente nestes últimos dias antes do defeso, período em que a lei eleitoral veda esse tipo de gasto indiscriminado.

Terremoto inspirou filósofos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Voltaire, Rousseau e Kant fizeram reflexões sobre o grande tremor de Lisboa de 1755

Os dois últimos deslocaram a discussão do campo da teologia para o da ação e entendimento humanos

Espíritos práticos gostam de recriminar a filosofia pelo que seria um excesso de abstração. Reflexões filosóficas podem por vezes se tornar bem metafísicas, mas o caráter altamente especulativo da filosofia pode paradoxalmente transformá-la em precursora de ciências aplicadas. Um único e improvável evento, o grande terremoto de Lisboa, de 1755, conferiu a Rousseau e Kant o papel de fundadores espirituais de dois ramos da ciência moderna, a sociologia dos desastres e a sismologia.

Os penduricalhos, os diamantes e os rolos do governo do Brasil são eternos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Supremo dá uma relaxada em regras de pagamentos acima do teto salarial dos servidores

Em suma, assunto depende do Congresso, que ajuda a piorar problemas fundamentais

O Supremo deu uma relaxada na regra já meio relaxada de limitação dos ditos penduricalhos, pagamentos que levam o salário de servidores a superar o teto constitucional de R$ 46.366,19 mensais, brutos. Para resumir um assunto que poderia tomar páginas de detalhes, o STF como que aceitou alguns direitos adquiridos, por assim dizer. No mais, vale a regra de março de 2026 que pode permitir pagamentos extras de até 70% acima do valor do teto. Parte disso se deve, em tese, a indenizações (diárias, férias não gozadas, plantões, acumulação de funções, enfim, uma lista longa e confusa), e parte ao adicional por tempo de serviço.

As duas faces do bolsonarismo, por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Michelle disputa o controle da autenticidade do movimento

Os filhos flexibilizam alianças para ampliar chances eleitorais

Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.

Fé conservadora, socialista e liberal, por Deirdre Nansen McCloskey*

Folha de S. Paulo

O protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente

A postura mais cristã que se pode adotar é a de um liberal básico, um defensor da igualdade e da liberdade, tanto na religião quanto no resto da vida

Ao protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente religião e a política se alinham de maneiras inesperadas.

O catolicismo, por exemplo, é frequentemente conservador —como ocorreu na Irlanda desde a época do primeiro cardeal irlandês, Paul Cullen (1803–1878), e como já era na Espanha, tornando-se ainda mais durante o regime do general Franco. Mas nem sempre é assim: basta olhar para os teólogos da libertação na América Latina ou, de maneira mais geral, para os cristãos que levam a sério a resposta de Jesus ao jovem rico que perguntou como poderia alcançar o Reino dos Céus: venda todos os seus bens, dê o dinheiro aos pobres e siga-me.

Descanso e dignidade, do campo à cidade*

Correio Braziliense

A eliminação da jornada 6x1 tem de valer também para os milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais que fazem do Brasil um dos maiores celeiros do mundo

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força ao expor a compressão do tempo de vida imposta por jornadas extensas e descanso insuficiente. Impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), essa mobilização partiu das redes sociais para as ruas, reativando um debate clássico sobre a apropriação do tempo e a dignidade do trabalhador frente às demandas do capital. Mobilizou principalmente as cidades, mas agora precisa alcançar com a mesma centralidade o trabalho no campo.

A produção rural brasileira depende de uma força de trabalho numerosa, mal protegida e, com frequência, invisibilizada. São cerca de 3,6 milhões de trabalhadores rurais assalariados, dos quais apenas 40% têm carteira assinada. A informalidade, nesse caso, não é condição lateral: ela estrutura a relação entre empregadores e trabalhadores no meio rural, dificultando o controle da jornada, o acesso à previdência, a proteção em acidentes e o direito efetivo ao descanso.

Mãos e olhar que salvam, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

É impossível olhar para uma das maiores tragédias a golpear a América do Sul e não sentir empatia pelos venezuelanos.

Imagine estar em casa e ser surpreendido por dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9). Você e sua família conseguem sair pouco antes de seu lar desabar, levando não apenas os bens materiais, mas também sonhos, planos e memórias. De repente, você está na rua, sem comida, sem dinheiro e sem saber como refazer sua vida. Ainda assim, sente-se sortudo demais: seus vizinhos morreram, alguns amigos estão desaparecidos e você ainda consegue abraçar e beijar sua esposa/marido e seus filhos. Agora, tudo o que mais deseja é ajudar e ser ajudado.

A retórica inflada da liberdade de expressão, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

O problema da ideia de uma liberdade sem limites não é conceder muita liberdade. Trata-se de uma defesa frágil e estéril

Nunca falamos tanto de liberdade de expressão no Brasil como agora, mas essa conversa não tem gerado os efeitos esperados: uma compreensão minimamente funcional da liberdade de expressão, própria e alheia; uma proteção mais efetiva da liberdade. Abaixo, três aspectos do debate atual.

O uso retórico do termo censura. Sim, todos concordamos que a Constituição proíbe a censura. Mas o que é a censura?

Caso 1. Demitido de um jornal após escrever uma coluna, um jornalista afirma em rede social que foi censurado.

Caso 2. Depois de compartilhar em rede social dados manifestamente falsos sobre as urnas eletrônicas, um cidadão tem seu perfil bloqueado por ordem judicial. Noutra rede social, afirma ter sofrido censura.

Caso 3. Uma ordem judicial suspende a divulgação de pesquisa de intenções de voto, sob o fundamento de que o questionário induzia as respostas. Diversas vozes denunciam a ocorrência de censura.

O Supremo e a falta de limites, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques disse que a magistratura passa dificuldades e quis fim dos limites dos penduricalhos

Em meio ao julgamento que afrouxou as regras dos penduricalhos a magistrados e procuradores, quatro ministros do Supremo Tribunal Federal queriam, ao contrário de outros seis colegas, que não houvesse limites para o pagamento das verbas indenizatórias reconhecidas e validadas pelos conselhos da Justiça e do Ministério Público.

Quem abriu essa divergência foi Luiz Fux, que se disse contrário ao estabelecimento do limite de 35% além do teto para as verbas adicionais ao salário. Além disso, os ministros autorizaram o pagamento de uma gratificação de 5% a cada cinco anos de serviço. Essa regra, somada aos penduricalhos, garante a quem está no topo da carreira um salário de R$ 78 mil. Mas Fux queria mais. Assim como os ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques. Este último defendeu até o pagamento de auxílio-creche aos doutores.

A metade amarga de 2026, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Apesar das eleições no Brasil, maior risco para o 2.º semestre está na política monetária nos EUA

Há três grandes riscos para o segundo semestre de 2026 que ora começa. De um lado, duas eleições: a de “midterms” nos Estados Unidos (de meio de mandato para renovação do Congresso) e a presidencial no Brasil. De outro, a probabilidade de o Federal Reserve iniciar um ciclo de alta dos juros americanos. A depender do desfecho de cada um desses riscos, o ano pode terminar com um ambiente de elevada volatilidade e de estresse nos mercados globais.

Poesia | Pus o meu sonho num navio, de Cecília Meireles

 

Música | Chico Buarque & Milton Nascimento - Cálice