segunda-feira, 29 de junho de 2026

Puxando a capivara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como raramente puxo capivaras para a margem, eu não sabia o significado da expressão

Em breve ela se juntará a subir o sarrafo, virar o fio, ligar o sinal de alerta e outros clichês

Outro dia, num programa de TV sobre futebol, alguém disse várias vezes que era preciso "puxar a capivara". A insistência com que repetia a expressão me fez pensar que estava havendo uma infestação de capivaras nos gramados. Pelo insólito da coisa, resolvi ir aos entendidos. Aprendi que "puxar a capivara" significa "puxar a ficha", "levantar o histórico", "analisar direito". Tem a ver com a capivara que, quando surge à beira d’água e você decide puxá-la para a margem, não imagina como é pesada. Tem que puxá-la inteira para saber. Como raramente puxo capivaras para a margem, como eu podia adivinhar?

Parece incrível, mas é pura verdade, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo só se tornou crime inafiançável e imprescritível com a Constituição de 1988

Injúria racial foi equiparada ao crime de racismo apenas em 2023

Por incrível que pareça, até meados do século 20 qualquer um podia recusar atendimento, serviço, hospedagem, ingresso em estabelecimento comercial a uma pessoa negra pelo mero fato de ela ser negra e não dava nada no Brasil.

É isso mesmo. A primeira legislação brasileira que enfrentou atos excludentes e corriqueiros motivados por puro preconceito de raça ou de cor na nossa fajuta "democracia racial" está completando 75 anos nos próximos dias.

Trata-se da Lei Afonso Arinos (Lei 1.390/1951), promulgada em 3 de julho —data em que atualmente é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial.

As lições da crise britânica e os limites da engenharia política, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Primeiro-ministro britânico deixa o cargo menos de dois anos após vitória trabalhista de 2024

Experiência recente mostra que reformas institucionais não blindam governos contra crises

Na última segunda-feira (22), o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou que deixará o cargo e a liderança do Partido Trabalhista. Sua saída, menos de dois anos depois da vitória trabalhista de 2024, prolonga a instabilidade política aberta pelo plebiscito do brexit.

Starmer não caiu por falta de maioria parlamentar. O Partido Trabalhista controla ampla maioria na Câmara dos Comuns. A crise veio da perda de autoridade política, da derrota nas eleições locais de maio, da pressão interna evidenciada na renúncia de ministros e da entrada de Andy Burnham na Câmara, após vencer a eleição suplementar de Makerfield. A disputa foi realizada com o objetivo de habilitá-lo para a liderança do partido, uma vez que, segundo a tradição, o primeiro-ministro deve ser membro eleito da Câmara dos Comuns.

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O escândalo do Master mostrou que o rei está nu

O objetivo dominante para muitos dos membros do Supremo passou a ser proteger a si próprio

STF existe para proteger a Constituição. Mas o que se vê é uma suprema inversão funcional: o objetivo dominante para muitos de seus membros passou a ser proteger a si próprio. Garantir a própria sobrevivência. Este modo sobrevivência é particularmente marcante no caso do Supremo, mas converteu-se em padrão que atravessa instituições brasileiras: Executivo, Congresso, Judiciário, partidos e até órgãos de controle. O affair Master mostrou que o rei está nu. A percepção pública de conflitos internos, de decisões voltadas à autopreservação e de respostas corporativas torna-se suficientemente difundida para que deixe de ser possível sustentar a mesma narrativa institucional usada desde a Lava Jato.

O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson*

A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito.

O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente.

O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.

O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.

Poesia | Futebol, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nelson Gonçalves - Que bonito é (Luiz Bandeira)