O Estado de S. Paulo
O tempo está ficando curto para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro
Na fotografia do momento não há boas notícias
para a candidatura de Flávio Bolsonaro, a não ser que se considere boa notícia
o fato de não ter aumentado ainda mais sua desvantagem em relação a Lula. O que
os números mais recentes das pesquisas parecem demonstrar é que o “piso” da
candidatura está virando “teto”.
Já era preocupante a convergência de pesquisas indicando que outros nomes de oposição fariam tão bonito (ou tão feio, como se quiser) como Flávio caso alcançassem um segundo turno. Muito pior é constatar, segundo a AtlasIntel, que outros nomes no lugar de Lula na cédula (Haddad ou Alckmin) levariam vantagem sobre o ungido por Jair Bolsonaro.
Este é o retrato nítido de uma situação na
qual um lado votaria em qualquer um do mesmo lado, e de jeito nenhum em
qualquer um do outro. Ocorre que a pequena margem de “independentes” que
decidiram as eleições de 2022 continua exígua, e claramente desfavorável a
Flávio. Figura central aqui é o eleitorado feminino, especialmente de baixa
renda – a parcela considerada crucial na derrota de Jair há quase quatro anos.
Neste ponto a briga de Flávio com a madrasta
pode energizar trogloditas no cantinho do espectro político, mas nada
acrescenta à própria candidatura, que, no máximo, permanece onde está entre as
mulheres – ou seja, sem brilho. O único destaque até aqui para o principal
candidato de oposição é a vantagem direta que tem sobre Lula na questão de
criminalidade, mas perde ou empata em várias outras, incluindo temas fiscais e
tributários.
Nesse sentido, as sanções que o governo
americano começou a aplicar a cidadãos e empresas brasileiros sob a suspeita de
envolvimento com organizações criminosas – a primeira consequência direta da
classificação do PCC como grupo terrorista – provavelmente darão um argumento
forte para a campanha de Flávio. E um ponto destacado de contraste com o
governo Lula, que sempre se opôs à classificação.
A julgar por declarações do pré-candidato
exaltando o “homem forte” de El Salvador – tido hoje como principal inspiração
das mudanças eleitorais batizadas de “onda azul” de direita –, é o único
caminho que se oferece. A candidatura permanece no alto nas pesquisas, mas não
empolga, tem escassa capacidade de mobilização além dos convertidos ao
bolsonarismo e oscila entre falta de ideias e ideias muito ruins, como as que
se referem à política externa.
Não é à toa que a candidatura alterna entre
escândalos e brigas familiares num permanente estado de apreensão. A declarada
opção de Michelle Bolsonaro por um “silêncio obsequioso” é de araque. Ela está
escancarando que tem muito a dizer.

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