Correio Braziliense
Lula sentiu o cheiro de animal ferido na
floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo
tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca
As audiências públicas sobre o tarifaço a ser aplicado às exportações brasileiras pelo presidente Donald Trump foram transformadas em palanque eleitoral pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, que tenta desfazer a imagem de que o bolsonarismo apoiou ou, no mínimo, estimulou as medidas da Casa Branca contra empresas brasileiras. O Itamaraty acompanha as audiências, mas não participará formalmente, a não ser com observadores, porque privilegia as negociações técnicas entre os dois governos, que atravessam um momento de turbulência, mas não foram de todo interrompidas. Ou seja, não queimou os navios.
Em Washington, ao mesmo tempo em que tenta se
apresentar como defensor dos exportadores brasileiros, Flávio Bolsonaro precisa
administrar o passivo político acumulado por sua própria família nesse assunto.
Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, hoje radicado nos Estados Unidos, e seu aliado
Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, foram defensores
assumidos da linha de pressão de Trump contra o governo Lula e acabaram
associados ao ambiente político que favoreceu a escalada tarifária. Agora, com
a crise comercial no centro da disputa presidencial, essas declarações vêm
sendo exumadas e usadas pelo Planalto contra Flávio Bolsonaro.
A ida de Flávio à audiência pública do
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) foi desenhada
como operação de contenção de danos, mas pode se tornar uma armadilha política.
Seu objetivo é não entrar na campanha de 2026 com a pecha de “traidor da
pátria”, sendo corresponsável por uma agressão econômica a setores estratégicos
do agronegócio, da indústria e da pauta exportadora brasileira.
A operação do candidato de oposição é
arriscada, porque, em vez de apagar o rastro anterior, pode reavivar a memória
das posições adotadas pelo bolsonarismo ao longo do conflito com o governo Lula
e reforçar a acusação de oportunismo. Flávio se enrolou ainda mais ao defender,
na prática, que a entrada em vigor das novas tarifas fosse adiada até depois
das eleições brasileiras, sob o argumento de que a medida poderia favorecer
politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A declaração foi politicamente desastrosa.
Deslocou o debate do terreno econômico e diplomático para a disputa eleitoral,
como se o problema central não fosse o impacto sobre empresas, empregos e
exportações, mas sim o efeito da sobretaxa no resultado da eleição
presidencial. Deu para Lula o argumento de que Flávio não discute a
legitimidade das tarifas nem a defesa do interesse nacional, mas apenas
calibrar o calendário de implementação das tarifas para não prejudicar sua
eleição.
Foro de negociação
Lula sentiu o cheiro de animal ferido na
floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo
tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca. A narrativa
oficial é a de que a investigação comercial americana e a retórica punitiva
contra o Brasil foram fomentadas pelo clã Bolsonaro por meio de seus
interlocutores nos Estados Unidos.
O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias
Rosa, não tirou por menos. Disse que a ida de Flávio à audiência é “ineficaz” e
“pouco sincera”. A crítica resume a percepção do governo. A audiência virou
extensão da campanha presidencial, para demonstrar ao empresariado e ao eleitor
conservador brasileiros que Bolsonaro 01 tem trânsito em Washington e
capacidade de interlocução com a direita americana. Busca ser uma ponte
privilegiada com o trumpismo, para transformar em ativo aquilo que, até aqui,
tornou-se passivo eleitoral: a afinidade ideológica da família com o governo
dos EUA.
Para Lula, a crise oferece uma clivagem
favorável ao governo. Em vez de se limitar ao embate ideológico clássico entre
petismo e bolsonarismo, o Planalto tenta reposicionar a discussão em termos de
soberania econômica e defesa do interesse nacional. O bolsonarismo deixa de ser
apenas adversário interno e passa a ser retratado como força disposta a tolerar
— ou até estimular — medidas de um governo estrangeiro contra empresas e
trabalhadores brasileiros, desde que isso enfraqueça o Palácio do Planalto.
Esse ataque alcança segmentos refratários à
reeleição de Lula do agro e da indústria que têm peso regional, influência
política e aversão a aventuras que atinjam seus negócios. Mas a outra dimensão
do problema, mais importante, é a negociação técnica, que está sendo atropelada
pelo debate eleitoral. O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento sustentam
que o espaço real de negociação não é a audiência pública, mas as conversas
bilaterais e reservadas mantidas com a administração americana.
A opção do governo brasileiro de não participar formalmente das audiências, enviando apenas observadores, decorre dessa avaliação. As sessões do USTR servem para ouvir importadores, exportadores, associações setoriais, consultorias e representantes empresariais. Mas não são o foro de um acordo entre os governos. A aposta do Itamaraty brasileira é demonstrar, nas tratativas técnicas, que a relação comercial com os Estados Unidos não se enquadra na lógica punitiva sugerida pelo USTR e que o tarifaço, além de politicamente contaminado, é economicamente contraproducente.

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