Folha de S. Paulo
Medeiros e Albuquerque viu na abolição
brasileira e na Guerra Civil americana os efeitos de dois sistemas de governo
Aos 250 anos, a mais influente invenção
institucional americana continua a dividir os estudiosos da democracia
Os Estados
Unidos inventaram o presidencialismo e difundiram-no quando o modelo
parlamentarista ainda não havia se consolidado na Inglaterra, onde surgiu.
Os 250 anos dos EUA servem para perguntar se sua
exportação institucional foi uma boa ideia. Tocqueville reverenciou o modelo
institucional do país em "A Democracia na América" (1835). Mas a
América aqui era a Nova Inglaterra, uma sociedade fortemente igualitária de
camponeses livres, não o Sul escravocrata, que mais se parecia com o Brasil.
O Sul, à época, representava apenas 28% da população total dos EUA, e sua população livre, apenas 16%. O Sul permaneceu, assim, um enclave na democracia americana. E a escravidão, o contencioso central da Constituição que, com as dez primeiras emendas (Bill of Rights), é um marco do constitucionalismo moderno. Embora minoritários, os estados do Sul lograram vetar mudanças no status quo na região.
As 13ª (1865) e 14ª (1868) emendas, que aboliram a escravidão e garantiram cidadania e
tratamento igualitário, foram aprovadas manu militari, quase 80 anos depois. No
pós-guerra, o compromisso perverso foi adotado em 1877 para o Sul ocupado:
autonomia para implantar medidas restritivas que negavam na prática a igualdade
legal. Este estado de coisas —o sistema "separados, porém iguais"—
persistiu e só foi eliminado com o Civil and Voting Rights Acts (1964-1965).
Mas o sistema de governo importa para a
evolução política do país? Se o Brasil tivesse adotado o presidencialismo após
a independência, como os demais países da América Latina, nossa história teria
sido diferente? Para Medeiros e Albuquerque autor de "O Regime
Presidencial no Brasil", de 1914, a resposta é positiva. "O regime
parlamentar no Brasil fez a abolição pacificamente, ao passo que o regime
presidencial nos EUA desencadeou uma revolução tremenda."
Medeiros e Albuquerque foi o primeiro a fazer
um exercício contrafactual relacionando sistema de governo e abolição. Foi
institucionalista avant la lettre. Se os EUA fossem parlamentaristas,
conjeturava, não teria havido a Guerra de Secessão. O parlamentarismo tem uma válvula de
pressão: a moção de desconfiança. A orientação muda quando o governo perde
apoio parlamentar, ao contrário do presidencialismo, no qual os mandatos são
fixos. As quedas de ministérios ocorrem sem fortes descontinuidades. Já o
presidencialismo, argumentava, seria inflexível: os presidentes são forçados a
manter seus pontos de vista "por teima ou coerência" até o fim do
mandato.
"Se, em 1887, o Brasil fosse República
presidencial e tivesse de eleger o seu presidente, não elegeria um
abolicionista incondicional e sem indenização." Mas o processo era
dinâmico: "um ano depois, esta solução se impunha e se realizava
suavemente após se sacrificar vários ministérios". Assim, "esgotadas
as outras soluções, restava apenas a da abolição e incondicional".
A avaliação negativa sobre o presidencialismo é associada ao professor Juan Linz da Universidade Yale (1926-2013). O debate continua. O presidencialismo é ruim para a governabilidade e/ou crescimento? O parlamentarismo promove mais igualdade e inclusão social?

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