Correio Braziliense
Das empresas, entidade e
pessoas físicas dos EUA na audiência sobre tarifas, 30 foram contra e 14 a
favor; das 34 brasileiras, somente Flávio foi a favor
O imbróglio do tarifaço dos Estados Unidos
contra o Brasil é mais do que um contencioso comercial, no qual os dois países
negociam tarifas com base em interesses recíprocos. Como ficou evidente nessa
terça-feira, com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato
a presidente da República, na audiência pública promovida pelo Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), há dois eixos cruzados de
negociação.
O eixo com o qual o Itamaraty trabalha é econômico-empresarial, no qual pesam os interesses concretos das cadeias produtivas integradas entre Brasil e EUA; Flávio privilegiou o viés ideológico-político, fortalecido pela conjuntura eleitoral nos dois países, que favorece a ofensiva da direita norte-americana contra regulações, instituições e governos que não se alinham à sua agenda.
Os negócios entre empresas brasileiras e
norte-americanas aparecem nas manifestações encaminhadas ao Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) na investigação aberta com
base na Seção 301. Foram 335 manifestações de empresas e organizações
brasileiras e americanas, além de 30 de pessoas físicas. Entre elas estão
gigantes, como Coca-Cola, Caterpillar, ADM, Tesla, Nestlé, CSN, Suzano, eBay,
Siemens Energy, JBS e WEG, além de entidades como CNI, Fiesp, CNA, Câmara
Americana de Comércio, Abiquim e Unica. Não se trata, portanto, de uma reação
periférica ou diplomática, mas de uma mobilização do coração da atividade
produtiva e comercial dos dois lados.
Depois da reunião, rebatendo os irmãos
Bolsonaro, o Itamaraty destacou, em nota, que das 78 empresas, entidade e
pessoas físicas que se manifestaram na audiência, 63 foram contra o tarifaço e
somente 15 a favor. Das 44 manifestações norte-americanas, 30 foram contra e 14
a favor. Já do lado brasileiro, das 34 manifestações, apenas a de Flávio
Bolsonaro foi a favor do tarifaço, segundo o governo Lula.
O tarifaço proposto por Washington — 25%
sobre produtos brasileiros, com a possibilidade de mais 12,5% em outra
investigação — colide com a própria lógica de reorganização das cadeias
produtivas globais, que leva ao fortalecimento do comércio regional. Não se
resume à venda de bens finais concorrentes; são insumos, matérias-primas,
componentes e bens intermediários que alimentam a própria indústria americana e
sua complementariedade com os demais países das Américas.
A Fiesp sustenta, por exemplo, que a tarifa
média brasileira sobre produtos dos EUA é baixa e que boa parte das exportações
brasileiras para o mercado americano não compete diretamente com a produção
local, mas a complementa. Em vários casos, trata-se de comércio intrafirma,
entre filiais e matrizes, ou de insumos que entram no processo industrial
norte-americano. Estão nessa categoria, por exemplo, a carne do dianteiro usada
para a produção de hambúrgueres, e o suco de laranja e café indispensáveis à
refeição matinal das famílias norte-americanas.
Resistência nos EUA
Na prática, o tarifaço também eleva os custos
para as empresas dos Estados Unidos, pressiona a inflação, reduz a
competitividade e desorganiza cadeias que foram montadas ao longo de décadas em
bases de integração econômica. Por isso, a resistência à taxação não é apenas
do governo brasileiro ou de entidades nacionais; representantes de setores
americanos também advertiram para o risco de que o custo das tarifas recaia
sobre os próprios EUA.
A Câmara de Comércio americana falou em “consequências
imprevistas” para a economia dos Estados Unidos; a coalizão We Pay the Tariffs
foi ainda mais direta ao afirmar que “o custo recai com mais força sobre os
americanos”; e até organizações como a Public Citizen saíram em defesa do Pix e
contestaram a tese de que a política digital brasileira seria discriminatória
contra empresas americanas.
Há uma profunda contradição entre a lógica
protecionista de Trump e a dinâmica complexa das cadeias integradas de
produção. Por isso, o governo brasileiro ainda tem esperança de convencer a
Casa Branca de que punir o Brasil é, também, punir empresas e consumidores
americanos que se beneficiam desse intercâmbio.
O problema é que esse eixo racional,
econômico e empresarial talvez nem seja o dominante. O aspecto ideológico e
político-eleitoral é que fragiliza a posição brasileira. Formalmente, a
investigação da Seção 301 visa o comércio digital, os serviços de pagamento
eletrônico, o combate à corrupção, a defesa da propriedade intelectual, o
etanol e desmatamento. Mas, na verdade, o tarifaço não é uma resposta comercial
a supostas “práticas desleais” do Brasil, mas um instrumento de pressão
política.
Existe também um ingrediente subjacente, já
revelado na troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Marco Rubio: os grandes
interesses em negócios da plutocracia que se forma em torno de Donald Trump,
com três agendas prioritárias: a ofensiva contra regulações sobre big techs, o
ataque a sistemas públicos que concorrem com empresas privadas — como o Pix — e
o controle de fontes de matérias primas como as terras raras. Sem falar na
solidariedade política à família Bolsonaro, em sua guerra contra o STF e o
governo Lula.

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