terça-feira, 14 de julho de 2026

Vergonha e prejuízo, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir

Coordenador em São Paulo da ainda incerta campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem procurado manter distância adequada da disputa pelo Palácio do Planalto. Carioca que mal sabia seu local de votação em 2022, quando foi eleito para o cargo, Tarcísio, como informou o Estadão, tenta evitar que sua imagem seja turvada pelas crises que assombram Flávio Bolsonaro.

Nisso o governador paulista está certo. Aproximar-se demasiadamente do filho do expresidente da República, atualmente cumprindo pena em prisão domiciliar, pode prejudicar a pretensão política de Tarcísio, candidato à reeleição. Presunçoso, arrogante e apontado como envolvido em nebulosas transações financeiras com o dono do extinto Banco Master, Flávio Bolsonaro parece não se cansar, por palavras e atos por ele mesmo decididos, de demonstrar como é extenso seu despreparo e como é incontrolável seu desejo de bajular Donald Trump.

Sua vexaminosa e reveladora participação – ao lado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, cassado pela Câmara dos Deputados, condenado por coação a autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e refugiado nos Estados Unidos – em audiência realizada na semana passada em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) é apenas o exemplo mais recente. Houve muitos outros e decerto muitos haverá.

Em julho do ano passado, os dois irmãos Bolsonaro comemoraram a decisão de Trump de impor inicialmente uma sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros, o que dificultaria de maneira aguda a presença de bens nacionais no mercado norte-americano. Na semana passada, o précandidato presidencial pelo PL tentou tardia e parcialmente consertar o desserviço que havia prestado à economia brasileira há um ano, quando agradeceu a Trump pela imposição da sobretaxa. Na audiência da USTR, Flávio Bolsonaro disse que esse seria “o pior momento possível para agir” e pediu o adiamento da imposição de novas sobretaxas a produtos brasileiros.

O senador não o fez para defender interesses brasileiros. Fê-lo por interesse eleitoral. No seu entender, haveria desgastes à sua campanha, pela inevitável associação das tarifas de Trump ao papel que ele e seu irmão tiveram anteriormente na decisão da Casa Branca.

Estragos econômicos associados à desastrada atuação dos dois irmãos em Washington desde o início do governo Trump, porém, já são registrados. Pesquisa divulgada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) mostra que, em razão da sobretaxa trumpista, a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro, embora ainda expressiva, desceu ao seu menor nível em dez anos.

Em média, desde 1997, a participação norte-americana nas exportações brasileiras no primeiro semestre tem ficado acima de 10%, o que mantém os Estados Unidos como o segundo maior parceiro comercial do Brasil. No período, a maior fatia absorvida pelo mercado norte-americano foi a de 13,7% do total das exportações brasileiras, registrada em 2019. No primeiro semestre de 2026, a participação caiu para 9,4%. No primeiro semestre de 2025, antes da vigência das sobretaxas trumpistas, tinha sido de 12,1%.

Relatório da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostra que as exportações para os Estados Unidos diminuíram 13,0% entre o primeiro semestre de 2025 e igual período deste ano. O presidente da Amcham, Abrão Neto, diz que o comércio bilateral “atravessa um período de forte pressão”, o que reforça a necessidade de negociações entre os dois países, para se evitar a aplicação de novas tarifas decorrentes de investigações com base na Seção 301 da lei de comércio de 1974. Trata-se de uma medida criada pelo Congresso norte-americano para permitir a investigação de países cujas práticas comerciais sejam consideradas prejudiciais ao comércio ou a empresas dos Estados Unidos.

Neste caso, ao contrário das encenações eleitorais de Flávio Bolsonaro, trata-se de coisa séria. O prazo para a conclusão das investigações da Seção 301 termina amanhã. Reuniões técnicas entre representantes dos governos brasileiro e norte-americano sucederam-se nos últimos dias. Mas, como ressalvou há dias o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosas, questões políticas foram evitadas nas negociações.

É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir. Como bem observou o Estadão em editorial (Flávio Bolsonaro desserve o Brasil, 9/7, A3), “Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros” ao usar os poucos minutos que tinha (na audiência da USTR) para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para negociar com o novo presidente, que seria ele próprio. A vergonha não pode converter-se em prejuízo econômico para o País.

 

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