O Globo
Se tem a diária, ninguém precisa pegar carona
em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.
A cena se passa em Brasília, em meados de
2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar
Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo
Piauí Ciro
Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba Hugo Motta,
do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao
Estadão:
— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.
O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num
jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que
temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro
que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que
seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.
Tudo normal, não é mesmo? Uma situação
corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma
pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o
patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe
disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre:
“se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer
pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.
Motta também esteve presente num fórum
jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates,
participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de
uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros
estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não
era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.
Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela
Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde
também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades,
chamam um banquete comandado por chef badalado.
Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os
parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes
políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas
nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem
formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser
audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30
anos.
Parlamentares podem, é claro, participar de
eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear
as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com
independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a
ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso
dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter
um amigo para “botar no hotel”.
A sinceridade, a simplicidade de Motta
impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou
deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis
internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo
apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que
não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do
mundo, também não podia.
Motta, um político mais novo, falou como
alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas
se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público
que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos
bastidores, manobram para bloquear as investigações.

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