Folha de S. Paulo
Regime chavista que instalou ditadura na
Venezuela e arruinou a economia do país não deixará saudades
Intervenção militar ordenada por Trump viola
leis internacionais e americanas e torna mundo menos seguro
Nicolás
Maduro não vale uma missa, mas o sistema internacional baseado em
regras, não só na força bruta, vale.
O regime chavista é indefensável. O leitor pode escolher quando o
"socialismo do século 21", que surgiu como mais um daqueles
populismos que assolam a América
Latina, se converteu em autocracia. Não faltam marcos potenciais. Pode ter
sido ainda sob Hugo Chávez, em 2004, quando o caudilho interveio no Tribunal
Supremo de Justiça, na prática anulando o Judiciário como Poder independente,
ou em 2009, quando ele convocou o plebiscito que eliminou os limites à
reeleição.
O vandalismo institucional de Maduro foi
ainda mais espalhafatoso. Em 2017, ele inventou uma Assembleia
Constituinte para esvaziar os poderes da Assembleia Nacional, na qual o
governo perdera maioria. Dali se seguiram, em 2018 e 2024, fraudes eleitorais
cada vez mais escancaradas.
A violência contra
as instituições se fez acompanhar de violência contra cidadãos. Prisões
arbitrárias, tortura e assassinatos políticos vieram num crescendo, além de
censura e dos demais itens do kit das ditaduras. A obra-prima do chavismo,
contudo, foi a ruína econômica. De 2012 a 2020, o PIB per capita
foi de US$ 12.607 para US$ 1.506, queda de quase 90%. Mais ou menos no mesmo
intervalo, 7 milhões de venezuelanos (22% da população) deixaram o país. Não se
tem notícia de nada parecido, exceto em guerras.
Se o possível fim do chavismo é uma boa
notícia, a forma pela qual ela se materializa é a pior possível. A intervenção
militar dos EUA ordenada por Trump viola
de modo flagrante leis internacionais e americanas. O "Agente
Laranja" não hesitou em falsear fatos nem o valor das palavras para tentar
dar aparência de legalidade à aventura. É a própria realidade que está sob
ataque.
Com tal gesto, Trump consolida a tendência, inaugurada por Putin com a invasão
da Ucrânia,
de substituição do sistema internacional que vigorava precariamente desde o fim
da 2ª Guerra pela lei do mais forte.
O mundo é hoje um lugar mais incerto e menos seguro.
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