quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Folia no Master, cinzas na República, Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Até festas de Daniel Vorcaro assustam figuras da política e da finança em vários estados

Medo de delação de ex-presidente do BRB eleva pressão sobre investigadores do caso

A festa do Master "não tem hora para acabar", como diz o clichê velho sobre comemorações de campeonatos de escolas de samba. Sim, a folia financeira acabou, assim como a pândega do "Cine Trancoso", festas em uma casa na vila de mesmo nome, em Porto Seguro, na Bahia, onde Daniel Vorcaro instalou uma zona de confraternização para seus "amigos em todos os Poderes" e na finança. As consequências é que são uma farra sem fim.

A quebra de um banco, ainda que pequeno, sempre é grave. No entanto, é preciso perguntar de novo: como é possível que a ruína de um Master atormente figuras das mais graúdas dos Poderes, de comandos de partidos e uma meia dúzia de empresários e financistas? Mais do que isso, instituições estão balançando na tormenta e não há fim para essa história no horizonte visível, a não ser que a operação abafa seja bem-sucedida.

Em tese, o que se passava na patuscada do Master não seria da conta de ninguém, não fosse o impacto que os primeiros relatos sobre a farra causaram em Brasília, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, na Bahia, no Piauí, no Paraná, em Pernambuco. Não há indício, por ora, de que possíveis vícios privados tenham interesse público. Mas há receio de que o divertimento possa ter sido gravado por Vorcaro, funcionários ou foliões. No dia de Cinzas e ressacas, o medo de que tenha havido grampo audiovisual assustava gente em vários estados; era a grande e debochada fofoca entre gente que voltava sonolenta para a "Faria Lima", como diz outro clichê.

Eram tempos ingênuos aqueles em que se tratava do Master como um banco que pagava demais pelos fundos que levantavam, pelos empréstimos (aqueles tais CDBs). Era ainda inocente dizer que os problemas do banco eram ativos pouco líquidos (que difícil, lenta e custosamente se transformam em dinheiro), tais como os precatórios. O caldo engrossou quando Banco Central disse que bilhões de ativos do Master eram apenas ficção.

Porém, essa fraude grotesca e bilionária anda meio esquecida, assim como o fato de que se tentava desovar o cadáver do Master no salão do BRB, o banco estatal do Distrito Federal, o que seria um crime perfeito. Também ficou em segundo plano o trânsito de dinheiro por fundos donos de fundos ligados a laranjas e empresas de fachada, além de sociedades e participações cruzadas esquisitas. Esses rolos deram origem à série, às crises, ora mais do que políticas: institucionais.

Dias Toffoli não se declarou impedido de relatar um caso que envolve seus ex-sócios; Toffoli e um ministro do TCU davam trancos na Polícia Federal.

Depois de grande vexame, por causa de investigação apenas preliminar da PF, Toffoli foi saído da relatoria do caso Master pelo STF. A reunião em que o STF varreu Toffoli para o avesso do tapete vazou. Então se soube que pelo menos um terço do STF quer chamar a PF às falas. Informações sobre ministros do STF e parentes vazaram para funcionários da Receita ou ali lotados, não se sabe para benefício de quem, o que rendeu mais uma perna controversa do inquérito eterno das "fake news", de 2019. A operação abafa da CPI continua. A grande turma do acordão ficou preocupada que alguém do grupo possa cair e dar de falar, com a ameaça de novos depoimentos de Paulo Costa, ex-presidente do BRB.

Que república é essa, que fica tão abalada por causa de um tamborete, um banco pequeno, e do tamborim da folia do Cine Trancoso e outras farras?

 

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