sexta-feira, 29 de maio de 2026

Entrevista | Ivan Alves Filho* : O Fascismo vai Além do Autoritarismo

O jornal Catetear Notícias 

*Ivan Alves Filho é historiador, membro do Cidadania

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Ivan Alves Filho: Creio que a presença fascista seja uma questão real na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político.

Essas práticas despontam entre nós toda vez que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início, contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente, havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto internacional não explica tudo. Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na Alemanha nos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o povo alemão caiu naquela esparrela. Afinal, a Alemanha era um país industrializado e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era um país desenvolvido economicamente – a pátria da Revolução Industrial –, possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial, mas a país sofria com o Absolutismo.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com centenas de milhares de membros nos anos 1930. Como você analisa este fato?

Ivan Alves Filho: É verdade e isso é muito impressionante. Talvez tenha que ver com a referência que fiz acima ao quadro internacional. E convém não esquecer que aquela era uma época de Estados fortes, centralizadores. O próprio socialismo que estava sendo construído na União Soviética partia do Estado para a sociedade civil e não o contrário. Contudo, havia também, entre nós, um contraponto forte ao Integralismo, qual seja, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Movimento de corte progressista, propunha a reforma agrária e o aprofundamento das reformas democráticas, com destaque ainda para a Educação e a Cultura. Enquanto isso, um líder como Plínio Salgado, apesar de comungar de algumas ideias dos modernistas da Semana de Arte de 1922, escrevia versos como "Sou um caboclo do Brasil / Que odeia Portugal / Que me ensinou a ler..." 

Prestes Filho: O Levante Revolucionário Antifascista de 1935, que a historiografia oficial insiste em chamar de Intentona Comunista, foi a primeira ação armada contra o fascismo no mundo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica, este levante teria a importância simbólica no combate ao fascismo no mundo como o envio do Corpo Expedicionário que o Brasil enviou para combater o fascismo na Europa?  

Ivan Alves Filho: O Levante de Novembro de 1935 se deu em uma época de profunda crise no Exército brasileiro, com toda uma série de escaramuças militares se espalhando por todo o país, sobretudo após o episódio conhecido por Dezoito do Forte, em 1922, no Rio de Janeiro. Os militares percebiam, até por intermédio dos seus armamentos obsoletos, as carências do país em matéria de industrialização. Com a Coluna Prestes, muitos deles perceberam a miséria que reinava no campo brasileiro, em sua extraordinária marcha por cerca de 24 mil quilômetros através do país. E essas questões se refletiram na ANL, integrada também pelos comunistas, tanto de origem militar quanto civil.

Milhares de pessoas foram presas e torturadas após o Levante de Novembro. Um advogado como Heráclito Sobral Pinto chegou a recorrer à Lei de Proteção dos Animais em sua defesa de presos políticos como Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, tamanha a desumanidade praticada contra eles, pior do que aquela imposta aos animais. Naturalmente, a sociedade brasileira ia tomando consciência dessas barbaridades. A tal ponto que, já em 1942, na Bahia, os estudantes desciam às ruas para pedir o fim do Estado Novo e a entrada do Brasil na Guerra, contra o nazifascismo, ao lado das forças democráticas. A Força Expedicionária Brasileira, composta de 25 mil homens, é fruto dessa luta, contribuindo para derrotar o fascismo. Eu diria que essa foi a página mais significativa escrita pelas Forças Armadas brasileiras ao longo de toda sua História. Na volta dos pracinhas ao Brasil, a situação da ditadura Vargas ficou incontornável e o ditador não teve outra escolha a não ser decretar anistia e legalizar as forças políticas presentes na sociedade brasileira, dos liberais da UDN aos comunistas do PCB. Não fazia sentido nenhum combater uma ditadura lá fora e continuar mantendo uma ditadura aqui dentro.

Vale dizer, a luta não foi em vão; nenhuma luta o é. A História recente do Brasil demonstra que, quanto mais ampla uma frente democrática é, mais liberdade se tem. E quem ganha com isso é o povo do país – e quem perde com isso é o próprio fascismo.

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