Folha de S. Paulo
Engenheiro vê questões setoriais e perda
inicial de produtividade, mas não sabe do saldo econômico
Juros, falta de mão de obra qualificada,
automação e IA, energia cara e impostos preocupam mais
O Brasil não vai quebrar porque já não
funciona, ri um empresário grande ao comentar disputas furiosas sobre o efeito
econômico da escala 5x2 e da jornada de trabalho reduzida, aprovada
por mais de 95% dos deputados federais votantes, que vai ao Senado.
Quem passeou pelas ruas violentas das mídias
sociais nos últimos dias terá ouvido gritos de "o
país vai quebrar" ou que nada vai acontecer de ruim, apenas
melhoras na vida de quem trabalha mais de 40 horas ou cinco dias, para choro de
"defensores da escravidão" (parece haver mesmo alguns deles por aí).
O empresário não quer se identificar. "Dar entrevista, rede social, é perda de tempo e a gente sai queimado."
Estima
que o efeito da mudança sobre sua empresa será pequeno. "Tudo
mais constante, a folha fica 10% mais cara [com a mudança]", mas afirma
que o peso dos salários no seu custo é pequeno e a alteração da escala de
trabalho não vai desarranjar a produção. Em breve, o efeito do fim da
"6x1" e da jornada menor deve ser quase nulo, graças a automações e
"mudanças de chão de fábrica" —no caso dele.
Parte menor desses ganhos estimados de
produtividade será "perdida" (vai compensar pequenas perdas com a
mudança trabalhista), diz, mas não vai "andar para trás". Mais
importante, na opinião dele, em um "par de anos" isso "deve
virar poeira no meio de outros temas".
O próprio empresário, um engenheiro, diz não
saber o que vai ser do seu negócio, dados outros problemas ou
"temas". Pela ordem de importância, para ele: taxas de juros, mão de
obra qualificada, automação e inteligência
artificial, energia muito cara, aumento de impostos, incerteza jurídica,
China.
"O pessoal", continua, acha que
queixa de falta de trabalho qualificado é coisa de "empresário
chorão", mas "quero contratar, quero fazer coisa, não contrato, não
faço, porque falta gente. Já, já, o tema vai ser importar
mão de obra, imigração, em um país em que a maioria ganha muito pouco. Não
faz sentido".
O empresário diz que o caso dele é
"quase um luxo". Imagina que certas
empresas terão dificuldades de reorganizar o tempo de trabalho (precisam
de escalas diferentes da 5x2), custos com novas contratações, dificuldades
diversas de aumentar a produtividade (das típicas do negócio à falta de
capacidade técnica e de fazer investimento) etc. Comércio físico, restaurantes
e similares, hotéis, pequenos serviços pessoais, manutenção "vão ter
problema". Diz, com ironia, que "ninguém está falando da crise do
condomínio de rico", que vai ficar mais caro.
Diz que tudo depende da característica de
"milhões de negócios muito diferentes", dos quais não sabe nada. Mas
acha também que "vai ter um incentivo torto para o pessoal se virar e
inovar até no dia a dia" ou "reorientar a empresa",
"automatizar processo". "Fácil não vai ser, para muita gente,
para gente pequena."
Quanto
ao saldo econômico para o país, não tem ideia. "Vai ter alguma
perda inicial, estagnação ou perda de produtividade", redução do salário
de contratação em algumas empresas, precarização em outras, "mas não tenho
nenhuma ideia do efeito total".
Acha que o problema maior não está aí.
"Vamos ter juros altos por muito tempo, energia cara, falta de gente e
também falta de emprego por causa de IA. Problema novo não ajuda ninguém, a
mudança da escala vai dar algum problema, de início. Mas a gente não está
cuidando direito de mais nada para viabilizar as empresas aqui [no
Brasil]".
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