O Estado de S. Paulo
A alteração na jornada e escala de trabalho
tem consequências profundas e a longo prazo que estão sendo introduzidas pelas
considerações políticas mais imediatas e mesquinhas. A de ganhar a qualquer
vantagem político-eleitoral. Pode-se falar de um comportamento de “classe”
política, pois não há relevantes diferenças entre a postura de “situação” e
“oposição”, quaisquer que sejam os rótulos ideológicos.
O Brasil tem como características centrais alta informalidade, baixa produtividade, judicialização extrema das relações capital-trabalho, leis trabalhistas brigando com os avanços da tecnologia, formação de capital humano deficiente que se traduz em mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação. O que se faz agora é tornar esse macroambiente ainda pior.
Os economistas debatem o tipo de dano em
termos de inflação, redução do PIB potencial, possível desemprego. O mundo
intrincado dos operadores de direito já se prepara para mais um tsunami. Tudo
isso é importante, mas particularmente negativo é aquilo que o sociólogo José
Pastore chama de “desastre social”.
Aos 91 anos de idade, sempre sereno, cordato
e racional, Pastore se diz surpreso com “a maior irresponsabilidade” que já viu
em seus 70 anos lidando com essas questões. Ocorre que o “desastre social” é ao
mesmo tempo causa e consequência de outro desastre, o político.
A tramitação da reforma tributária tinha sido
uma janela “antropológica” sobre o caráter das relações de poder no Brasil –
leia-se patrimonialismo, dada a luta para acomodar interesses privados via
exceções, benefícios, corporativismo. A saga da 6x1 é outra aula sobre a
“cabeça do brasileiro”, tal como exposta na conduta de seus representantes
eleitos.
A “classe” política não exibe qualquer
compromisso com políticas abrangentes que levem em conta o bem-estar comum e
não apenas os interesses de curto prazo ou setoriais e regionais. Grave em si,
esse contexto foi piorado pelo marketing político do governo, que se empenhou
em transformar empregadores em senhores de senzala, e empregados em seres hipossuficientes
que só o Estado protege.
O “nós contra eles” faz todo sentido na busca
de reeleição por parte de um presidente agarrado a ideias decrépitas. Ele é um
dos lados numa luta política na qual se acredita que populismo só se derrota
com populismo, espiral que se aprofundou a ponto de se duvidar de uma saída em
horizonte próximo.
Essa dúvida se assenta no fato, descrito por
Bolívar Lamounier, de que o País insiste em praticar uma democracia sem
partidos políticos dignos desse nome. A tendência é o aprofundamento das
oligarquias partidárias regionais – de novo, causa e consequência num fenômeno
de distorção da relação entre os poderes que se retroalimenta.
Na questão da 6x1 a propaganda governista
sugere um “avanço”. Na verdade, está celebrando o atraso.

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