O jornal Catetear
*Marly Vianna, historiadoraLuiz Carlos Prestes Filho: Será que
negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira?
Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?
Marly Vianna: Creio que não.
Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e
outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente
violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança
devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte
da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários.
Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda
bastante a da casa grande e senzala.
Prestes Filho: O Brasil foi o país
com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira
contava com centenas de milhares de membros nos anos 1930. Como você analisa
este fato?
Marly Vianna: Houve, em
especial na década de 1920, vários pequenos partidos de extrema direita, que em
1932 se juntaram à Ação Integralista Brasileira (AIB). Mas os partidos
fascistas, compostos principalmente de descendentes de alemães que imigraram
para o Sul do Brasil, tiveram pouca influência na política brasileira, até
porque não quiseram se misturar com a direita do país. Não aceitaram, por
exemplo, participar da AIB. Alguns viviam a esperança da criação de um governo
alemão no sul do Brasil e nessa perspectiva mantinham contatos com a Alemanha,
mas nenhuma ação relevante aqui, a não ser alguma influência no campo da
propaganda ideológica.
Prestes Filho: O Levante
Revolucionário Antifascista de 1935, que a historiografia oficial insiste em
chamar de Intentona Comunista, foi a primeira ação armada contra o fascismo no
mundo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica, este
levante teria a importância simbólica no combate ao fascismo no mundo como o
envio do Corpo Expedicionário que o Brasil enviou para combater o fascismo na
Europa?
Marly Vianna: O levante armado de novembro de 1935, no Rio de Janeiro, levado adiante pela seção militar do Partido Comunista do Brasil - PCB (a direção do partido mostrou-se contra e praticamente não mobilizou ninguém), sob as ordens de Luiz Carlos Prestes, juntamente com militares da Aliança Nacional Libertadora, tinha por objetivo derrubar o governo e instalar um Governo Nacional Popular Revolucionário com Prestes à frente, por pão, terra e liberdade. Dentro dessas suas propostas estava implícita a luta contra o nazi-fascismo e, internamente, a Ação Integralista Brasileira(AIB). Os levantes democráticos desse período não tiveram como consigna exclusiva a luta contra o nazi-fascismo e a guerra, foram mais amplos, como em novembro de 1935 no Brasil, mas todos eles incluíam tal palavra de ordem com destaque. Nesse sentido, houve movimentos semelhantes anteriores a 1935, como o levante nas Astúrias, em outubro de 1934. Dado o crescimento da direita depois de novembro de 1935, com expressivo aumento das fileiras da AIB e da orquestrada campanha virulentamente anticomunista, não creio que novembro de 1935 tenha sido, para a população, um marco da luta antifascista. O Brasil entrou na guerra, depois de muitas idas e vindas do governo, em agosto de 1942, muito em resposta aos torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães, navios de passageiros, como o Baependi, em julho daquele ano. Por um lado, isso provocou forte mobilização popular, exigindo a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo. E também por pressão dos aliados e da barganha de Vargas com os Estados Unidos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário