domingo, 31 de maio de 2026

Podemos rir disso? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro analisa humor em tempos conflagrados

Autor teme volta de leis de blasfêmia para evitar ofensas

"Can We Laugh at That?", de Jacques Berlinerblau, analisa o humor nos tempos conflagrados em que vivemos. É um livro interessante e paradoxal. Como não poderia deixar de ser, ele traz várias piadas, mas muitos as considerarão ofensivas e não rirão delas. Pelo contrário, ficarão indignados. O autor, porém, não teria como se abster de reproduzir essas anedotas, que são o objeto mesmo de que trata a obra.

Não estou entre os indignados. Devo ser o sonho de consumo dos comediantes, já que rio de tudo, incluindo piadas de judeu e que troçam de outras categorias a que eu possa pertencer. Devo ser um dos últimos, mas introjetei a ideia básica de que o humor não é para ser levado a sério.

A tese central de Berlinerblau é a de que a era digital modificou a dinâmica da comédia. Até alguns anos atrás, era baixo o risco de alguém se deslocar para assistir a um show que não apreciaria, daí que era difícil que piadas gerassem grandes círculos de indignados. A internet mudou isso. Hoje, tudo está a um clique de distância e nunca foi tão fácil deflagrar ondas de indignação moralizante. Comediantes, sendo o que são, não raro transformam a reação em material de novas piadas, redobrando a carga de ultraje.

Berlinerblau é bem eclético nos casos que analisa. Na introdução, ele menciona o Porta dos Fundos e seus especiais de Natal. Nos capítulos propriamente ditos, ele começa pelos EUA, onde o consenso em torno de uma liberdade de expressão robusta é mais forte e vai passando a países onde ele é mais tênue, caso da Europa, e onde praticamente inexiste, como Índia e Zimbábue. O leitor poderá reconhecer alguns nomes como o de David Chappelle e Dieudonné M’bala M’bala. Será relembrado do triste caso do Charlie Hebdo e conhecerá alguns comediantes dos quais provavelmente nunca ouviu falar.

A conclusão de Berlinerblau tem algo de sombrio. Ele acha que a nova dinâmica veio para ficar e receberá amparo estatal, o que na prática significará a volta de leis de blasfêmia para limitar o humor ofensivo.

 

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