O Estado de S. Paulo
Enquanto Lula bloqueia gastos da Defesa e Flávio tenta se blindar, os demais silenciam
O Brasil é um país diferente. Em nenhum lugar o ministro da Defesa diz que a Nação está indefesa sem que uma tempestade desate no Parlamento. Pois José Múcio disse isso a um grupo de empresários em evento fechado, promovido pela Seta, e nada aconteceu. É como se Múcio fosse o major Giovanni Drogo à espera de tártaros que nunca aparecem diante da Fortaleza Bastiani. Ou como se o Atlântico de um lado e a Amazônia do outro fossem o deserto onde os militares passam suas vidas à espera do inimigo que não se mostra.
Como no romance de Dino Buzzati, Múcio
começou a ver luzes se aproximando da Ridotta Nuova, a fortificação mais além
da Bastiani. E elas vinham do norte. No começo apareciam em alguma estrada na
fronteira com a Venezuela; depois, deslocaram-se mais ao norte ainda e, desde
que Trump assumiu o poder, surgem no céu e no mar.
Pois, no dia seguinte ao desabafo de Múcio,
os americanos resolveram pôr o PCC e o CV em sua lista de organizações
terroristas. E o que fez o governo do pré-candidato à reeleição Luiz Inácio
Lula da Silva? Ele congelou, no dia seguinte, R$ 4,4 bilhões em gastos
militares, o maior corte entre os ministérios. “Num país que precisa de
remédio, de livro, de comida, de habitação, que precisa de tantas coisas,
nenhum presidente tem a coragem de dizer: ‘Eu vou tirar dinheiro daqui e
colocar em defesa’. Por isso, defendo a previsibilidade orçamentária”, disse
Múcio. Sem ela, caças, submarinos e artilharia e drones modernos ficam apenas
nos planos.
Lula sabia que ia contrariar os militares e,
por isso, a direção da pasta dos Direitos Humanos esteve ausente da cerimônia
da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, que, por seis votos a um,
atribuiu ao regime militar a responsabilidade pela morte do ex-presidente
Juscelino Kubitschek. Foi sexta-feira, dia do bloqueio das verbas. O evento foi
rápido e quase sem divulgação. Tudo para não afrontar ainda mais os militares.
E qual a reação dos demais pré-candidatos ao
bloqueio das verbas? Nenhuma. Além de bajular Trump, Flávio Bolsonaro tem uma
única preocupação: fingir ser normal receber milhões de um banqueiro
responsável pela maior fraude da história do País e mandar esses recursos a um
fundo no exterior, mantendo em segredo a origem da fortuna. Já os demais
pré-candidatos quase sempre tratam apenas da Segurança Pública.
Diante da ausência de debate entre eles sobre
a Defesa nacional, Múcio concluiu: “Não pode continuar desse jeito. Nossa
munição é para 30 dias. Não temos munição para brigar com eles aí. Isso é
grave, e a sociedade precisa saber. Se alguém nos invadir, a melhor maneira de
se defender é abrir a porta”.

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