O Estado de S. Paulo
Com o estímulo ao crédito, fica difícil prever esfriamento do mercado que dê alívio à inflação
Os dados de geração de emprego formal referentes a abril surpreenderam os analistas, vindo abaixo até da projeção mais pessimista, o que levantou a questão sobre se o mercado de trabalho irá finalmente desacelerar a ponto de tirar pressão sobre a dinâmica da inflação e dar mais conforto ao Banco Central para seguir cortando os juros.
Pelos dados do Caged, foram criadas 85,9 mil
vagas de carteira assinada em abril, enquanto analistas previam 211 mil. A
projeção mais pessimista era de 130 mil novos empregos formais. Após esse
número, muitos analistas revisaram suas estimativas para a criação de vagas
formais em 2026 para mais próximo de 1 milhão – não tão distante do resultado
de 2025, de 1,279 milhão.
É uma acomodação, mas ainda é possível qualificar o mercado de trabalho como apertado. Os últimos números da Pnad Contínua corroboram isso. O desemprego recuou de 6,1%, no primeiro trimestre do ano, para 5,8% no trimestre encerrado em abril. O economista Rodolfo Margato, da XP, diz que a taxa de desemprego segue significativamente abaixo de seu nível neutro, estimado por ele em 7%. “Condição que dificilmente se reverterá de forma relevante no curto prazo”, diz. A taxa de desemprego de equilíbrio, abaixo da qual a pressão sobre a inflação aumenta, é uma das maneiras de se medir a ociosidade da economia.
Do ponto de vista da política monetária,
também preocupa o fato de que os rendimentos reais seguem acima da
produtividade da economia. Num ambiente de mercado de trabalho aquecido, as
empresas acabam repassando para o preço final ao consumidor o custo maior com
salários que não é compensado por ganhos de produtividade. Segundo analistas do
BTG Pactual, os indicadores salariais do Caged, da Pnad e do Salariômetro da
Fipe apontam para ganhos reais de salários acima da produtividade no primeiro semestre
deste ano.
Nos cálculos da XP, o rendimento médio
habitual real registrou ganho de 5,4% ante o mesmo mês de 2025. É um ritmo
forte. Para os economistas da consultoria 4intelligence, os reajustes salariais
negociados acima da inflação oferecem suporte adicional aos rendimentos formais
ao longo de 2026. “Esse fator, somado ao reajuste real do salário mínimo, à
recomposição salarial do setor público e à atividade ainda resiliente, deve
sustentar massa de renda elevada e consumo das famílias neste ano”, dizem os
analistas da consultoria em relatório.
Com as medidas de estímulo ao crédito e à
renda adotadas pelo governo, fica difícil prever um esfriamento do mercado de
trabalho que dê alívio à inflação.

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