quinta-feira, 9 de julho de 2026

A esticada dos juros da dívida, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Todos os dias aparece alguém para criticar a política de juros escorchantes do Banco Central. Mas, agora, é também o credor do Brasil que puxa os juros para cima, independentemente da política monetária.

Embora, no dia 17, o Copom tenha reduzido os juros básicos (Selic) em um quarto de ponto porcentual ao ano, nas últimas semanas os juros de longo prazo, que o mercado, e não a Selic, vem definindo, estão aumentando quase todos os dias. Para ficar com os títulos do Tesouro, os ativos mais seguros do País, os investidores vêm exigindo juros reais (acima da inflação) até superiores a 8,0% ao ano.

Isso acontece porque a dívida pública está disparando e já ultrapassa os 80% do PIB e, mais, porque dispara à velocidade de 3,5% e 4,5% ao ano. E, atenção: esse crescimento da dívida não acontece apenas porque o Tesouro tem de incorporar os juros altos definidos pelo Copom, mas porque o Tesouro não consegue juros baixos na rolagem dos títulos de longo prazo.

É a situação do sujeito que deve mais de 80% do seu salário e continua gastando mais do que ganha. Dia chegará em que os cobradores estarão às suas portas e será suspenso seu crédito na praça.

O governo Lula insiste na enganação. Os membros da equipe econômica repetem que as condições fiscais estão melhorando. Mas todos os dias inventa despesa nova e enrola a opinião pública com a alegação de que boa parte dessas despesas não entra nos cálculos do arcabouço fiscal.

O governo está usando o Tesouro como financiador das eleições. Aumentou as desonerações do Imposto de Renda; despejou mais crédito habitacional; instituiu o Desenrola, que pretende reduzir as dívidas familiares ou esticar o prazo de amortização; e multiplicou os créditos subsidiados. O total desses presentões, apenas neste ano, vai chegando aos R$ 220 bilhões.

Uma das alegações é a de que o avanço fiscal multiplica a renda e, portanto, aumenta a arrecadação, que, por sua vez, derruba o rombo. Dinheiro assim despejado aumenta provisoriamente o PIB, mas contrata restrições do avanço para logo em seguida. É como comer sementes. Alimenta, mas derruba safra futura.

Pior, deixa a economia do País vulnerável a choques. Esses choques podem vir de distúrbios climáticos, como o fenômeno El Niño; de crises políticas internas ou externas; ou de forte alta dos juros nos Estados Unidos, como vai pintando. Isso aí é como o tombo de bêbado. Não foi o desnível na calçada que o derrubou; foi o excesso de bebida que o deixou propenso ao tombo. •

 

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