Folha de S. Paulo
É clara a intenção dos Bolsonaros de
mobilizar o apoio americano a seu candidato
Em julho passado, ele celebrou as tarifas de
50% sobre produtos nacionais
A relação com os Estados
Unidos é o maior desafio enfrentado pela política externa brasileira
—pela importância que a potência sempre teve para nós e pela imprevisibilidade
de seu prepotente presidente.
Desde a volta de Donald Trump,
especialistas de diferentes quadrantes discutem a melhor maneira de defender
seus países do ocupante de turno da Casa Branca.
Em artigo publicado na Cebri-Revista, há cerca de um ano, o professor da USP Feliciano de Sá Guimarães já defendia que o Brasil adotasse, diante da potência do norte, uma estratégia sofisticada, que combinasse contenção e engajamento em diferentes frentes, evitando seja o confronto total, seja a completa submissão. Discernindo quando e em torno do que é possível negociar e respondendo com firmeza à pressão exorbitante. Sobretudo, procurando não reduzir a relação a um tópico específico —comércio, conflitos mundiais ou segurança regional.
Parece ser esse o percurso que a política
exterior brasileira, conduzida por experientes diplomatas, tenta seguir, com
graus variados de êxito. As negociações sobre o tarifaço; a atitude prudente
diante da invasão da Venezuela e
o sequestro do então presidente Maduro, de um lado; e as manifestações do
Palácio do Planalto a respeito do enquadramento do PCC e do Comando
Vermelho como grupos terroristas, de outro, indicam que a abertura
para negociar quando possível e a prontidão para conter a eterna prepotência
trumpista são opções que a diplomacia brasileira tem escolhido seguir.
O caminho é acidentado e vem se estreitando
com a proximidade das eleições e dada a conexão política entre a extrema
direita nacional e o trumpismo. É clara como o dia a intenção dos Bolsonaros de
mobilizar o apoio americano em benefício do candidato presidencial do clã,
mesmo com escancarado prejuízo para o país. Mas desde quando isso lhes importa?
Basta ver o patético zigue-zague das posições
de Flávio
Bolsonaro em face do tarifaço imposto aos produtos brasileiros há um
ano.
Celebrou nas redes sociais as exorbitantes
tarifas de 50%, decretadas em julho de 2025. Seu irmão Eduardo jactou-se de ter
contribuído para que elas acontecessem e viessem misturadas a medidas contra
ministros do governo e do Supremo.
Em maio deste ano, o pré-candidato à
Presidência cavou audiência com Trump, na qual afirma ter pedido o fim das
tarifas. No mesmo dia, o governo americano anunciou a imposição de taxa de 25%
sobre os produtos nacionais.
Em junho, com 47% dos brasileiros
responsabilizando-o pelo tarifaço ( pesquisa da Quaest), Flávio Bolsonaro
enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual pediu o adiamento da
aplicação das tarifas até as eleições; prometeu que, eleito, formaria um grupo
de transição com representantes do governo americano e assumiu
"compromisso legislativo" de que o Pix não seria internacionalizado.
Nesta semana, falando, em Washington, em
audiência pública do USTR —órgão responsável pela política comercial—, disse
que as tarifas beneficiariam o presidente Lula.
A politização de conflitos com os EUA de
Trump, com exclusivo propósito eleitoral, não interessa ao país. Só a quem põe
a ambição de poder de seu clã cima de tudo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário