Correio Braziliense
A incapacidade de o Banco Central produzir a
convergência da inflação para o centro da meta talvez possa ser explicada na
escolha das palavras contidas nos seus instrumentos de comunicação
Na sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu cortar a taxa básica de juros para 14,25% ao ano. Essa decisão já era esperada pela ampla maioria dos agentes e, portanto, não causou surpresas. Surpreendente mesmo é a imensa dificuldade encontrada pelo Comitê de explicar a sua decisão. A inflação no país voltou a performar acima da meta nos meses recentes, fruto de choques em preços de energia. No entanto, o atual nível de contração da política monetária deveria ser capaz de produzir a convergência em horizonte razoável.
Para que tenhamos clareza, uma Selic de
14,25% coexistindo com uma inflação de 4,72%, supõe uma taxa real de juros de
9,53%. No último Relatório de Política Monetária (RPM) o Copom sinalizou uma
taxa neutra de juros de 5%. A taxa neutra de juros pertence à família de
variáveis não observáveis, trata-se de uma taxa de referência de longo prazo
quando a demanda se iguala ao PIB potencial. Entende-se que, se o juro real for
igual ao neutro, a política monetária nem estimula, tão pouco desestimula a
inflação. Isso nos dá uma certa noção sobre o quão contracionista segue a
política monetária no país mesmo diante do último corte. Uma Selic real de 9,5%
coexistindo com um juro neutro de 5% resulta em um juro real 4,5% acima do
neutro.
A persistência da inflação alternando
momentos acima da meta, com outros no limite superior da mesma, deflagra o mau
funcionamento do Regime de Metas de Inflação (RMI) no Brasil. Esse problema
torna-se ainda mais evidente desde a independência do Banco Central em 2021. De
lá para cá, o Copom não tem sido capaz de produzir a convergência da inflação
para o centro da meta, mesmo diante da calibragem da política monetária que tem
produzido há anos juros reais muito superiores ao juro neutro.
As razões da incapacidade de o BCB produzir a
referida convergência da inflação para a meta, a despeito de juros reais tão
altos, requerem investigação mais aprofundada. No entanto, é possível
apresentar algumas suspeitas. Nos últimos dias, um elevado volume de
reportagens envolvendo o último comunicado do Copom tomou conta da imprensa. O
Comitê deu margens a interpretações ao sinalizar um cenário de incertezas,
mediante a choques, ao mesmo tempo que sinalizava "diferentes
trajetórias" na taxa de juros; combinada com convergência da inflação para
a meta apenas em 2028. Isso deixou alguns economistas perplexos.
O RMI é um produto da revolução das
expectativas racionais dos anos 1970. Até meados daquela década, havia a crença
generalizada de que a inflação era causada ou pela quantidade de moeda em
circulação ou por eventual conflito distributivo entre trabalhadores e empresas
expresso na relação entre salários/preços. Sob expectativas racionais, a
inflação passou a estar condicionada à informação que os agentes econômicos têm
no momento de decidir sobre preços e salários. Em outras palavras, ao decidir o
seu preço hoje, uma firma faz projeções baseadas nas informações disponíveis
sobre o comportamento da economia no futuro. Repare que, sob tais hipóteses, a
inflação deixa de ter causas puramente monetárias e passa a ter causas
psicológicas.
A informação passa a ter um papel fundamental
nas decisões de agentes quanto a salários e preços, e isso inaugura nos anos
1990 uma nova maneira de os BCs fazerem política monetária. Até então, os BCs
faziam política monetária controlando a oferta de moeda. A partir dos anos
1990, a política monetária passa a ser operacionalizada a partir de uma oferta
endógena de moeda, em que os Bancos Centrais passaram a manipular taxas de
juros em operações de mercado aberto, visando acomodar a demanda por liquidez
na economia. A mudança não se deu meramente na transição do instrumento de
política da moeda, para o juro. Regimes de metas passaram a ser instituídos a
partir de uma função de reação dos BCs tal que a forma como os BCs manipulam os
juros, passa a ser de conhecimento público.
O regime funciona com uma meta que nada mais
é do que uma informação. Se há expectativas racionais e os preços são baseados
em projeções que as firmas fazem mediante às informações que têm, sendo o BC
crível, os agentes escolhem seus preços baseados na meta conhecida. Voltando
aos instrumentos de comunicação do BC, eles passam a desenvolver um papel
fundamental nesse regime, pois complementam o quadro de informações disponíveis
aos agentes, auxiliando-os na sua decisão quanto aos preços.
Nesse sentido, comunicados como o divulgado
na última reunião são contraproducentes, pois criam incertezas que deveriam
ajudar a dirimir. O problema é que falhas na comunicação não são exclusivas da
última reunião. Desde 2021, o BCB vem continuamente postergando o horizonte de
convergência, isso mina a credibilidade do RMI. Se o BCB não acredita na
convergência, os agentes não têm por que acreditar e escolherão seus preços
baseados em outros critérios. Repare que, nesse caso, o nível da taxa de juros
se torna irrelevante para produzir a convergência.
Em suma, a incapacidade de o BCB produzir a
convergência da inflação para o centro da meta desde a sua independência, em
2021, não tem muito a ver com a calibragem da taxa de juros, mas talvez possa
ser explicada na escolha das palavras contidas nos seus instrumentos de
comunicação.
*Benito Salomão — professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGE/UFU)

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