domingo, 12 de julho de 2026

Benedito, por Ignácio Loyola de Brandão*

O Estado de S. Paulo

Benedito Ruy Barbosa morreu na semana passada, aos 95 anos. Cinco a mais do que eu. Jovens, nos encontrávamos no jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Ele nos esportes, eu na geral e em variedades. Ambos magros, sotaque caipira. O meu, araraquarense; o dele, de Vera Cruz, vizinha a Marília.

Na verdade, depois descobri que ele nasceu em Gália. Este nome me remetia às aulas de latim do professor Luciano, que nos obrigava a decorar De Bello Gallico. Quando me contou de sua cidade, eu disse: Garça, Gália, Vera Cruz, Lácio, Marília. Trajeto que eu fazia nas férias indo para sítios de tios cafeicultores de porte médio em Vera Cruz.

Na UH – como dizíamos –, ele ficava muito perto de mim, graças aos meus contatos com o mundo do cinema e do teatro. Assim, cautelosamente, ele foi chegando ao Oficina e ao Arena, que se contrapunham ao “teatrão”, como se dizia, do TBC, e de Cacilda Becker, Nydia Licia, Sérgio Cardoso e outros figurões.

Mas, quando Benedito estreou no Teatro de Arena com Fogo Frio, foi uma surpresa. Boa. Para mim ele era do esporte, nada mais. Tanto que chegou a escrever uma biografia do Pelé. Lembro que Vera Cruz e Bauru, terra onde Pelé se fez, são próximas. Ali por 1965, Benedito e eu nos encontramos em Vera Cruz, na tarde em que Anselmo Duarte estreou seu Vereda da Salvação, impactante adaptação da peça teatral de Jorge Andrade. Era uma ramificação do Festival de Cinema de Marília, o melhor do interior.

Eu me gabei, como se dizia: “Sabe que fui o primeiro a saltar do trampolim na inauguração da piscina daqui?”. Aliás, mergulhar eu sabia; nadar, não. Rimos, entramos no cinema. Éramos apaixonados pelas palavras e pelas sensações que podíamos provocar com elas.

Aquele domingo em Vera Cruz foi uma sensação, afinal, Anselmo tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas. Benedito me disse: “Lembra-se de quando estávamos aqui na cidade, jantando aos domingos, e o cinema tocava uma sirene? Todo mundo empurrava o prato, se arrumava e voava para o cinema”. Tínhamos isso em comum: a paixão pelo cinema.

Ele a sublimou com as telenovelas. Foi um sucesso. Como esquecer Pantanal , Terra Nostra, O Rei do Gado e tantas mais? Eu segui pela literatura com romances, contos, infantis, crônicas. Pouco nos vimos por muitos anos. Penso como o Última Hora foi um celeiro: Jô Soares iniciou sua coluna; Walther Negrão, suas telenovelas; Roberto Freire começou no teatro e nas novelas, e depois criou o Sem Tesão Não Há Solução; Ricardo Ramos, filho de Graciliano, editou literatura; Mila Moreira, então Marilda, foi eleita Miss Luzes, tornou-se modelo e atriz famosa. Fiquei devendo sua biografia. E como a redação resplandecia quando Danuza Leão, mulher de Samuel Wainer, chegava para buscar o marido. 

*É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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