domingo, 12 de julho de 2026

O presidenciável e o ministro do STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que a tentativa de golpe desuniu, o Master uniu: Flávio e Alexandre de Moraes

O prazo venceu e o presidenciável Flávio Bolsonaro não deu explicações ao PL sobre a dinheirama que pediu a Daniel Vorcaro. E o ministro Alexandre de Moraes? Jamais justificou o contrato fabuloso do escritório de sua mulher com Vorcaro. De Dias Toffoli, nem se ouve falar mais.

O mundo dá voltas. O que a tentativa de golpe desuniu, o Banco Master uniu. Flávio e Moraes, de lados extremos no julgamento de Jair Bolsonaro, estão numa situação semelhante em relação a Vorcaro e Master. De certa forma, inclusive, um serve de para-raios para o outro.

Como endurecer com Flávio e não Moraes, ou vice versa? Ambos alegam, um publicamente, outro entre amigos, que se trata de negócios ou acertos privados, sem nada a ver com dinheiro público, e nenhum dos dois sofreu operação de busca e apreensão da Polícia Federal.

Se isso mudar para um, tem de mudar para os dois? Ou PF e STF vão atrás de um por um “financiamento privado” e do outro por “contrato privado”, ou ninguém se move e fica tudo como está. Ao menos até as eleições...

Flávio foi capaz de pedir CPI e usar o Master na audiência técnica contra tarifas, nos EUA, como se não tivesse nada a ver com isso. E Moraes, em vez de explicar as mensagens, soltou os cachorros contra o mensageiro, ou seja, contra quem vazou para a imprensa as informações sobre o contrato de sua mulher.

Até os valores são praticamente iguais e inexplicáveis. Flávio pediu R$ 134 milhões para o filme sobre o pai. O contrato do escritório da família de Moraes com o banqueiro era de R$ 129 milhões. O valor do filme supera o dos dois brasileiros que brilharam no Oscar. O de advocacia é muito acima do mercado.

Flávio e Moraes tinham relações e encontros com Vorcaro. No caso do senador, inclusive, quando ele já estava em prisão domiciliar e de tornozeleira, em São Paulo. Coisa de quem é próximo, ou tem grandes interesses.

As investigações, porém, descansam sobre a versão das “questões particulares”, sem relação de causa e efeito. Não há, ou ainda não surgiu, evidência de que Flávio tenha pago seus milhões com votos no Senado, nem de que Moraes, com medidas no STF.

Essa é a justificativa formal para distinguir Flávio dos dois outros senadores envolvidos, Ciro Nogueira, bolsonarista, e Jaques Wagner, lulista, que defenderam projetos em favor do banco e do banqueiro e sofreram operações da PF.

No STF, não consta que Moraes tenha agido no caso Master, ao contrário de Toffoli, que, como relator do escândalo, produziu sobejas provas contra si. Ele, porém, também não foi alvo de busca e apreensão, como Wagner e Nogueira. Aliás, é possível operações policiais contra ministros do Supremo?

 

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