quarta-feira, 15 de julho de 2026

O mercadão das emendas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

STF vê 'privatização do orçamento' em repasses operados por Cunha e Valdemar

Eduardo Cunha foi cassado e preso, mas não largou o osso. Sem mandato desde 2016, o ex-deputado encontrou uma nova forma de roer o orçamento. Abocanhou emendas reservadas para parlamentares em exercício.

O contrabando foi descoberto pela Polícia Federal. Em ofício ao Supremo, os investigadores descreveram Cunha como “beneficiário direto de malfeitos”. O ministro Flávio Dino mandou bloquear R$ 6 milhões em bens do ex-deputado, que nega irregularidades.

A PF cruzou dados e identificou 21 emendas terceirizadas para Cunha. Ele destinou o dinheiro a pequenas cidades no interior de Minas Gerais, sua nova base eleitoral. Em diálogo com uma operadora do esquema, o fundador da Jesus.com se mostrou impaciente com prefeitos recrutados para a barganha. “Não aguento mais esses mineiros enrolados”, queixou-se.

O pai de Dani Cunha não está sozinho. O chefão do PL, Valdemar Costa Neto, também se assenhorou de emendas alheias. Sem mandato desde 2013, ele destinou ao menos R$ 119 milhões a aliados. Ontem o ex-deputado definiu a prática como a “coisa mais natural do mundo”. “Eu faço sugestão, o líder assina se quiser”, disse à GloboNews.

Num dos casos rastreados pela PF, uma emenda de um deputado do Rio de Janeiro pagou o cachê de uma dupla sertaneja no interior de São Paulo. O show de Thaeme & Thiago custou R$ 280 mil. A grana foi torrada em Guaimbê, município de 5,5 mil habitantes cuja prefeita é ligada a Valdemar.

Na última década, o Congresso avançou com fúria sobre os cofres federais. Os parlamentares criaram regras para morder fatias cada vez maiores do dinheiro dos impostos. A novidade é a usurpação de emendas por políticos sem mandato.

O ministro Dino define a prática como “privatização do orçamento público”. O Congresso criou um mercadão de emendas, em que parlamentares passaram a se sentir livres para negociar suas cotas no varejo. No domingo, o deputado Hugo Motta reclamou dos bloqueios e acusou o Supremo de “tentar criminalizar a atividade política”. Pupilo de Cunha, o presidente da Câmara conhece bem o que defende.

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