segunda-feira, 29 de junho de 2026

Feliz aniversário, Fernando Henrique, por Miguel de Almeida

O Globo

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo

Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote.

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.

O personagem FH é resultado de um Brasil pré-1964. Cidadão do mundo, como intelectual teve acesso a ideias e discussões travadas em diferentes universidades europeias e americanas. Exilado pela ditadura militar, trabalhou com sociólogos e economistas, também banidos por seus governos ditatoriais, no Chile de Allende. Ainda antes, na USP, integrou o famoso grupo de estudos sobre Marx montado pelo filósofo José Arthur Giannotti, junto a Francisco Weffort, Paul Singer e Roberto Schwarz.

Atenção: os intelectuais acima estudavam Marx não para se tornar marxistas. Buscavam conhecimento. Caso contrário, repetiriam os bolsonaristas quando falam contra Antonio Gramsci: são incapazes de citar qualquer de suas obras.

Eleito, FH governou com a esquerda e a direita civilizadas. Seu vice era Marco Maciel, prócer do PFL, dissidência da Arena dos militares. De centro-esquerda, buscou a modernização do Estado, com intenção de superar as amarras getulistas ainda presentes na máquina e na administração. Seu ministro da Saúde, José Serra, deu ao Brasil os remédios genéricos e um dos melhores programas mundiais contra a aids. Paulo Renato, na Educação, obteve a universalização do acesso ao ensino fundamental para crianças entre 7 e 14 anos. Bateu em 97%.

A qualidade do período FH demorou a ser reconhecida em virtude da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Alguns dirão se tratar de estratégia política. Talvez. Mas havia ressentimento, ou mesmo inveja, que a frieza da estratégia não explica. Ao chegar à Presidência, Lula forjou a expressão “herança maldita” para qualificar os governos do tucano. Cuspiu no prato que comeria. Pôs na presidência do BC Henrique Meirelles, ex-deputado do PSDB; seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, seguiu o protocolo econômico de FH; e herdou o Bolsa-Escola, depois transformado em Bolsa Família, ainda a vitrine petista de governo. Economistas se referem ao Lula 1 como sequência disfarçada da gestão tucana.

Diante do time que concorre à Presidência neste 2026, a pergunta que vale ouro: onde erramos? Depois de eleger um intelectual, professor universitário, estudioso das questões de dependências econômicas e do racismo, como agora os candidatos só discutem a corrupção Master? FH tinha ideias. E hoje, vale dizer que todos têm um preço?

Debelada a inflação, extintos os bancos estatais (sobraram BB, Caixa e BNB, além do BRB), promulgada a Lei de Responsabilidade Fiscal e estabelecido o tripé da política econômica — em resumo, o real como símbolo de estabilidade. A emenda da reeleição tornou-se uma maldição em todas as instâncias de cargos eletivos. O primeiro atingido pelo mau feitiço foi o próprio FH — ele reconheceu tardiamente o erro. Deveria ter ouvido o grande Mário Covas, para quem o Brasil não tinha maturidade — eu diria honestidade — capaz de enfrentar as tentações colocadas na mesa pela possibilidade de reeleição.

De novo, o tempo. Os sucessivos Lulas, Dilma e o maléfico Jair Bolsonaro, com seus estilos divisivos de fazer política, deram à gestão de FH um tom de passado idílico. Não havia o “nós contra eles” e reinava — digo que foi um erro — a tolerância com os adversários. O deputado Bolsonaro disse que FH mereceria ser metralhado. (Depois os bolsonaristas reclamam que ninguém se apieda dos soluços do Jair.)

Feliz aniversário, presidente.

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Na minha coluna anterior, associei indevidamente a cidade de Rio das Ostras ao ex-presidente Bolsonaro. Amigos e leitores atentos se sentiram ofendidos. Peço desculpas pela menção inadequada.

 

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