O Globo
O tempo obrigou os brasileiros atentos e
honestos a reconhecer a importância de seu governo
Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos
no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por
Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência
nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes
caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o
encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era
aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote.
O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.
O personagem FH é resultado de um Brasil
pré-1964. Cidadão do mundo, como intelectual teve acesso a ideias e discussões
travadas em diferentes universidades europeias e americanas. Exilado pela
ditadura militar, trabalhou com sociólogos e economistas, também banidos por
seus governos ditatoriais, no Chile de Allende. Ainda antes, na USP, integrou o
famoso grupo de estudos sobre Marx montado pelo filósofo José Arthur Giannotti,
junto a Francisco Weffort, Paul Singer e Roberto Schwarz.
Atenção: os intelectuais acima estudavam Marx
não para se tornar marxistas. Buscavam conhecimento. Caso contrário, repetiriam
os bolsonaristas quando falam contra Antonio Gramsci: são incapazes de citar
qualquer de suas obras.
Eleito, FH governou com a esquerda e a
direita civilizadas. Seu vice era Marco Maciel, prócer do PFL, dissidência da
Arena dos militares. De centro-esquerda, buscou a modernização do Estado, com
intenção de superar as amarras getulistas ainda presentes na máquina e na
administração. Seu ministro da Saúde, José Serra, deu ao Brasil os remédios
genéricos e um dos melhores programas mundiais contra a aids. Paulo Renato, na
Educação, obteve a universalização do acesso ao ensino fundamental para
crianças entre 7 e 14 anos. Bateu em 97%.
A qualidade do período FH demorou a ser
reconhecida em virtude da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Alguns
dirão se tratar de estratégia política. Talvez. Mas havia ressentimento, ou
mesmo inveja, que a frieza da estratégia não explica. Ao chegar à Presidência,
Lula forjou a expressão “herança maldita” para qualificar os governos do
tucano. Cuspiu no prato que comeria. Pôs na presidência do BC Henrique
Meirelles, ex-deputado do PSDB; seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
seguiu o protocolo econômico de FH; e herdou o Bolsa-Escola, depois
transformado em Bolsa Família, ainda a vitrine petista de governo. Economistas
se referem ao Lula 1 como sequência disfarçada da gestão tucana.
Diante do time que concorre à Presidência
neste 2026, a pergunta que vale ouro: onde erramos? Depois de eleger um
intelectual, professor universitário, estudioso das questões de dependências
econômicas e do racismo, como agora os candidatos só discutem a corrupção
Master? FH tinha ideias. E hoje, vale dizer que todos têm um preço?
Debelada a inflação, extintos os bancos
estatais (sobraram BB, Caixa e BNB, além do BRB), promulgada a Lei de
Responsabilidade Fiscal e estabelecido o tripé da política econômica — em
resumo, o real como símbolo de estabilidade. A emenda da reeleição tornou-se
uma maldição em todas as instâncias de cargos eletivos. O primeiro atingido
pelo mau feitiço foi o próprio FH — ele reconheceu tardiamente o erro. Deveria
ter ouvido o grande Mário Covas, para quem o Brasil não tinha maturidade — eu
diria honestidade — capaz de enfrentar as tentações colocadas na mesa pela
possibilidade de reeleição.
De novo, o tempo. Os sucessivos Lulas, Dilma
e o maléfico Jair Bolsonaro, com seus estilos divisivos de fazer política,
deram à gestão de FH um tom de passado idílico. Não havia o “nós contra eles” e
reinava — digo que foi um erro — a tolerância com os adversários. O deputado
Bolsonaro disse que FH mereceria ser metralhado. (Depois os bolsonaristas
reclamam que ninguém se apieda dos soluços do Jair.)
Feliz aniversário, presidente.
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Na minha coluna anterior, associei indevidamente a cidade de Rio das Ostras ao ex-presidente Bolsonaro. Amigos e leitores atentos se sentiram ofendidos. Peço desculpas pela menção inadequada.

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