domingo, 28 de junho de 2026

A fala de Michelle e seus reflexos, por Míriam Leitão

O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Não se improvisa uma fala de 27 minutos que tinha coerência e mensagens diretas e indiretas harmônicas e objetivos evidentes. Quando ela disse “meu futuro político está nas mãos de Deus”, estava, ao mesmo tempo, informando que tem projeto político próprio e levantando a ideia, cara aos evangélicos, de uso das pessoas “escolhidas” para “desígnios divinos”. Ela manipula com maestria todos os símbolos da religiosidade evangélica e, em certa medida, também a protestante tradicional. Esse eleitorado não é o suficiente para levá-la a planos maiores, mas é um bom reduto. Não há banho no rio Jordão, de última hora, que supere o fato de que ela fala a mesma língua dos crentes e é vista como fiel verdadeira.

Michelle nada faria sem a aprovação do marido Jair Bolsonaro e sem o conhecimento do presidente do PLValdemar Costa Neto, em conveniente viagem ao exterior. Ela usou a estrutura do partido do qual é uma dirigente. O nome do ex-presidente foi usado deliberadamente e de três formas. Era Jair, ou “o meu galego”, ou “o meu marido”. Ela informou explicitamente que ele sabia de tudo.

Jair Bolsonaro precisa de que? De que seja eleito alguém que aprovará seu indulto. Ele confia apenas em familiar de sangue, por isso escolheu o seu primogênito. Ainda que Flávio Bolsonaro tenha um volume considerável de intenção de votos, herdado do bolsonarismo e de grupos simpatizantes, ele pode não conseguir superar as dificuldades do envolvimento com o caso Master, e outros eventos que o levem ao derretimento. Para o bolsonarismo, toda a extrema direita e o Partido Liberal é estratégico ter um plano de contingência. As candidaturas só serão homologadas em agosto.

Michelle nada tem a perder com esta exposição. Respondeu à dúvida mais frequente sobre ela, e que Flávio Bolsonaro apresentou de forma ríspida: “Você chegou ontem na política”. Ao rebater essa dúvida, a fala foi coberta por imagens de suas mobilizações em diversos pontos do Brasil.

Quando explicou o xadrez político do Ceará ela quis exibir capacidade de articulação. Por outro lado, mostrou-se como uma esposa zelosa que não aceita uma ofensa feita ao marido e nem mesmo esquece a ofensa aos filhos do marido. Por isso, destacou por duas vezes a fala do Ciro que chamou os enteados de “ovos de serpente nazistóides”.

Ao rejeitar o pragmatismo, que faz com que o inimigo de ontem seja o aliado de hoje, ela passa a mensagem antipolítica. Ao mesmo tempo todo o subtexto da fala de Michelle traz o recado de que ela veio para a política para ficar. Foram muitas as falas que remetiam às causas fundamentalistas para fidelizar o eleitorado conservador. Elogiou o senador Eduardo Girão com imagens de fetos, declarando que ele foi aliado de primeira hora “na defesa da vida”.

Quando criticou os enteados, tanto Eduardo quanto Flávio, ela disse, ao mesmo tempo: “já liberei o perdão”. Assim não se coloca como rancorosa, mas como ofendida com capacidade de perdoar.

A primeira reação de Flávio ao dizer “hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece” só aumentou a força do que Michelle tinha dito, de que ele a humilhara e a desprezava. Depois ele veio com um pedido de desculpas enviesado, no estilo “se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas”. Ela de novo foi mais esperta. “Uma nova história será escrita com verdade, clareza e respeito”, disse.

Michelle Bolsonaro ficou mais forte com esse episódio e Flávio se enfraqueceu. Muitos cenários se abrem: o de Michelle ser o plano B, ou o do perdão público ao enteado, com a entrada dela na campanha para fortalecê-lo. Parecerá magnânima e venderá de novo a ideia de que sua prioridade é a família. O ato foi tudo, exceto um desabafo impulsivo. Terá desdobramentos e consequências.

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