Revista Veja
Em ataques ao senador, ex-primeira-dama exibe publicamente as desavenças do clã em meio a uma acirrada corrida eleitoral
Um dos líderes religiosos mais próximos à
família Bolsonaro, Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em
Cristo, deixou de lado, no início da quarta-feira 24, a eloquência com que é
conhecido. Aos que o procuraram para comentar o mais quente assunto político do
momento, ele respondia com as seguintes frases, baseadas em trechos bíblicos:
“casa dividida contra si mesmo não subsistirá” e “até o tolo, estando calado, é
tido por sábio”. Dessa forma cautelosa, mas dizendo tudo de forma cifrada, o
pastor se referia ao novo e mais explosivo imbróglio envolvendo o clã
Bolsonaro. Em dois vídeos que somam 27 minutos, a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro realizou uma grande lavagem de roupa suja em público, que levou tensão
à campanha de Flávio
Bolsonaro (PL).
O vídeo vinha sendo planejado há alguns dias. O estopim foi a entrevista de Ciro Gomes à seção Páginas Amarelas, de VEJA, na última edição, em que o ex-governador diz que, apesar de ter construído uma aliança com o PL para sua campanha ao governo do Ceará, não iria apoiar nenhum candidato a presidente da República porque Bolsonaro e Lula “são iguais”. A resposta da ex-primeira-dama veio na própria segunda-feira, 22, em forma de anúncio. “Já gravei um vídeo explicando o que aconteceu no Ceará. Vou publicá-lo em breve”, postou em todas as suas redes sociais, ao lado da imagem da entrevista de Ciro à revista.
A resposta foi muitos tons acima do que se imaginava. Em dois vídeos, a ex-primeira-dama, que ficou conhecida por falar línguas desconhecidas em momentos de transe, expressou-se de uma forma clara, direta e estudada. Nas peças em questão, explicou por que não era possível apoiar Ciro Gomes. Lembrou que ele chamou seu marido de genocida, ladrão de galinhas e de gasolina, que disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras e que seus filhos eram ladrões e serpentes nazistoides. “E agora, como se nada tivesse acontecido, os filhos defendem uma aliança com o candidato que deixou o pai deles, o meu marido, inelegível e humilhado”, disse Michelle. Segundo ela, a reação de Flávio à sua postura contra a aliança no Ceará foi grosseira. “Vi as postagens do Flávio contra mim nas redes sociais. Palavras duras, tão agressivo. E não foi só ele. Os irmãos vieram juntos, de forma ordenada. Pareceu combinado, premeditado”, afirmou. Depois, falou sobre a conversa que teve com o presidenciável. “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone”, desabafou. Por fim, relatou que foi considerada alguém que não entende de política: “Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se fosse alguém que chegou ontem, mas não sou. Eu sei mais do que eles pensam”.
“Ciro Gomes chamou o meu marido de genocida,
ladrão de galinhas, corrupto, jumento, disse que as esposas dele seriam ladras,
que meus enteados eram corruptos. E, como se nada tivesse acontecido, os filhos
defendem aliança com ele.”
“Ciro já provou inúmeras vezes não ser
confiável. E ele não esconde isso. Semana passada declarou na revista VEJA que
Bolsonaro e Lula são iguais. É só uma questão de tempo para ele se voltar
contra a direita.”
“Telefonei para o Flávio, ele não atendeu.
Algumas horas depois, retornou a ligação. Mas seria melhor se não tivesse
ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone.”
“Flávio disse que seria melhor eu ficar fora
das decisões do partido, que eu havia chegado ontem e não entendia nada de
política. Diante dessa humilhação, entendi que ele não queria o meu apoio ou
que este era insignificante. E então eu me recolhi.”
“Eles me tratam como se eu fosse idiota, como
se fosse alguém que chegou ontem, mas não sou. Sei mais do que eles pensam.”
“Eu não carrego rancor no coração. Entrego tudo
nas mãos de Deus, todo o mal que me fazem. Mas quero que entendam uma coisa. E
isso é importante. Perdoar não é o mesmo que esquecer ou querer continuar o
relacionamento.”
“O Flávio vai à minha casa toda semana, mais de
uma vez. Se realmente quisesse falar comigo, já teria falado. Se considerasse
necessário o meu apoio, já teria conversado. Estou na minha, continuarei
recolhida. “
“O grupo de maledicência coordenada a partir de
quem está no exterior continua me atacando. Não me atingem, mas será que pensam
no que provocam na vida da minha filha? Para eles tudo é política, uma política
que não serve para nada além de egoísmo.”
As declarações caíram como uma bomba no PL e
no estafe de Flávio. Ela é considerada pelo presidente da sigla, Valdemar Costa
Neto, um dos cabos eleitorais mais importantes da legenda, ao lado do
deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos). Apesar do distanciamento que Michelle vinha mantendo em relação
à candidatura de Flávio, acreditava-se que, em algum momento, ela mergulharia
na campanha do enteado. Sem ela, o Zero Um deve ter dificuldades ainda maiores
com um setor expressivo do eleitorado, o das mulheres, no qual perde por 44% a
26% de Lula, segundo pesquisa Datafolha de junho. O trabalho de Michelle era
considerado fundamental por Valdemar para ampliar não só o eleitorado de
Flávio, mas também as bancadas no Congresso. Além disso, a ex-primeira-dama tem
bom trânsito entre os evangélicos, que são um dos eleitorados mais fiéis ao
bolsonarismo, e ainda é incerto qual será o impacto, nesse eleitorado
religioso, dos ataques de Michelle.
O desconforto entre Michelle e Flávio era
antigo e evidente, mas não se imaginava que chegaria a esse ponto. Em dezembro
do ano passado, a ex-primeira-dama já manifestara a aliados sua contrariedade
com a forma como Flávio foi escolhido pelo marido para ser seu representante na
corrida eleitoral. Ela não foi sequer consultada, apesar de pontuar em algumas
pesquisas até melhor do que Flávio e ser considerada por muitos uma alternativa
mais palatável para construir uma aliança mais ao centro, de preferência como
vice de Tarcísio. Depois da decisão do marido, ela desapareceu da pré-campanha.
Não pediu votos ao enteado, não participou de nenhum ato público e sequer o
defendeu de acusações. Quando foi revelado que Flávio havia pedido dinheiro a
Daniel Vorcaro, do Banco Master, respondeu sorrindo a repórteres. “Sobre
Flávio, você tem que perguntar para ele”.
Além de ter sido preterida na “prévia”
presidencial no bolsonarismo, Michelle tem outra motivação para o enfrentamento
com Flávio: a busca de espaço político. Desde o início das articulações, ela
vem tentando emplacar aliados em chapas em estados importantes do país, nem
sempre com sucesso. Em São Paulo, quis a deputada Rosana Valle (PL) como
candidata ao Senado, mas a pretensão foi barrada por Eduardo
Bolsonaro, o “dono” da vaga. Em Mato Grosso do Sul, quer o deputado Marcos
Pollon (PL) concorrendo ao Senado, mas enfrenta a concorrência de um grupo que
apoia Capitão Contar (PL). Em Santa Catarina, colocou-se, em determinado
momento, em claro confronto com Carlos Bolsonaro, que se mudou do Rio para o
estado sulista para tentar se eleger senador — ela defendeu o nome da deputada
Caroline De Toni (PL), que acabou entrando na chapa ao lado do Zero Dois. No
Distrito Federal, conseguiu emplacar a deputada Bia Kicis (PL) em provável
chapa puro-sangue com a ex-primeira-dama, embora ela própria não assuma a
candidatura. “Minha prioridade agora é cuidar da minha família, do meu marido,
que está precisando de mim. Meu futuro político está nas mãos de Deus”, disse.
Nenhuma tentativa de cavar espaço, no
entanto, colocou tanto a ex-primeira-dama em rota de colisão com Flávio do que
o episódio do Ceará. Michelle desejava ter como candidata ao Senado a vereadora
mais votada do Nordeste em 2024, Priscila Costa, que é também vice-presidente
do PL Mulher. Ela, no entanto, teve sua reivindicação preterida pela direção
estadual do PL, comandada pelo deputado André Fernandes, que promoveu uma
aliança com Ciro e emplacou seu pai, Alcides Fernandes, na vaga. Apesar de a
aliança ter sido formada sob o discurso de união contra a esquerda, Michelle
passou a caracterizá-la como um projeto pessoal dos Fernandes, que se
viabilizava com o apoio de Flávio. “Nunca foi para ‘tirar o PT’, e sim por
projetos de poder”, criticou ela.
“Hoje, dia de jogo, nada nem ninguém me
aborrece. Vamos tratar aqui de coisa boa. Flávio Bolsonaro, logo após o vídeo
de Michelle antes do jogo Brasil x Escócia”
“Sou casado há dezesseis anos, pai de duas
filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher.
Jamais o faria com a esposa do meu próprio pai. “
“Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de
ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, peço desculpas. Tenho respeito e
reconhecimento pelo trabalho dela. “
“Toda a nossa família está passando por um
momento muito difícil. E entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os
dias, sofrendo com tamanha injustiça.”
“É natural que em determinados momentos pessoas
comprometidas com o mesmo propósito enxerguem caminhos diferentes. Acontece nas
famílias, empresas e na vida pública. “
O Ceará, que é o terceiro maior colégio
eleitoral do Nordeste, foi o único em que o PL conseguiu despontar com chances
reais de vitória em 2024, na disputa pelo comando da capital, Fortaleza, quando
André Fernandes perdeu por apenas 10 000 votos de Evandro Leitão
(PT). “Existe um ambiente de forte polarização,
com o voto antipetista bastante competitivo”, diz o cientista político
Murilo Medeiros, da UnB. Nos bastidores, é dada como impossível
a reversão do quadro por Michelle porque os acordos foram avalizados tanto por
Flávio quanto pelo seu pai e por Valdemar. A pessoas próximas, André Fernandes
disse que os ataques de Michelle tiveram efeito contrário ao desejado por ela:
fortaleceram ainda mais o acordo em torno de Ciro Gomes.
Tanto nos bastidores do PL quanto entre
analistas, a avaliação é de que o fogo nada amigo da ex-primeira-dama tem o
objetivo de marcar posição com o presidenciável e a cúpula do partido.
“Michelle mandou um recado claro para o bolsonarismo e para o PL: ainda que o
marido dela tenha indicado Flávio, ela mostra que tem as credenciais para
assumir uma posição de destaque”, diz Rodrigo Prando, cientista político da
Universidade Mackenzie. Para Lucas Thut Sahd, diretor do instituto Real Time
Big Data, tirando Flávio, Michelle é a única com viabilidade eleitoral para
concorrer à Presidência. “Tanto que chegamos a incluir o nome dela nas
primeiras pesquisas”, afirma.
A artilharia pesada de Michelle contra Flávio
e os irmãos repercutiu mal no bolsonarismo. Nas redes sociais, a grande maioria
das manifestações de simpatizantes da direita é de críticas à ex-primeira-dama
— 67% das menções foram negativas. Muitas publicações passaram a se referir a
ela como Michelle Firmo, usando o nome dela de solteira. Nos bastidores do PL,
principalmente para o coordenador da campanha, Rogério Marinho, a preocupação é
evitar uma carnificina fratricida a pouco mais de três meses da eleição,
principalmente em um momento em que Lula estava acuado pelas revelações de
envolvimento de seu ex-líder no Senado, Jaques Wagner, em suspeitas relativas
ao Banco Master. A briga familiar também veio no momento em que o Zero Um
começa a mostrar alguma capacidade de recuperação, segundo pesquisas internas
dos partidos.
De forma a tentar reduzir o estrago, ainda no
fim da noite de quarta, Flávio soltou uma longa nota na qual adotava um tom
conciliador com a madrasta. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de
ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas.
Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo
cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil”, escreveu.
Valdemar Costa Neto foi no mesmo tom. “Michelle e Flávio conhecem muito bem o
nosso presidente Bolsonaro e sabem do grande respeito que ele tem às convicções
e aos pensamentos individuais. Assim que falar com os dois, irei me manifestar
publicamente, mas já adianto que admiro a coragem dos que defendem aquilo que
acreditam”, disse o cacique.
Apesar de Flávio ter acenado com o cachimbo
da paz, o desdobramento da atual crise é imprevisível. Um dos motivos é o
próprio histórico do clã Bolsonaro, construído politicamente em cima da
beligerância quase permanente. Inúmeros foram os episódios envolvendo trocas de
farpas entre Michelle e os enteados ou mesmo entre o patriarca Jair Bolsonaro e
seus filhos. Um fator fundamental para o desfecho é, claro, a intervenção do
ex-presidente, que tenta renovar sua prisão domiciliar, cujo prazo venceu na
última semana.
Praticamente incomunicável, com visitas e
interlocutores limitados, ele certamente terá que fazer chegar à militância e
ao partido seu veredicto sobre a conflagração familiar. Para muitos, um
conflito iniciado dentro de casa tem que ser resolvido dentro de casa. Mesmo
que o episódio dos ataques de Michelle ao Zero Um seja superado, pessoas
próximas à campanha não descartam novas brigas entre o clã. Assim, o sucesso da
candidatura só virá se ela se mostrar capaz de contrariar a frase bíblica —
“casa dividida contra si mesmo não subsistirá”.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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