O Estado de S. Paulo
Os indicadores de preços nos EUA e no Brasil
ainda não embutem, com rigor, vários riscos
Investidores dos Estados Unidos e do Brasil correm o risco de tomar um baita susto com a inflação, pois a maioria parece subestimar as pressões inflacionárias que podem vir à tona. Isso porque as projeções de analistas para os índices de preços ao consumidor de 2026 e de 2027 ainda não embutem – com o devido peso – vários riscos, desde cotações persistentemente elevadas do petróleo e de matérias-primas até impactos de fenômenos climáticos, como o El Niño.
Nos EUA, o mercado já sentiu o primeiro sinal
dessa ameaça: o índice de preços ao produtor subiu 6% em abril, no acumulado em
12 meses, muito acima das previsões dos analistas (alta de 5%). Esse resultado
pegou os investidores de surpresa e levou, no dia da divulgação, a uma forte
subida nas taxas dos títulos do Tesouro americano e a um aumento nas apostas de
alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) em dezembro deste ano.
Em abril, a inflação americana ao consumidor
registrou alta anual de 3,8%, ante 3,3% em março. Isso foi reflexo de preços
elevados da gasolina e do diesel, além do maior custo de alimentos. Em maio, o
consenso das estimativas aponta para um índice de 4%, no acumulado em 12 meses.
Isso é até pouco comparado com as projeções dos principais economistas dos EUA,
conforme a mais recente pesquisa feita pelo Fed de Filadélfia: a inflação deve
atingir o pico anualizado de 6% neste segundo trimestre do ano. Na pesquisa, a
expectativa da inflação ao consumidor em 2026 passou de 2,6% para 3,5%.
No Brasil, a divulgação de hoje do IPCA-15
referente a maio ainda não deve causar estresse. A taxa mensal deve ceder de
uma alta de 0,89%, em abril, para 0,56%, conforme o consenso das projeções. E a
taxa anual deve acelerar de 4,37% para 4,58%. Conforme a última pesquisa Focus,
a previsão é de uma inflação de 5,04%, em 2026, e de 4,01% em 2027.
Contudo, os analistas não embutiram em seus
cálculos o impacto total do El Niño nos preços, sobretudo os de alimentos. Todo
mundo está esperando que esse evento climático venha mais forte do que em anos
anteriores, afetando as safras agrícolas. Como os modelos meteorológicos ainda
não definiram com precisão o quão severo será o El Niño, as projeções de
inflação de 2026 e de 2027 não refletem esse risco.
Há quem espere que, em 12 meses, os preços
dos alimentos cheguem a acumular alta de até 15% em algum momento de 2027. Não
à toa, há quem não descarte um IPCA de 5,3%, neste ano, e de 5% a 5,5% em 2027.
O mercado pode despertar para um salto da inflação como quem leva um choque em
fio desencapado.

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