Folha de S. Paulo
É incomum ver parlamentares do PL e do PT
unidos para aprovar projeto de lei que não seja corporativista
Os dois partidos, porém, parecem empenhados
em banir a propaganda de bets, o que seria bom para o país
Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas "em geral" não é sinônimo de "sempre".
Há situações, ainda que mais raras, em que as duas agremiações convergem apoiando propostas que tendem a ser boas para o país. É o que vemos agora com os projetos de lei (há um na Câmara e outro no Senado) que poderão banir a propaganda de bets.O Brasil regulou mal o mercado de
apostas. Um dos erros mais graves foi ter legalizado as bets sem
estabelecer nenhum tipo de limitação à publicidade e aos patrocínios, descuido
que contribuiu para a alta prevalência do hábito de jogar, principalmente entre
os jovens, com todos os efeitos deletérios para a saúde e para a economia que
ele implica.
O ser humano é um bicho propenso a vícios. O mesmo sistema dopaminérgico que
faz de nós seres que se interessam por aprender também nos torna
particularmente vulneráveis a compulsões.
O dilema das autoridades quando regulam produtos potencialmente viciantes é
encontrar um balanço razoável entre a liberdade individual e a saúde pública.
Incontáveis exemplos históricos, como a Lei Seca nos
EUA e a guerra às drogas, ensinam que proibições não apenas não
funcionam como ainda podem acrescentar mais dores à já sofrida trajetória dos
dependentes.
A medida mais óbvia que desponta aí são restrições fortes à publicidade. Se há
algo de que o cérebro humano não precisa é auxílio externo e comercialmente
inspirado para desenvolver comportamentos patológicos.
Desde tempos imemoriais defendo a legalização
das drogas, mas não gostaria de ver propaganda de cocaína sendo exibida nos
intervalos dos jogos da Copa.
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