segunda-feira, 13 de julho de 2026

A dança dos vices, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

 Candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o mais competitivo

Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido, fruto do acaso.

Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2) potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.

Assinale-se que, na recente história republicana três vicepresidentes assumiram o poder, sendo os casos de Itamar Franco, vice de Fernando Collor de Mello, José Sarney, vice de Tancredo Neves, e Michel Temer, vice de Dilma Rousseff. Todos tinham representatividade parlamentar, nomes públicos reconhecidos, carreira pública, força eleitoral, exímios articuladores, estando particularmente qualificados para o cargo. Itamar Franco foi o patrono do Plano Real, que mudou a história do Brasil. Foram excelentes presidentes em momentos de crise. O vice-presidente Marco Maciel, por outro lado, é um exemplo de vice que, não tendo assumido, não deixou de ser uma importante figura republicana.

Sob o prisma atual, porém, o quadro é constrangedor, com exceção da candidatura do presidente Lula. O atual presidente, repetindo a chapa anterior, escolhe um governador reconhecido, que fez toda a sua carreira no PSDB e de confissão católica, adepto do Opus Dei, embora se apresente como de “esquerda”, seja lá o que isso signifique nesse contexto. Sou tentado a recorrer a Ortega y Gasset: “Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia (paralisia parcial) moral”. Em todo o caso, podese dizer que o presidente Lula e o PT fizeram o dever de casa, o que não é o caso de seus oponentes. Conseguiram, neste sentido, olhar para fora de sua bolha, visando aos eleitores em geral.

Flávio Bolsonaro, que se apresenta como o seu contendor mais direto, está cada vez mais refém de suas próprias trapalhadas e das que não sabe evitar. Seu comprometimento com Vorcaro, na arrecadação de recursos para um filme, sua submissão à política americana quando seu irmão foi um dos instigadores do tarifaço aos produtos brasileiros e, agora, o rompimento público com sua madrasta, mostram uma candidatura atordoada. Esse último rompimento, aliás, é de grande significação, visto que afasta de si o público feminino e evangélico, vital para a sua vitória. E a escolha de vice cai dentro desse redemoinho. Os nomes aventados, homem ou mulher, não apresentam nenhuma representatividade, podendo ser mesmo desconhecidos para o grande público, retirando-lhe qualquer relevância eleitoral e não lhe conferindo ampliação partidária. Permanece dentro de sua própria bolha.

Ronaldo Caiado, apesar de ter escolhido um vice muito reconhecido por suas habilidades de articulação, Gilberto Kassab, terminou por fazer uma opção dentro de seu próprio partido, não dando um passo que deveria ser decisivo para a ampliação eleitoral. As razões apresentadas, seja de unificação partidária, seja de captação de recursos, não são de natureza a mudar o quadro propriamente eleitoral, que deveria ser a sua maior preocupação. Para uma candidatura que precisa avançar para se consolidar, preocupações como unidade partidária e captação de recursos já deveriam ter sido equacionadas, na procura de novos aliados.

Quadro semelhante expõe a candidatura de Renan Santos. Sem fundo partidário e eleitoral, e até agora sem uma significativa captação de recursos, carente de tempo de rádio e televisão, além de não ter nenhuma coligação partidária atrás de si, a sua escolha de vice tampouco segue os critérios adotados. A opção, também dele, de uma pessoa desconhecida do público em geral, sem demérito de sua pessoa, não é de natureza a alavancar a sua candidatura.

O mesmo se pode dizer da candidatura de Romeu Zema ao cogitar escolher um empresário amigo seu, amplamente desconhecido e de seu próprio Estado. Convém assinalar uma verdade básica: candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o candidato mais competitivo.

Note-se que não estou fazendo nenhum juízo de valor ou moral sobre essas pessoas, mas tão somente assinalando as dificuldades apresentadas, segundo uma liturgia de poder que deveria ser outra. E quem souber fazer essa lição se posiciona à frente das pesquisas eleitorais. •