O Estado de S. Paulo
O mapa político europeu não está
cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o ‘espírito do tempo’ – é
clara
Olhe-se para a nossa vizinhança ou para a
Europa, a extrema direita avança. Na América do Sul, nas três eleições
ocorridas até aqui em 2026, venceram candidatos desse naipe político (Chile,
Peru e Colômbia). A tendência é semelhante no velho continente.
Em Portugal, o partido da extrema direita, o
Chega, conquistou o segundo maior número de cadeiras da Assembleia da República
nas eleições parlamentares de 2025. No Reino Unido, outro país que até
recentemente parecia imune à ascensão da extrema direita, o Reform UK lidera
todas as pesquisas de opinião.
Na Espanha, o longo ciclo de poder de Pedro Sánchez entrou em fase terminal. Quem cresce é o partido da extrema direita, o Vox. O partido tradicional da direita, o Partido Popular (PP), depende cada vez mais da extrema direita. Nas quatro Comunidades Autônomas em que houve eleições este ano, o PP só conseguiu obter maioria parlamentar depois de aceitar representantes e reivindicações do Vox na formação do governo. É um sinal do que deve ocorrer nas eleições marcadas para 2027. Nesse processo, a direita tradicional se aproxima do nacionalismo xenófobo e protofascista, normalizando-o.
Nos dois principais países europeus, a
tendência de ascensão da extrema direita também é nítida. A AfD, Alternativa
para a Alemanha, já é o segundo maior partido em número de cadeiras no
Parlamento alemão, e as pesquisas indicam que seria o mais votado se as
eleições fossem hoje. A perspectiva de a AfD integrar o governo federal dispara
os alarmes dos órgãos encarregados da segurança nacional daquele país, pois são
notórios os laços da extrema direita alemã com a Rússia. Relatório divulgado em
junho pelo Departamento Federal de Proteção à Constituição mostra um aumento de
17% no número de pessoas consideradas extremistas de direita entre 2024 e 2025.
Na França, todas as pesquisas indicam Jordan
Bardella ou Marine Le Pen na liderança para as eleições presidenciais de maio
do próximo ano. Com apenas 30 anos, Bardella é considerado uma extensão de
Marine Le Pen, a real líder do partido xenófobo Rassemblement National. Ela
recém recuperou o direito de se candidatar em 2027, depois que a Justiça
francesa reduziu sua pena por malversação de recursos.
O mapa político europeu não está
cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o “espírito do tempo” – é
clara. A hipótese de a extrema direita chegar ao poder na França se tornou
provável e na Alemanha, plausível.
Sintoma disso é a discussão sobre uma
eventual moderação da extrema direita, se essa hipótese se confirmar.
Foi o que ocorreu na Itália, sob a liderança
de Giorgia Meloni, que há quatro anos exerce, em coalizão, o mandato de
primeira-ministra, o mais longo desde 2005. Sem antagonizar com a União
Europeia nem se aliar à Rússia, ela governa como uma política normal de
direita, embora tenha raízes na extrema direita. O exemplo de Meloni pode
influenciar um eventual governo presidido por Bardella ou Le Pen na França. O
partido de Marine Le Pen já não é mais o que foi nos tempos de seu pai,
Jean-Marie Le Pen, um negacionista do Holocausto. Assim como Meloni, Le Pen, a
filha, afastou-se da Rússia e abandonou o projeto de retirar a França da União
Europeia (UE). Difícil dizer o quanto essa moderação é puramente tática ou não.
Na Alemanha, não há sinal dela. A AfD se mantém em oposição frontal à UE e
defende a deportação em massa dos imigrantes, a mesma bandeira dos demais
partidos europeus de extrema direita.
Embora não haja uma internacional de extrema
direita formalmente constituída, os partidos, líderes e movimentos que a
integram apoiam-se mutuamente. Dentro dessa rede, alguns dos donos das
principais plataformas digitais do planeta ocupam um lugar estratégico. Não
apenas pela capacidade quase infinita de aportar recursos a campanhas e
candidatos, mas principalmente pelo poder exorbitante de que dispõe para
amplificar ou reduzir seletivamente o alcance das informações e desinformações
que transitam por essas plataformas, onde exércitos de robôs respondem por
cerca da metade dos conteúdos disseminados. Alguns desses tecno-oligarcas se
aliam à extrema direita, em geral, e a Trump, em particular, por oportunismo,
outros têm convicções antidemocráticas autênticas, como Peter Thiel, adepto de
uma tecno-monarquia absoluta. Em simbiose, a livre circulação de fake news e
discursos de ódio nas mídias sociais alimenta a ascensão da extrema direita e
enche os bolsos dos tecno-oligarcas.
É este o ambiente internacional que cerca a
eleição de outubro no Brasil. Na América Latina, junto com o México, somos os
únicos países a resistir à subserviência a Donald Trump, cujo desprezo pela
democracia, inclusive a dos Estados Unidos, e pela soberania nacional de outros
países é bem conhecido.
O ímpeto “disruptivo” do presidente dos
Estados Unidos não irá se reduzir caso sofra um revés político nas eleições
para o Congresso em novembro deste ano. Pode até mesmo se agravar.
Nesse contexto, é crucial derrotar o clã
Bolsonaro, a versão tupiniquim dessa onda extremista que avança no Ocidente. •

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