segunda-feira, 13 de julho de 2026

Como o Congresso da UNE caiu em 1968, por Miguel de Almeida

O Globo

Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador

O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado, quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:

— Não reajam, vamos atirar para matar.

Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Ali se reuniam delegados de faculdades de todo o país para eleger a nova diretoria da UNE e discutir teses e estratégias para o movimento estudantil. Desde o golpe de 1964, era uma movimentação vigiada e reprimida pelos militares. Com a classe política acuada por prisões e cassações, e os sindicatos mais combativos sob intervenção, os universitários e secundaristas se mostravam a vanguarda militante da oposição. O governo dos generais proibiu as reuniões políticas e procurava assustar a população com a iminência de uma hipotética tomada de poder pelos comunistas. Nada mais canastrão. Buscava-se recuperar a democracia, extinta com a derrubada do presidente João Goulart.

Jason Tércio reconstrói os embates com a polícia, até o arrastão final, em “Sitiados – A saga do Congresso de Ibiúna em 1968”. Foram vários confrontos, com prisões e manifestantes feridos — o mais grave, semanas antes do encontro da UNE, ficou conhecido como Batalha da Rua Maria Antônia. A briga ocorreu entre os alunos do Mackenzie, onde nascera a milícia do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e da Faculdade de Filosofia da USP, à esquerda no espectro político. O estudante José Carlos Guimarães, 20 anos, morreu baleado na cabeça. Do Mackenzie também foram jogados frascos com ácido sulfúrico, que atingiram vários universitários. Embora testemunhas afirmassem que o tiro partira do telhado do Mackenzie, a polícia à época não identificou o autor. No período democrático, um integrante do CCC e agente do Deops foi responsabilizado pelo assassinato.

José Guimarães não era o primeiro aluno morto pela ditadura. Em março daquele ano, um soldado matou à queima-roupa Edson Luís, 18 anos, durante protesto estudantil pela melhoria da comida no Restaurante Calabouço, no Rio. Ao assassinato seguiram-se protestos — peças teatrais foram suspensas em solidariedade, e passeatas percorreram as ruas centrais da cidade. Na missa de sétimo dia, a cavalaria da polícia cercou a Candelária e atacou a sabre quem saía da cerimônia, numa guerra campal com bombas de gás lacrimogêneo. Na igreja encontravam-se cerca de 600 pessoas.

O Congresso da UNE não deixava de ser um desafio à ditadura. Os líderes estudantis — principalmente José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís Travassos — eram vigiados pela polícia. As cenas lembravam filmes de James Bond. Dirceu, depois de namorar uma militante, descobriu se tratar de espiã (codinome: “Maçã Dourada”) colocada em sua cama pela repressão. Mesmo assim, mantiveram a ideia de realizar o encontro para eleger a nova diretoria da entidade. Ao contrário dos anteriores, seria maior — com 800 delegados de todo o Brasil. Brincavam com a sorte.

Com o auxílio de um frei dominicano — Tito — e de Therezinha Zerbini, casada com o general legalista Euryale Zerbini, os estudantes conseguiram emprestado um sítio em Ibiúna. Apesar de a operação ser tratada em sigilo, com uso de senhas e divulgação de locais e datas falsas, a polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador, Miguel Góes (existem outras versões, várias inventadas pelos delegados). Góes desconfiou ao ver pessoas armadas (eram estudantes) na propriedade e avisou o delegado. Informado, o governador Abreu Sodré autorizou a batida policial. Até então, o presídio Tiradentes jamais havia recebido tantos presos políticos de uma única vez. Logo em dezembro de 1968, a ditadura baixou o AI-5, o mais duro golpe contra as liberdades civis.

Perguntei a três personagens envolvidos na trama: por que o Congresso caiu?

— Na sexta, soube que o Deops já sabia do encontro. Os líderes foram avisados de madrugada. Preferiram esperar amanhecer para discutir a informação — conta Paulo de Tarso Venceslau, economista.

— Foi ingenuidade colocar 800 pessoas naquele lugar — lembra Fausto Nilo, poeta e arquiteto.

— Erro de planejamento da organização — diz Xico Chaves, artista plástico.

Em setembro de 1969, José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Palmeira seguiram para o exílio, trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado por guerrilheiros (o estudante Paulo de Tarso entre eles) da Aliança Libertadora Nacional e do MR-8.

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