Correio Braziliense
A relação entre o governo
Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização ideológica norte-americana.
A derrota do presidente brasileiro em 2026 passou a ser vista como objetivo por
Trump
James Monroe nasceu no condado de
Westmoreland, na Virgínia, então uma das 13 colônias da Inglaterra, no dia 28
de abril de 1758. Filho de um juiz, cresceu num clima de agitação por uma
pátria livre. Com 16 anos, interrompeu os estudos para lutar pela independência
do país. Recebeu de George Washington o posto de capitão.
Formado em direito e apadrinhado por Thomas Jefferson, em 1782, com 24 anos, foi eleito deputado na Virgínia. Fez parte do Congresso Continental, sendo um dos responsáveis pela aprovação da Constituição americana. Em 1790, elegeu-se senador. Em 1794, foi nomeado embaixador na França por George Washington.
De volta aos Estados Unidos, James Monroe foi
eleito governador da Virgínia, em 1779, deixando o mandato em 1802. Nesse mesmo
ano, designado pelo presidente Thomas Jefferson, negociou a compra dos
territórios da foz do Rio Mississippi com a França e a Espanha. A seguir, foi
eleito o quinto presidente dos Estados Unidos, o último da “Dinastia da
Virgínia”. Seu mandato ficou conhecido como a “Era dos Bons Sentimentos”: o
país prosperou, a Flórida foi adquirida da Espanha, e o Brasil teve sua
independência reconhecida pelos EUA em 1824.
Declarada em 1823, a chamada Doutrina Monroe
repudiava a intervenção ou a recolonização europeia no continente americano,
expressa na máxima “A América para os americanos”. Originalmente, era um alerta
às potências europeias para que não tentassem restaurar seus impérios coloniais
no continente americano. Com o passar das décadas, a doutrina foi
reinterpretada, ampliada e transformada em instrumento da hegemonia
norte-americana.
Diferentes governos norte-americanos
ampliaram seu alcance para justificar intervenções políticas, econômicas e
militares. Dois séculos depois, agora rebatizada de “Doutrina Trump”, Monroe
continua projetando sua sombra sobre as relações entre Washington e a América
Latina.
No artigo A Longa Sombra de Monroe: o
Trumpismo e a Restauração da Primazia Hemisférica, Flávio Contrera e Paulo
Cesar Gregorio (Lua Nova, 126) sustentam que o movimento político liderado por
Donald Trump resgatou essa tradição, adaptada à rivalidade contemporânea com a
China e à disputa pelo controle da América Latina. O trumpismo seria uma
tentativa de reafirmar sua primazia regional por meio de pressão econômica,
alinhamentos políticos seletivos e contenção geopolítica e militar.
Autonomia relativa
A tensão com o governo Lula ocorre nessa
perspectiva. A guerra comercial, as chantagens tarifárias e a politização da
relação bilateral não são apenas ocasionais. Fazem parte de uma visão
estratégica do movimento Maga e de lideranças republicanas como Marco Rubio,
secretário de Estado, segundo a qual a América Latina deve ocupar posição
subordinada à geopolítica de Washington.
A causa é a ascensão da China. Na América do
Sul, Pequim tornou-se grande parceiro comercial, financiador de infraestrutura
e investidor em setores estratégicos. Para os nacionalistas na Casa Branca,
essa expansão representa uma ameaça direta aos Estados Unidos. Como maior
economia da América Latina, integrante do Brics, o Brasil ocupa posição central
nessa disputa ao manter relações simultâneas com Estados Unidos, China, União
Europeia, Oriente Médio e África.
A autonomia relativa do Brasil incomoda
àqueles que sonham com a volta ao século XIX. Não por acaso, ocorre a
convergência entre pressões comerciais e disputas políticas domésticas. A
relação entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização
ideológica que marca o cenário norte-americano. A derrota de Lula em 2026
passou a ser vista como parte de um reposicionamento geopolítico mais amplo da
América do Sul.
Essa percepção ajuda a explicar a aproximação
explícita de setores conservadores norte-americanos com o clã Bolsonaro e
outras lideranças da direita brasileira. A intenção não é apenas influenciar o
debate interno do país, mas fortalecer atores considerados mais alinhados à
estratégia hemisférica do movimento Maga.
Entretanto, o Brasil não é mais o país
vulnerável do passado. Possui uma economia diversificada, o setor agrícola mais
competitivo do mundo, reservas internacionais robustas e uma ampla rede de
parceiros comerciais. Evidentemente, pressões econômicas vindas dos Estados
Unidos podem produzir custos relevantes. Mas a capacidade brasileira de
resistir é muito maior do que em outros momentos históricos. O comércio com os
Estados Unidos representa apenas 2% do nosso PIB.
Entretanto, isso não significa que uma guerra
comercial prolongada seja desejável. Pelo contrário. A escalada das retaliações
produziria perdas significativas, reduziria investimentos, aumentaria
incertezas e comprometeria décadas de integração econômica. Nenhum dos dois
países tem interesse objetivo em ruptura comercial. O desafio do governo
brasileiro neste momento é equilibrar firmeza e pragmatismo na eventual adoção
da Lei de Reciprocidade.
A defesa da soberania nacional tende, sim, a
ocupar lugar central na narrativa eleitoral de Lula. Diante das pressões
externas e da associação de Flávio Bolsonaro ao campo político alinhado ao
trumpismo, o Planalto vê na defesa da soberania nacional um eixo poderoso de
mobilização política. Entretanto, o governo precisa evitar uma guerra comercial
de desfecho imprevisível.

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