sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rubio ataca Lula de forma grosseira e arrogante em declarações inaceitáveis, diz Mauro Vieira, por Bruna Lessa

O Globo

Governo dos EUA aplicou taxa de 25% sobre exportações brasileiras, com exceções

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ataca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "forma grosseira e arrogante" em declarações "inaceitáveis". Nas suas redes sociais, Rubio acusou Lula de "não negociar com os EUA de boa-fé".

De acordo com Vieira, desde o início das negociações o governo brasileiro buscou manter o diálogo com Washington. Ele afirmou que, desde março de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.

— Desde o primeiro momento o presidente Lula buscou dialogo e enfatizou sua disposição de negociar. As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros— disse Vieira, ressaltando que só com Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, foram 11 contatos, incluindo o encontro entre Lula e o presidente Donald Trump na Casa Branca:

— Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.

O ministro ainda disse que a investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 é um procedimento unilateral e contestou os argumentos apresentados por Washington para embasar a adoção da tarifa de 25% imposta sobre produtos brasileiros. A medida, confirmada pelo governo de Donald Trump na noite de quarta-feira, entra em vigor no dia 22 de julho.

— As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros.

O titular da diplomacia brasileira lembrou ainda que, após a carta do presidente Trump ao presidente Lula, de 9 julho de 2025, as tarifas foram elevadas a 50%.

'Interferência' no Judiciário

O chanceler relembrou que, após a carta enviada pelo presidente Trump ao presidente Lula, em julho de 2025, as tarifas foram elevadas de 10% para 50%, em uma decisão que, segundo ele, teve "expressa motivação política", por conta do processo contra ex-presidente Jair Bolsonaro.

– (Foi) expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro. E foi justamente nessa carta, em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente interrompido, que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados Unidos para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil

Ele ainda sustentou que o governo brasileiro participou da investigação aberta pelos Estados Unidos, apresentou duas defesas formais e enviou uma delegação de alto nível a Washington para consultas sobre o caso. Ainda assim, disse que a decisão americana ignorou os argumentos apresentados pelo Brasil.

Em sua avaliação, "não houve racionalidade" na aplicação das tarifas. O ministro também rebateu as críticas feitas pelos Estados Unidos ao Pix e à política ambiental brasileira.

— Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil — afirmou.

Sobre as acusações relacionadas ao desmatamento, o chanceler classificou as alegações como "absurdas" e disse que o país reduziu significativamente a devastação da Amazônia e do Cerrado desde 2022. Vieira também afirmou que os argumentos apresentados por Washington para justificar as sanções comerciais não correspondem aos fatos.

— Todas as alegações dos americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade — declarou.

Na madrugada de hoje, o governo divulgou uma nota em que classificou a decisão americana como “unilateral”, “ilegal” e “arbitrária” e afirmou que o dia 15 de julho “passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”.

No comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Planalto informou que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional” e que retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A reação brasileira, segundo a nota, se organizará em três frentes: a diversificação de mercados — com prioridade para a implementação dos acordos do Mercosul com a União Europeia, a Efta e Singapura e negociações com parceiros como México, Canadá, Japão e Índia —; medidas de socorro às empresas afetadas, por meio do Plano Brasil Soberano; e o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a adotar contramedidas a barreiras comerciais consideradas injustificadas.

O governo também rebateu, ponto a ponto, as justificativas da investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), baseado na Seção 301 da lei comercial americana. A nota classificou como “descabidas” as alegações contra o Pix e a regulação de plataformas digitais, e como “absurdas” as acusações relacionadas ao desmatamento.

Como argumento contra a tese de práticas comerciais desleais, o Planalto citou estatísticas do próprio governo americano: um superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, além do dado de que, em 2025, 76% das importações de origem americana entraram no país sem pagar imposto de importação, com alíquota média efetiva de 3,1%.

A nota trouxe ainda uma ofensiva política direta contra a família Bolsonaro, acusada de "ativa colaboração" com o desfecho da investigação americana.

"São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros", diz o texto.

Nenhum comentário: