quinta-feira, 9 de julho de 2026

Esquadrão suicida da direita, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Aliados provocaram o rompimento de Michelle com o enteado

‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de 1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres — desde que diplomadas, com bens e casadas.

Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não deveriam participar da vida pública:

— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

O direito ao voto feminino só viria 41 anos mais tarde, com o Código Eleitoral decretado por Getúlio Vargas. A equiparação aos direitos dos homens em 1965 poderia ter sepultado o debate, mas há duas semanas a extrema direita brasileira, espelhando a norte-americana, decidiu rediscutir a qualidade do voto feminino.

Se Pedro Américo buscava edulcorar com a oratória o conservadorismo dominante, o influenciador Paulo Figueiredo, braço direito de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, apelou 135 anos depois para a ofensa explícita:

— Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Isso que eu estou dizendo, podem arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos. Mas eu quero dizer uma coisa a vocês: isso é estatística.

O voto feminino é um enorme obstáculo para seu aliado Flávio Bolsonaro. Em abril, quando estava em seu melhor momento, o senador alcançava no Datafolha 46% das intenções de voto em segundo turno contra Lula, que marcava 45%. Na distribuição por gênero, o herdeiro de Jair recebia 6 pontos percentuais a mais entre os homens, e Lula 4 entre as mulheres. Dois meses depois, atingido pelo escândalo do Banco Master, e antes mesmo de seu aliado nos Estados Unidos ofender as eleitoras, passou a perder para Lula por 47% a 43%. A queda foi puxada exatamente pelo eleitorado feminino, que agora dá 15 pontos a mais para o petista.

O bolsonarismo impôs aos observadores da cena política brasileira um desafio de interpretação. A linguagem disruptiva, aderente às redes sociais, sepultou a era de superproduções de marqueteiros estrelados. As declarações politicamente incorretas e as ofensas públicas a adversários deram autenticidade ao candidato antissistema, que atendia aos anseios de um eleitorado cansado da classe política após um impeachment e escândalos multibilionários de corrupção.

No entanto, nem tudo no caos bolsonarista é estratégia. A adoção das teorias antivacinais populares nos Estados Unidos — que nunca tiveram relevo por aqui — está no cerne da trágica condução de Jair Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19. A anarquia na gestão da saúde deixou mais de 700 mil mortos e foi o motor da derrota em 2022.

Às vésperas daquele pleito, no entanto, o presidente havia conseguido voltar a crescer e havia praticamente empatado com Lula nas pesquisas. Coube a dois aliados lembrar aos eleitores os riscos do extremismo. A sete dias do pleito, Roberto Jefferson fuzilou e lançou granadas contra agentes da Polícia Federal que foram à sua casa. Na véspera da votação, Carla Zambelli correu pelas ruas de São Paulo com arma em punho atrás de um homem negro que a havia criticado.

Quatro anos depois, Flávio tem nos aliados liderados por seu irmão Eduardo o esquadrão suicida da direita brasileira. Foragidos da Justiça brasileira, provocaram o rompimento de Michelle com o enteado presidenciável e passam os dias em redes sociais defendendo tarifas americanas, o fim do Pix e questionando o voto feminino.

Lula é um homem de sorte.

*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO 

Um comentário:

Mais um amador disse...

Inéditos para mim os conteúdos dos primeiros parágrafos.

Ótima coluna.