O Globo
Perto de deixar a pasta, ministro faz balanço
da gestão, responde às críticas fiscais, fala sobre Banco Master e sucessão no
Ministério da Fazenda
O ministro Fernando Haddad disse que, apesar de o caso Master ser assunto do Banco Central, acabou afetando também a Fazenda de diversas formas. Numa delas, o ex-presidente da CVM foi à casa dele relatar as pressões que estava sofrendo, e Haddad levou o tema ao procurador-geral da República. Afirmou que um terço do Fundo Garantidor de Crédito é formado por aportes de dois bancos públicos, Caixa e Banco do Brasil. Além disso, tem questões tributárias. “O risco é de um banco comprar o outro só para usar o prejuízo fiscal que poderia ser de dezenas de bilhões de reais”. Por fim, com o estouro do caso Carbono Oculto, o tema passou a envolver diretamente seu ministério.
— A Receita Federal é o órgão que combate a
sonegação de impostos. Quando há indícios de lavagem de dinheiro, a Receita
informa aos órgãos de controle, não apenas ao Banco Central. Quando estourou o
caso Reag na Operação Carbono Oculto, tomamos conhecimento de uma série de
intersecções entre grupos criminosos no Brasil. Por isso, digo que pode ser a
maior fraude bancária da história do Brasil.
Em entrevista que me concedeu ontem na
GloboNews, Haddad
falou sobre sua saída e fez um balanço. Do ponto de vista dos
indicadores econômicos, a economia cresceu muito mais do que o previsto pelo
mercado financeiro, e a inflação terminou o ano passado dentro do intervalo de
flutuação da meta. A principal crítica sempre feita à sua gestão é pela questão
fiscal. O ministro rebateu, afirmando que reduziu o déficit em 70%.
— Eu pensei muito nesta entrevista, como
explicar de forma singela. O projeto de orçamento para 2023, que o Bolsonaro
entregou, tinha um déficit de R$ 63 bilhões. Esse dado é incontestável, é
documento oficial. Ele aprovou uma emenda para aumentar o Bolsa Família para R$
600. Driblou a lei eleitoral que impede dar benefício em ano de eleição. Mas no
orçamento de 2023, ele não colocou a previsão desta despesa. E qual a
diferença? R$ 52 bilhões. Dado inquestionável. Outro dado foi a PEC do Calote
dos Precatórios. Que valor deveria constar? R$ 44 bilhões. Somando tudo e
dividindo pelo PIB dá
1,59% de déficit que ele deixou. No ano passado, se eu contar todas as
despesas, o déficit é de 0,48%. Portanto, herdamos um déficit de 1,59% e eu
estou entregando 0,48%. Nós reduzimos 70%.
A dívida pública tem aumentado e, segundo as
projeções do Tesouro Nacional, deve continuar em trajetória de alta. Perguntei
ao ministro sobre esse ponto:
— A dívida está aumentando pelo juro alto,
não está aumentando pelo déficit porque o déficit está menor. Houve um trabalho
de coordenar política monetária e fiscal que deu resultado trazendo a inflação
para dentro da meta. Vai ser a menor inflação quadrianual da história do
Brasil. Eu faço votos de que os juros comecem a cair em janeiro, mas o Banco
Central tem autonomia. Os juros podem ser mais baixos.
Sobre os Correios, ele
afirmou que o governo concordou em conceder o empréstimo com aval do Tesouro,
desde que fosse apresentado um plano de reestruturação que previsse o pagamento
da dívida.
— Os Correios têm um compromisso de se
reestruturar e pagar o empréstimo que foi concedido. Sobre o aporte é outro
debate. O que eles estão reivindicando? Como há uma concorrência brutal no ramo
logístico, da entrega de mercadorias, os Correios ficam espremidos entre essa
concorrência e o encargo da universalização do serviço postal. Quem entrega uma
carta no interior do Amazonas são os Correios.
Haddad conversará esta semana com o
presidente sobre a data da saída do ministério, e considera que o ideal é que o
substituto assuma já neste início de ano. Deixou claro que seu nome preferido é
o do secretário-executivo da pasta, Dario Durigan. Negou que queira ser
candidato. Prefere, segundo disse, ser o coordenador do programa de governo.
Ele afirmou que este ano o governo tentará de
novo apresentar uma forma de tributar os títulos isentos, porque da maneira que
está, tem criado distorções. Não apenas do ponto de vista arrecadatório, mas de
rolagem da dívida. Confirmou também o veto ou o bloqueio em parte das emendas
aprovadas no Orçamento, explicando que existe uma lei complementar, aprovada
pelo Congresso, que cria a forma de correção.
Perguntei qual será o grande mote da eleição
de 2026. E ele respondeu que o planeta está passando por mudanças dramáticas e
o Brasil não pode deixar de ter na presidência uma liderança como o
presidente Lula que
tem interlocução mundial.

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