domingo, 19 de julho de 2026

Elisabeth, a menina de Renoir, por Elio Gaspari

O Globo

Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com a trágica história das irmãs retratadas pelo pintor francês

Um dos mais admirados quadros do Museu de Arte de São Paulo é do pintor francês Renoir: chama-se “Rosa e Azul”. Retrata duas meninas: Alice (a de vestido rosa), de 5 anos, e Elisabeth (de azul), de 6, filhas do casal Louis e Louise Cahen d’Anvers, estrelas da granfinagem parisiense. Renoir recebeu 1.500 francos pelo serviço, não ficou muito satisfeito, mas o quadro foi bem de crítica. Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com sua história.

No fim do século XIX os Rothschild, com seu banco e seus castelos, eram conhecidos como os reis dos judeus, e os d’Anvers (também judeus) estavam ligados aos Ephrussi, os reis do trigo. Faziam parte da elite francesa ou supunham fazer parte dela, pois o ranço antissemita sempre estava pronto para mais um bote.

As duas meninas viveram no esplendor. Hoje esse mundo denomina-se proustiano, rico e refinado. Elisabeth casou-se duas vezes. Essa parte da história é conhecida, e o quadro a ilustra.

Mas o tempo passou e depois da invasão da França pela Alemanha, em 1940, o antissemitismo tornou-se uma política de Estado. A partir desse momento, o livro da jornalista inglesa Catherine Ostler difere das narrativas habituais entrando nas trevas do século XX. Enquanto Alice casou-se com um oficial inglês e foi viver em Londres, Elisabeth (a menina de azul) converteu-se ao catolicismo e ficou na França.

Em janeiro de 1944, Elisabeth tinha 69 anos e vivia reclusa, por receio e pela sua artrite. A guerra estava perdida para a Alemanha. O Exército Vermelho já havia entrado na Polônia e, em Londres, os Aliados planejavam a invasão da Normandia, e o general americano Dwight Eisenhower havia sido colocado no comando do Dia D. Os Aliados haviam desembarcado na Itália. (O Vaticano pediu que não entrassem em Roma com soldados negros.) Em Paris as porteiras dos judeus depenaram suas casas. Nesse mesmo dia, no interior da França, uma patrulha chegou a uma casa: procuravam uma judia. A senhora não andava sem ajuda. Elisabeth Cahen d’Anvers foi presa e colocada num Citroën.

O prefeito do lugar era um antissemita estremado e neto de Eugène Schneider, um titã da indústria francesa, e as duas famílias já se haviam cruzado. Ele informou que a senhora havia sido da religião judaica até os 20 anos. A menina de Renoir foi para uma prisão próxima e, de lá, para um campo de trânsito. Dias depois estava em Drancy, a antessala da morte.

No dia 27 de março de 1944 ela foi colocada num vagão com destino ao campo de extermínio de Auschwitz. No comboio foram 1.025 pessoas (só 152 sobreviveriam) e a viagem durou 55 horas. Cada prisioneiro recebeu apenas um pedaço de pão.

Elisabeth, a menina de vestido azul, desapareceu.

O caminho do quadro

A família Cahen d’Anvers vendeu o quadro em 1909. Ele foi comprado por uma família alemã, passou para as mãos de galeristas e do governo francês. Em 1939 estava na Argentina, como parte de uma exposição. Passou por vários museus americanos. Em 1951 ele estava em Nova York, na coleção do galerista Sam Walz. Em setembro, com o provável aconselhamento de Pietro Maria Bardi, que organizava o Masp, ele o ofereceu ao jornalista Assis Chateaubriand, que o comprou por 120 mil dólares (1,5 milhão em dinheiro de hoje). Ao seu estilo, Chatô conseguiu quem pagasse pela obra, e nela há a informação de que foi doada pela Cidade de São Paulo. Em 1954, quando a tela chegou à capital paulista, uma neta de Alice (a menina de rosa) posou diante dele.

Tarcísio e o tarifaço

Com 16 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad na disputa pelo governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas sofreu o seu primeiro contratempo. Ele terá tempo até outubro para explicar sua fotografia de julho de 2024 cobrindo-se com um boné da campanha de Donald Trump com a sigla MAGA (Make America Great Again).

Noves fora os insultos dirigidos a Lula, o segundo tarifaço de Trump travará negócios e desempregará trabalhadores.

Tarcísio havia sido avisado de que a presepada poderia vir a custar caro.

Faxina no FGC

O setor privado orgulha-se de ter uma capacidade regeneradora que falta ao setor público. Será? O Fundo Garantidor de Créditos foi criado na crise bancária de 1995 para proteger investidores de até R$ 250 mil, mas não pretendia ser uma casa da sogra.

Um finório como Daniel Vorcaro podia embolsar dois funcionários do Banco Central, podia até mesmo tentar fabricar uma elevação do teto da garantia para R$ 1 milhão. Alguém devia ter desconfiado que havia gato na tuba, e muita gente desconfiou. Disseram nada, e o FGC tomou uma mordida de R$ 40,3 bilhões.

A menos que os diretores dos bancos liquidados percam boa parte de seus patrimônios, essa conta irá para a clientela, embutida em taxas e juros.

Falta de aviso não foi.

Copa das apostas

Hoje vai-se saber quem leva a Copa, mas o certame será lembrado como a Copa das Apostas. Elas dominaram o evento, com jogadores servindo de garotos-propaganda de casas de jogos. No mundo dos jogos sérios, a seleção brasileira teve um desempenho sofrível porque não jogou com responsabilidade.

O governo legalizou a jogatina sem medir consequências, interessado apenas em arrecadar, mas não está conseguindo fazê-lo com responsabilidade.

O poderoso Diosdado

Nem um raivoso antiamericano seria capaz de imaginar que depois de oferecer 25 milhões de dólares pela captura de Diosdado Cabello, o poderoso ministro do interior da ditadura chavista, a diplomacia trumpista sequestraria Nicolás Maduro e tomaria conta do país mantendo o doutor Cabello na pasta.

Ele era acusado de ter traficado toneladas de cocaína. Do jeito que ficaram as coisas, Donald Trump e Marco Rubio tornaram-se os patronos do maior traficante de cocaína que denunciavam.

PT baiano

O alto comando petista teme uma surpresa eleitoral amarga na Bahia.

Decadência

Rainha consorte da Inglaterra, Mary of Teck (1867-1953) adorava joias e comprou a esplêndida tiara Vladimir a preço de banana de uma grã-duquesa russa destronada. Além disso, gostava de levar lembrancinhas das casas por onde passava, sem consultar os donos. Já Lord Mountbatten (1900-1979) apreciava bibelôs alheios. A Duquesa de Windsor trancava os seus quando ele ia visitá-la.

Até aí, tudo bem, mas príncipe (Harry) pedindo dinheiro a cantor (Elton John) é coisa de Império de Bananas, para não mencionar o tio Andrew.

Terras raras

Deu errado a ideia de colocar as terras raras no pano verde das negociações de políticas tarifárias de Donald Trump.

O Planalto poderia mandar um jovem secretário pesquisar os documentos das negociações de Getulio Vargas com os Estados Unidos em torno das areias monazíticas do Espírito Santo durante a guerra.

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

''O vaticano pediu que não entrassem em Roma com soldados negros'',não entendi...

Anônimo disse...

O Vaticano seria racista, talvez não tanto quanto os nazistas. [não sei a veracidade disto, apenas interpreto]