Por O Globo
Esteroide é a receita de Pete Hegseth para
reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia
O operador de teleprompter Gabriel Pérez
trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$
170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket)
sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em
discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez,
vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.
A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre
pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para
reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de
conquistar a paz pela força: testosterona.
Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth
já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas,
apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no
Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a
primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em
frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava
o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos
2,8 milhões de fardados do país:
— Você faz parte da maior elite de guerreiros
da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de
sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento
bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro
individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de
testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais
de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser
testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de
otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que
você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.
Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o
esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade.
Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a
produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em
larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em
troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo
doente, obcecado com masculinidade.
O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez
carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial,
quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram
à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica
estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi
movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina,
patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940,
os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A
Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e
França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses
diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the
Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em
narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de
opioides à base de oxicodona, além da cocaína.
— Não precisamos de fracos, queremos apenas
os fortes — decretou Hitler.
Hegseth está apenas brincando de guerra com
testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra
o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.
Que tempos!

Um comentário:
Governantes VICIADOS dizem combater as drogas... Excelente coluna!
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