domingo, 19 de julho de 2026

EUA apostam em testosterona para vencer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Esteroide é a receita de Pete Hegseth para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia

O operador de teleprompter Gabriel Pérez trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$ 170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket) sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez, vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.

A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de conquistar a paz pela força: testosterona.

Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas, apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos 2,8 milhões de fardados do país:

— Você faz parte da maior elite de guerreiros da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.

Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade. Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo doente, obcecado com masculinidade.

O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial, quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina, patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940, os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de opioides à base de oxicodona, além da cocaína.

— Não precisamos de fracos, queremos apenas os fortes — decretou Hitler.

Hegseth está apenas brincando de guerra com testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.

Que tempos!

 

Um comentário:

Daniel disse...

Governantes VICIADOS dizem combater as drogas... Excelente coluna!