O Estado de S. Paulo
O futuro depende de projetos bem concatenados e da gestação, nas sociedades, de ‘blocos históricos’
Sempre pedimos ao passado para nos ajudar a
entender as agruras do presente. O passado determina muitas coisas. Modela
experiências, individualidades e relacionamentos. Forma estruturas difíceis de
serem modificadas. Condiciona não pela transmissão de “heranças malditas”, mas
pelo que contém de tradições, valores e percursos reiterados. Carrega cultura
no ventre. A história é sempre permanência e mudança, continuidade e
descontinuidade.
O passado não nos domina. “Eu não vivo no passado, o passado vive em mim”, cantou Paulinho da Viola. Sua herança nos chega sem um testamento ou um roteiro a ser seguido. Não guia nossos passos, não diz o que devemos fazer com ele. A falta de clareza sobre o futuro é que nos leva a buscar explicações no passado.
Na vida concreta, vivemos sempre naquilo que
Hannah Arendt chamou de “lacuna temporal entre o passado e o futuro”.
O passado é disputado. Luta-se para definir
quem o interpreta e como faz isso. Alguns se valem de omissões e silêncios
calculados, outros valorizam os “heróis da Pátria”. Há os que elogiam aspectos
tenebrosos do passado, para tentar copiá-los. Outros falam em “forças do
atraso” para qualificar aquilo que resiste ao progresso. E outros, ainda,
adotam as próprias glórias passadas como marcas identitárias.
No Brasil, endeusar os anos de ditadura
militar serve para defender a existência de um tempo pretérito em que todos
teriam sido felizes e não sabiam. Nos EUA, Donald Trump usa o passado como arma
política, empregando-o para ressignificar a história. Putin, na Rússia; Xi
Jinping, na China; e Narendra Modi, na Índia, imaginam usar o passado para
blindar seus poderes presentes e controlar o futuro.
Estudar o passado é essencial para que se
compreendam as mudanças sociais, as estruturas de poder, as práticas, os hábitos,
o jeito de ser, a linguagem. Explica, por exemplo, a condição dos negros, com
seus antepassados escravos, e das mulheres, que ainda dialogam com a tradição
machista e patriarcal que vigorou desde sempre.
Acontece que o passado não é um peso morto atado
às pernas da sociedade. Não é um fardo que bloqueia o futuro. É uma força que
se estende ao presente. Ele é processado, deglutido, incorporado no correr da
história. Ele se consome dentro de si mesmo, “se acabando a cada minuto, mas
sem acabar de se acabar nunca” (Gabriel García Márquez). Cada época traduz o
passado conforme suas circunstâncias, seus valores e sentimentos, sua ideia de
futuro.
Não temos como conceber o futuro por
antecipação. Impossível saber se ele será melhor ou pior. Em nossa era de crises
em alta e utopias progressistas em baixa, o futuro tornouse um cenário
embaçado, visto como tendo mais perigos que esperança. Ficamos presos à
sensação de viver um “presente eterno”, como se tivéssemos medo do futuro, como
observou Elimar Nascimento na Revista Será? (15/5). Vivemos assustados e
indignados, mas nossa indignação não encontra âncoras e diretrizes, nem gera
construções e sujeitos coletivos.
Pensar o futuro é um desafio complexo. Não
pode ser resolvido mediante uma bela ideia abstrata ou uma ideologia solta no
espaço. O mundo não “caminha para” um lugar estabelecido. O pensamento linear,
as causalidades simples e o mecanicismo não nos ajudam. Se for possível
desenhar uma desejável progressão rumo ao futuro, precisaremos de exercícios
dialógicos que cruzem visões distintas, recuperem o contraditório e leiam
criticamente o presente e suas possibilidades.
O futuro depende de projetos bem concatenados
e da gestação, nas sociedades, de “blocos históricos” que articulem interesses,
deem suporte a políticas públicas progressistas, disseminem valores
democráticos e apoiem governos que olhem para frente. Projetos que incluam
sustentabilidade, distribuição de renda, energias renováveis, igualdade,
segurança, gestão ambiental, justiça e educação de qualidade para todos.
Não temos isso no Brasil. Falta-nos uma governabilidade comprometida, distante da polarização tóxica, empenhada em melhorar a qualidade da política e formar lideranças que façam a mediação entre a sociedade e o Estado. Entre nós, as disputas políticas são medíocres, os consensos não se formam. E não surge ninguém – um partido, uma frente, um estadista, um leque de ideias – para sacudir a poeira e dar a volta por cima. Carecemos, em suma, de um “bloco histórico” com funções agregadoras e densidade ético-política.
Movimentos desse tipo não avançam no curto
prazo. Pedem múltiplas articulações críticas para ligar interesses pessoais e
interesse público, indivíduos e comunidade política, nações e mundo. Requerem
abertura ao diálogo, aceitação do inusitado e interação reflexiva de uns com os
outros.
Pensar o futuro só faz sentido a partir daí.
É ocioso denunciar um amanhã que segue aberto. Também não dá para cultivar um
otimismo ingênuo. Melhor é manter os olhos abertos para as possibilidades e as
incertezas do presente, abraçando a esperança de que o humano continue a saber
se reproduzir.
*Professor titular de Teoria Política da UNESP

Nenhum comentário:
Postar um comentário