terça-feira, 2 de junho de 2026

Há problemas e há soluções, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Boas escolhas podem levar ao avanço das condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas mazelas persistam

O êxito com que certos brasileiros, em viagem político-eleitoral ao exterior ou ali homiziados, agem contra o Brasil chega a dar a sensação de que este país está sem rumo e não parece preocupado em reencontrá-lo. Alguns até desejam, sem compreender a extensão dos riscos à segurança institucional e à soberania nacional de seus desejos, que potências estrangeiras invadam o País para resolver problemas que, na sua opinião, os brasileiros não sabem resolver.

Avanços econômicos ou sociais nunca serão suficientes para parte da população que parece descrente do futuro do Brasil. A qualquer melhora, sempre será possível contrapor um fato negativo, um dado ruim, uma situação precária que a desminta ou a torne quase nada. E aos descrentes, ou aos que querem semear a descrença, argumentos, de fato, não faltam. Mas essa não é a única maneira de enxergar o mundo.

Soou pouco relevante a informação divulgada na semana passada de que, pela primeira vez, o Brasil alcançou o nível de desenvolvimento muito alto medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil. É um fato extraordinário, que mostra um país em que as condições de vida melhoraram muito entre 2012 e 2024.

O IDHM baseia-se na expectativa de vida, nos anos de escolaridade e na renda da população. Varia de zero a um e, quanto mais próximo do nível máximo, melhor a qualidade de vida. Em 2024, o Brasil alcançou 0,805, ante 0,798 em 2023.

O gráfico da evolução anual do IDHM é uma espécie de síntese econômica, social e política do período. Nos anos iniciais, há uma nítida e contínua elevação, de 0,744 em 2012 até 0,782 em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Em 2020, o Brasil e o mundo foram assolados pela pandemia da covid-19, razão pela qual o IDHM baixou para 0,776.

No gráfico, vê-se nitidamente uma letra “V”, com vértice em 2021, quando o IDHM ficou em 0,757. Boa parte da queda deveu-se ao impacto da pandemia, mas é preciso lembrar que outra parte foi consequência da maneira desastrosa como o governo do presidente Jair Bolsonaro tratou do grave problema de saúde. Se o governo tivesse agido com presteza e competência, o Brasil não teria registrado cerca de 700 mil mortes por causa da pandemia.

De maneira indireta, essa péssima atuação do governo brasileiro na pandemia foi lembrada pela coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, ao se referir à negação, por Bolsonaro, dos riscos que a pandemia traria para o futuro. “Essa negação e esse não envolvimento rápido com a criação de políticas públicas que combatam crises sistêmicas é muito grave”, disse ela. “Ainda não nos recuperamos aqui, em termos de esperança de vida, do baque da covid-19.”

Mas, mesmo sem ter recuperado a evolução da expectativa de vida de antes da pandemia, o Brasil melhorou substancialmente em termos de IDHM nos últimos anos. Betina Barbosa destacou que um dos componentes do índice que avançaram foi o da educação, que passou de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024. “É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escolaridade e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo o efeito de uma política pública brasileira”, disse.

Pessoas de grande influência por sua presença nos meios de comunicação ou no cenário político e empresarial veem poucos efeitos positivos nos programas sociais do governo, por isso sempre pedem sua revisão, a redução de seus recursos e do público beneficiado, ou mesmo sua extinção, pois estariam criando maus cidadãos desacostumados ao trabalho. Mas, como mostrou a pesquisa da Pnud Brasil, esses programas abrem caminho para que mais brasileiros progridam por seus próprios meios.

É claro, como apontam os críticos desses programas e os descrentes da possibilidade de o Brasil ter um quadro social melhor, que o cenário apresenta muitos pontos negativos. O abismo social continua imenso. Mesmo quando a renda média sobe, como tem subido, a desigualdade social se mantém ou se amplia, pois quem ganha mais vem tendo ganhos de renda maiores do que os que ganham menos (ver o artigo Menos pobre, mais desigual, Estadão, 5/5). Estudos têm mostrado isso. O mais recente é o de Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.

Escolhas do eleitor podem aumentar o ritmo da melhora de alguns indicadores – ou diminuir. Entre 2019 e 2022, por exemplo, às consequências da pandemia somaram-se imprevidência, irresponsabilidade e incompetência dos gestores escolhidos pelo presidente eleito em 2018, com efeitos altamente danosos para o IDHM. Boas escolhas podem levar ao avanço das condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas mazelas persistam. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo, mas é sempre possível avançar.

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