terça-feira, 2 de junho de 2026

Renan Santos e a revolta dos lascados da direita, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Líder do partido Missão e do MBL tem 6,9% das intenções de voto no primeiro turno

Ele traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa

Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Rosto desconhecido do brasileiro comum até o ano passado, Renan atingiu em maio 6,9% das intenções de voto no primeiro turno, isolado em terceiro lugar, segundo a pesquisa Atlas Intel/Bloomberg. Como?

Renan e seus aliados vêm sendo testados em ameaças, cancelamentos e ataques bolsonaristas, especialmente desde que o MBL defendeu o voto nulo na eleição de 2022. Essa experiência impulsionou a coleta de quase 600 mil assinaturas para a fundação do partido —e treinou o atual pré-candidato a se comunicar com clareza e contundência sobre seus planos para o Brasil.

Outra arma do Missão é a coesão da militância. O movimento vende assinaturas da Valete —a segunda revista de cultura em número de assinaturas no país, depois da Piauí. Dali emergem diagnósticos e propostas do partido. Esse espaço de debate forma quadros articulados, que influenciam amigos e parentes.

Renan tem uma personalidade original: é músico competente, tem uma banda chamada Limão Rosa, é fã de Ayrton Senna e Bob Dylan e traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa, doa a quem doer.

Sua campanha navega a favor dos algoritmos das redes. Oferece comentários políticos diários em lives, e a militância é estimulada a fazer cortes desse material —um esforço remunerado pelo YouTube.

Renan está viajando de carro pelo país, e o movimento transforma entrevistas em rádios e o registro de problemas locais em conteúdo que circula nacionalmente.

Ele tem propostas polêmicas. Prega medidas radicais de enfrentamento ao crime organizado, denuncia o balcão de negócios do centrão e defende a desobediência ao Supremo para resgatar as prerrogativas do Executivo.

Em live recente, Eduardo Bisotto, uma das vozes da pré-campanha, católico, fumante, desbocado e analista político experiente, apresentou o movimento como "a direita dos fodidos". Eles têm o perfil do antigo militante de esquerda: jovem, urbano, com formação universitária, movido pelo idealismo.

O Missão entende que seu caminho para a glória passa por participar dos debates na TV. E, se serve de paralelo o exemplo colombiano —que levou ao segundo turno o candidato sem experiência política e com propostas radicais de enfrentamento ao crime organizado—, a banda Limão Rosa, com o vocalista presidente, pode encabeçar o show de posse no Brasil. Depois disso, estaremos em águas inexploradas.

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