segunda-feira, 1 de junho de 2026

A semana que mudou tudo para continuar na mesma, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Aprovação do fim da escala 6x1 e decisão de Trump sobre CV e PCC mostram que Lula e Flávio Bolsonaro continuam no páreo

Para aqueles que, como eu fiz na coluna de 4 de maio, acreditaram que Lula havia se tornado um pato manco no final de seu terceiro mandato depois da rejeição da indicação de Jorge Messias para o Supremo, a aprovação do fim da escala 6x1 e da redução da jornada semanal para 40 horas provou que o presidente ainda tem capital político para obter dividendos eleitorais importantes.

É verdade que essa pauta não constava entre as prioridades e os objetivos do governo Lula. Ainda que fosse uma bandeira antiga dos sindicatos, a proposta ganhou força com uma mobilização nas redes sociais, inicialmente capitaneada pelo movimento Vida Além do Trabalho e, na sequência, com o protagonismo da deputada Erika Hilton (Psol-SP).

Na reta final, porém, Lula se empenhou pessoalmente nas articulações para acertar os termos da transição com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e, assim, viabilizar a votação.

Agora, com o poderoso combo composto pela isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, pelo fim da escala 6x1 e ainda com o Desenrola 2.0, Lula entra na campanha eleitoral com ativos importantes para conquistar votos numa faixa de renda que, em sua maioria, desaprova seu governo (o grupo de quem ganha de 2 a 5 salários-mínimos).

Outro personagem que foi reabilitado na semana passada foi Flávio Bolsonaro. O encontro com Trump, seguido pelo anúncio do governo americano de considerar como organizações terroristas o Comando Vermelho e o PCC, serviu-lhe para diversos propósitos.

De um lado, gerou um fato positivo para remediar os sérios danos sofridos pela exposição de suas íntimas ligações com Daniel Vorcaro. A ajuda do governo americano também reforça a comunicação com uma parcela expressiva da população que vive sob o domínio do crime organizado e almeja uma política de segurança pública mais dura. Por fim, a medida de Trump esvazia parte do discurso de Lula, que desde o tarifaço se colocou perante o eleitorado como o grande articulador na defesa dos interesses nacionais.

No frigir dos ovos, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro recuperaram parte da credibilidade abalada nas últimas semanas. O efeito sobre a moral dos candidatos foi tão forte que Lula decidiu até mesmo reapresentar o nome de Jorge Messias para o STF.

Caso único desde o final do século XIX, o “não” dos senadores à indicação de Lula foi visto como mais um capítulo do expressivo ganho de poder do Congresso sobre o Executivo no presidencialismo de coalizão brasileiro. A insistência em Messias, porém, significa bem mais do que teimosia de octogenário ou excesso de fidelidade de Lula a seu advogado-geral.

Todos os diagnósticos para a causa da mais importante derrota parlamentar do terceiro mandato lulista apontavam para o veto exercido pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Ora, se Lula tem confiança de que, desta vez, “Bessias” poderia obter a maioria absoluta dos votos (no mínimo 41 apoios, contra os 34 conseguidos na primeira votação), quer dizer que houve um acerto com Alcolumbre. Não sabemos os termos da negociação, mas é bem provável que o velho “toma lá, dá cá”, marca do nosso sistema político, esteja de volta.

Ainda na semana passada, o senador Rodrigo Pacheco anunciou pela enésima vez que não vai se candidatar ao governo de Minas Gerais. A quatro meses da eleição, o segundo maior colégio eleitoral do país, decisivo em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, vive um deserto de opções para governador. Parece até mesmo que ninguém quer assumir o abacaxi de administrar um Estado praticamente falido.

A situação, contudo, é fruto da implosão sofrida pelas duas principais forças políticas mineiras na última década: os tucanos de Aécio Neves, de um lado, e o petismo de Fernando Pimentel, por outro. Para completar, ainda que alimente o sonho da candidatura presidencial, a verdade é que Romeu Zema não teve uma gestão potente o suficiente sequer para fazer um sucessor inconteste após sua passagem pelo Palácio da Liberdade.

Essa indefinição de nomes para constar na urna em 4 de outubro dificulta a formação de palanques num Estado que pode ser mais uma vez o fiel da balança numa eleição presidencial tão polarizada.

“Para a semana que entra”, como se diz no interior de Minas, teremos o Gilmarpalooza em Lisboa. Mesmo com assessorias de imagem recomendando cautela a figurões do PIB e da política diante do risco de exposição num evento monitorado de perto pela mídia - principalmente após os desdobramentos do caso Master - as oportunidades de encontros privados com autoridades dos Três Poderes em momento de descontração sempre atrairão interessados.

Há também outro público cativo: integrantes das carreiras jurídicas (magistratura, Ministério Público e advocacia pública) sempre de olho em vagas a serem abertas nos tribunais superiores. Mais do que o lobby privado, para muitas autoridades judiciais o Gilmarpalooza também é um grande evento para ser visto - e como dizia o ditado antigo, “quem não é visto não é lembrado”.

Tanta coisa acontece, e tudo continua na mesma.

*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

Nenhum comentário: