Folha de S. Paulo
Verdadeiro escândalo do Congresso é a votação
remota, que permite que deputados votem durante sessão de cinema
Votação simbólica é mecanismo amplamente
utilizado em democracias com legislaturas profissionalizadas
No último domingo (24), a Folha publicou,
com destaque em sua capa da versão impressa, matéria sobre
o uso de votações simbólicas pelo Congresso brasileiro, sob o
argumento de que esse expediente comprometeria a legitimidade e a transparência
do Legislativo.
Como discuti neste espaço em julho de 2025, a ciência política já identificou mecanismos que legislaturas "ocupadas", com alta demanda de temas a serem discutidos e votados, utilizam para organizar o trabalho legislativo e otimizar o tempo escasso. A votação simbólica, também chamada de "unrecorded collective vote", "voice vote" ou "signal vote", é um deles. A distribuição desigual do tempo de discurso entre líderes partidários e deputados ordinários é outro.
A votação simbólica tende a ser o método
padrão de deliberação para conferir celeridade ao processo legislativo quando
há consenso político, resultando, em geral, de acordos entre os líderes
partidários e a presidência da Casa. Trata-se de mecanismo amplamente utilizado
em democracias com legislaturas profissionalizadas, como o Congresso americano
e o Parlamento britânico.
Votações nominais ficam reservadas para
situações específicas, quando o projeto em apreciação requer maioria
qualificada para aprovação, como PECs, projetos de lei complementar e casos de
cassação de mandato ou quando há pedido de verificação de votação. Se o pedido
vem de lideranças partidárias que representem ao menos 6% dos membros da Casa,
o presidente deve abrir a votação nominal.
Pedidos sucessivos de votação nominal também
são forma conhecida de obstrução. Por isso, o regimento interno prevê intervalo
de uma hora entre uma verificação e outra. A quebra desse intervalo depende do
plenário e pode ser viabilizada por acordo entre líderes. No governo Collor, o
truque era pedir votação nominal em matérias menores para colocar em votação
simbólica, na hora seguinte, votações politicamente mais importantes.
Longe de ser um instrumento de opacidade, a
votação simbólica sinaliza consenso. O verdadeiro problema de legitimidade e
transparência é outro: o sistema híbrido de votação, que na prática esvazia a
exigência de quórum –exigência mantida nos casos de votações simbólicas
realizadas presencialmente.
A revista Piauí relata caso de deputados que
usaram o sistema híbrido para votar enquanto assistiam a uma sessão de cinema. Esses
deputados não estavam participando da sessão plenária nem acompanhando as
discussões. Se isso se torna corriqueiro, cabe questionar a destinação de R$ 8
bilhões ao custeio da Câmara só em 2026. O problema se agrava porque não é
possível identificar facilmente, pela área do site da Casa em que se acompanha
a tramitação dos projetos de lei, se uma votação ocorreu de forma presencial ou
remota.
O pior cenário se materializou no dia 19 de
maio, quando o indefensável projeto de anistia
aos partidos que fazem mau uso dos recursos públicos, vendido como
"minirreforma eleitoral", foi aprovado em votação remota e simbólica.
A fórmula regimental é simples: deputados favoráveis são convidados a
permanecer como estão. No modelo remoto, porém, só a Mesa, ou Deus, talvez
saiba dizer quem, de fato, estava como estava.
*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ.

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