segunda-feira, 1 de junho de 2026

Incerteza política, por Denis Lerrer Rosenfield *

O Estado de S. Paulo

Seria necessário que se consolidasse ou surgisse uma terceira via, voltada para o congraçamento nacional, para além da polarização reinante

Se há algumas semanas podia-se dizer que o senador Flávio Bolsonaro era o favorito na disputa presidencial, num movimento de ascensão, enquanto o seu oponente seguia a curva inversa, não se pode mais sustentar tal posição. O estrago produzido por sua relação próxima com o banqueiro/facínora Daniel Vorcaro é significativo. Lula, por sua vez, viceja em seus erros, embora esteja ele mesmo envolvido por atos passados de corrupção como aconteceu no mensalão, no petrolão, no sítio de Atibaia e no apartamento do Guarujá. A disputa pelo andar de baixo é acirrada, e o Brasil encontra-se cada vez mais à deriva, sem opções claras. E o cenário eleitoral tornou-se ainda mais indefinido.

A bem dizer, nenhum dos dois candidatos reúne condições para ocupar a cadeira presidencial. Lula faz o que o País suporta ou não para ganhar as eleições, sem qualquer preocupação com o bem público, com a saúde econômica e financeira do País. Sua política econômica neste terceiro mandato caracteriza-se pelo descontrole fiscal, pelo aumento da dívida pública e por juros elevados, inviabilizando cada vez mais a atividade produtiva, salvo para grupos empresariais muito próximos que estão se aproveitando da atual situação. O capitalismo de compadrio corre solto, em nome de uma política esquerdista, enquanto a classe média e os trabalhadores sofrem com o preço dos alimentos e o endividamento. O único feito digno de nota de seus ministros da Fazenda foi o de aumentar os impostos, sempre em nome de uma suposta justiça fiscal. Aliás, o que se pode bem esperar de um presidente para quem “gasto” é “investimento”? Até as palavras perdem o seu significado! Para quem esperava a repetição de Lula 1, ganhamos de presente um Dilma 3.

O senador Flávio Bolsonaro vinha se posicionando bem, jogando parado, como se diz em linguagem futebolística, até a revelação de seus diálogos com o hoje preso “banqueiro”. Escondeu até de seus próximos seu relacionamento com ele, caracterizado como sendo de “irmãos”. O que, então, pode bem esperar uma nação que observou atônita esses acontecimentos, numa sucessão de fatos que ora se apresentava como ópera-bufa, ora como drama familiar de segunda categoria? Suas justificativas foram risíveis. A de que se tratava de uma relação privada foi um atentado à inteligência alheia. Como se pode tratar como relação privada o relacionamento com um criminoso? Se uma pessoa recebe doação de um narcotraficante, caberia simplesmente justificar dizendo que se trata de uma relação “privada”? Apesar de tudo isso, achou que poderia visitar o “banqueiro” em prisão domiciliar. Primeiro, escondeu o que tinha feito. Segundo, a sua justificativa foi ainda pior, pois disse que foi para finalizar a relação, enquanto o presidente de seu partido, Valdemar da Costa Neto, simplesmente declarou que lá foi para acertar o pagamento do resto do dinheiro, ou seja, para ganhar ainda mais. Como sustentar tal contradição?

O Brasil não pode mais continuar refém de tal polarização, que só traz malefícios para todos. Se nela continuarmos, qualquer que seja o vencedor, o País terminará por caminhar para uma crise institucional. Deve-se, portanto, evitar que tal aconteça, sua possibilidade sendo a de que se crie uma terceira via. Os que se atêm ainda à candidatura do senador Flávio Bolsonaro, apostando na força do bolsonarismo, algo real eleitoralmente, correm o risco de perderem para Lula no segundo turno, considerando que um eleitorado importante de centro, liberal ou conservador, já não mais aceita tal tipo de postura radicalizada. Ademais, o plano de indulto ou anistia ficaria muito prejudicado, se não inviabilizado, com a reeleição de Lula. Deveriam também pensar nisso.

Seria necessário que se consolidasse ou surgisse uma terceira via, voltada para o congraçamento nacional, para além da polarização reinante, visando ao bem do Brasil, corrigindo os erros e excessos dos últimos governos. Os atuais postulantes, Reinaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, oscilam há semanas entre 3% e 5%, não conseguindo ultrapassar esse patamar. Quiçá uma união entre os dois primeiros possa reconfigurar esse quadro. Uma eventual entrada no pleito de Michelle Bolsonaro, seja como titular, seja como vice, poderia também criar um fato novo, tendo a força de ser mulher e evangélica. Contudo, o nome Bolsonaro carrega a polarização que se procuraria evitar.

Talvez pudesse haver uma mudança significativa nesse cenário, caso o ex-presidente Michel Temer terminasse por entrar nessa disputa. Tem experiência, sabe articular política e partidariamente. Além disso, soube com determinação consertar um país arruinado pelo governo Dilma, agora numa repetição com o presidente Lula. Poderia ainda ter a vantagem de produzir um movimento de união nacional, caso tivesse o apoio dos governadores que estão disputando a eleição. Seria o fato novo!

*Professor de filosofia na Ufrgs.

 

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