segunda-feira, 1 de junho de 2026

Desconfie de tudo na eleição, por Dora Kaufman*

O Globo

A palavra de ordem é checar. Checar tudo o que recebemos, não importa se veio de um grupo de família ou de amigos próximos

O calendário eleitoral de 2026 prevê o início oficial da propaganda, nas ruas e na internet, apenas em 16 de agosto, mas, na prática, a campanha já começou. E começou pela desinformação. As fake news têm origens múltiplas e difusas: nascem nas declarações dos políticos e são amplificadas pela mídia, espalham-se nos posts de influenciadores digitais — remunerados ou engajados — e se disseminam nas redes de partidos, candidatos e apoiadores, sejam eles espontâneos ou parte de esquemas pagos pelas próprias campanhas.

Um fenômeno novo, especialmente preocupante, são os synth fakes: personagens inteiramente criados por inteligência artificial (IA) — influenciadores artificiais como o avatar “Dona Maria”, que hoje já somam 18, 61% dos quais sem explicitar que são gerados por IA. Nesse cenário, a IA tem o potencial de influenciar, ou mesmo manipular, o eleitor com um poder de persuasão sem precedentes na história da democracia brasileira.

Existem regras e resoluções a seguir, princípios que deveriam nortear qualquer processo democrático, como transparência, bom senso e respeito ao eleitor. Mas o ambiente político atual, cada vez mais complexo e polarizado, tensiona esses limites ao extremo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina transparência no uso de IA durante as eleições: conteúdos gerados ou substancialmente manipulados por IA devem ser identificados com rótulos visíveis — chamados marcas-d’água digitais. A medida é justa, mas carece de efetividade prática. Tende a ser imperceptível para a maioria dos eleitores. Entre os que a percebem, quantos entenderão do que se trata? Adicionalmente, há outros complicadores técnicos: como distinguir conteúdo gerado inteiramente por IA de conteúdo apenas modificado por IA? A fronteira pode ser tênue e, muitas vezes, invisível.

Todas as iniciativas do TSE são apropriadas e necessárias, mas fiscalizá-las é um desafio nada trivial. Requer capacitar os Tribunais Regionais Eleitorais, os juízes eleitorais e as Juntas Eleitorais que atendem os 5.570 municípios brasileiros. São esses agentes que devem analisar, julgar e punir as infrações cometidas durante as eleições. A capacitação técnica dessa estrutura — para que reconheça, compreenda e julgue conteúdo impróprio gerado por IA — é um gargalo ainda sem solução.

Há ainda o problema do timing: o tempo que transcorre entre identificar uma infração — por denúncia ou iniciativa da própria Justiça Eleitoral —, analisá-la, julgá-la e puni-la é incompatível com a velocidade com que a desinformação se espalha pelas redes digitais. Quando a determinação de retirada da peça infratora for declarada, o estrago já está feito.

Diante desse quadro, como podemos contribuir? A primeira medida é nos familiarizarmos com a IA: saber o que ela é capaz de fazer e disseminar esse conhecimento na família, entre os amigos, no trabalho, nas conversas cotidianas, até com o motorista de aplicativo. A educação digital é defesa democrática. A palavra de ordem é checar. Checar tudo o que recebemos, não importa se veio de um grupo de família ou de amigos próximos. Toda informação que parecer estranha ou improvável deve ser verificada em fontes independentes antes de ser compartilhada. A regra prática é simples: em caso de dúvida, não compartilhe.

Alguns sinais de alerta merecem atenção: se receber uma ligação pretensamente de um candidato, desconfie, pode ser uma IA imitando sua voz; se receber uma imagem suspeita, procure falhas nas mãos, bordas imprecisas, reflexos inconsistentes; se uma informação for chocante, investigue, procure a fonte original — notícias verdadeiras e relevantes aparecem em veículos de credibilidade (não apenas em grupos de WhatsApp).

Temos menos de quatro meses para nos preparar. A democracia brasileira já enfrentou muitos desafios. Este é invisível, veloz e personalizado para cada bolha. Defendê-la pede controle social.

*Dora Kaufman, professora na PUC-SP e colunista da Época Negócios, é autora do livro “Desmistificando a inteligência artificial”

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