Por Fabio Graner e Sérgio Roxo - Globo, domingo,31/05/2026
Petista avalia que o presidente do Senado não
deve criar dificuldades para avançar até outubro com a PEC do fim da escala 6x1
e vê caminho para aproximar campanha à reeleição das siglas de centro
O ministro José
Guimarães (Relações Institucionais) afirma que o presidente do
Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), está disposto a recompor a relação com o
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) e não deve criar dificuldades para avançar até outubro com a PEC do
fim da escala 6x1, bandeira que será usada na campanha à reeleição. Alcolumbre
foi um dos responsáveis pela derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias,
na indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas Guimarães diz que o governo
“aprumou o passo” após o revés.
Como o governo vai atuar para que o fim da escala 6x1 avance no Senado?
Aplicamos uma enorme derrota ao bolsonarismo.
É o tema que mais terá peso nesse próximo período, mais de 70% da população é
favorável. O esforço agora é para votar no Senado, e acho que não vamos ter
dificuldade. O Hugo Motta (presidente da Câmara) já conversou com o Davi
(Alcolumbre). Nós vamos conversar. Do jeito que está o texto, o ideal seria
levar direto para o plenário. Vai depender do Davi, porque a oposição quer
retardar.
A relação abalada entre Alcolumbre e o
presidente Lula complica o andamento?
Acho que não. Não se pode interditar a
discussão de um tema nacional como esse. Eu e o Hugo (Motta) estamos
trabalhando para buscar um encaminhamento que permita a votação imediata, sem
protelamento no Senado.
O fim da 6x1 impactará nos índices de
aprovação?
Nossos levantamentos internos indicam isso. O
país todo estava acompanhando. E atinge principalmente mulheres e jovens.
Os críticos da transição curta para a
diminuição da jornada dizem que o governo tem objetivos eleitorais…
Tudo que (o governo) faz dizem que é questão
eleitoral. Lembre-se, o Bolsonaro disputou a eleição em 2022 e, em agosto,
aumentou o Bolsa Família. Eles vão dizer que é eleitoral, mas vamos parar o
país? O Flávio Bolsonaro, quando o Messias foi derrotado, falou que o governo
acabou. Quebrou a cara. Ele se enrolou no maior escândalo financeiro da
história do Brasil. Da derrota do Messias para cá, o governo aprumou o passo
nas medidas que tem anunciado.
Como convencer Alcolumbre, que está chateado
com o governo, de colocar a 6x1 direto no plenário?
A política não é feita de chateação e mau
olhar. É o diálogo.
Ele está aberto ao diálogo?
Está. Muito. Eu falo com ele quase todo dia.
E como tem sido o tom dele?
Ele diz, reiteradamente: quer sentar com o
presidente e recompor a relação. É isso.
O presidente está disposto?
Está avaliando. O presidente teve uma agenda
muito frenética nesses dias. Eu vivi todas as campanhas do presidente, mas
nessa, em especial, nunca vi tanta coisa para ser mostrada. Essa campanha vai
ter três grandes eixos. Um é mostrar tudo que foi feito e que está sendo
entregue. Outro é mostrar os temas que fazem parte da conjuntura, em que a 6x1
é a mais relevante. A terceira é a disputa propriamente dita, em que é preciso
falar de futuro.
Houve traição do Alcolumbre em relação ao
Messias?
Não acompanhei esse processo. Cheguei aqui
(no ministério) na véspera da votação no Senado. Apresentei para o presidente
uma avaliação. Mas eram os nossos líderes do Senado que estavam comandando.
A decisão dos EUA de classificar CV e PCC
como terroristas terá impacto eleitoral?
Não acredito. Essa decisão é uma ameaça à
soberania. Ninguém pode invadir o Brasil a pretexto de combater o crime
organizado. Por que o governo americano não incluiu nessa classificação os
milicianos? Ajudar o Brasil no combate às facções é bem-vindo, mas respeitando
as regras e os caminhos do governo brasileiro.
E o que vai ser a disputa sobre o futuro? As
pesquisas mostram que existe uma percepção de fadiga de material.
Colocamos o país de pé em todos os
indicadores, econômicos e sociais. O que o Flávio Bolsonaro tem a oferecer para
o país, a não ser o único predicado dele, de filho do Bolsonaro? Não tem uma
ideia sobre nada. Quando deu uma ideia, foi dizer que era contra, que o país ia
quebrar, se aprovasse a 6x1. O segundo mandato tem que falar de esperança, além
de jogar pesadíssimo em universalizar a escola de tempo integral e avançar mais
ainda no combate ao feminicídio.
Como construir uma governabilidade sem tantos
problemas com o Congresso?
Vamos ter que repensar o presidencialismo de
coalizão. A experiência que eu tive como líder e agora aqui é que muitas vezes
a base não tem identidade com as diretrizes programáticas do governo. Eu sou da
tese de que você tem que alinhar 100%.
Mas qual o poder do governo, já que os
parlamentares têm as emendas impositivas?
Sou defensor das emendas. Porém, não pode ter
emenda, o cara receber e ficar votando contra o governo. Tem que exigir isso.
Não votou, não tem emenda. Nós temos que fazer uma concertação. Estou vendo
sinais muito positivos. Esses partidos do centro estão conversando muito
comigo. E querem repactuar isso com o novo governo. Aliás, acho até que pode
ter muitas novidades daqui para a eleição. A candidatura da extrema direita
está se esvaziando politicamente.
O senhor vê o Centrão se aproximando até na
campanha?
Fizeram um gesto muito importante (na votação
do fim da escala 6x1). Fazia tempo que eu não via o União Brasil e o PP
fecharem questão para votar.
Não foi pontual?
Sim, mas foi pontual numa questão estratégica
para o governo.
O PL vai ficar isolado?
A tendência é o Flávio se isolar, porque ele
não tem o que propor para o país.
O senhor acha que é o momento de enviar as
indicações do Banco Central?
Se eu pudesse dizer o que nós deveríamos
votar no Senado para encerrar tudo (até a eleição), seria: minerais críticos,
PEC da Segurança e a 6x1. E evitar a votação das pautas-bomba.
O Gabriel Galípolo no Banco Central foi uma
decepção para o governo?
Na minha opinião, não é de governo, é
inaceitável esse modelo de taxa de juros que temos no Brasil. O que leva um BC
a praticar alta taxa de juros é a inflação alta. Faz três anos que a inflação
está sob controle. Esse é um problema que impede o crescimento mais robusto da
economia.

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