Folha de S. Paulo
Campanha eleitoral indevida tem a guarda
compartilhada entre políticos do governo e da oposição
Legislação vigente foi revogada pela prática
permissiva, enquanto a Justiça se faz de desentendida
Soa a impertinência com o discernimento
alheio o embate de argumentos entre "especialistas" para definir se
há campanha
eleitoral antecipada, seja por parte de governistas ou de
oposicionistas.
Evidente que há. As provas jurídicas podem ser insuficientes, mas as comprovações factuais estão à vista. Faz mais de ano que não se fala de outra coisa na política, que partidos e candidatos se movimentam em torno do assunto, que o noticiário tem como referência a eleição de outubro. Pedem votos, sim.
Assim como se dizia em 2025 que 2026 já
começara, a campanha eleitoral começou muito antes. A disputa acontece de modo
permanente e de maneira mais acentuada quando entraram em cena as redes
sociais.
Nesse ambiente incontrolável, a legislação
ficou anacrônica e a tarefa da Justiça
Eleitoral tornou-se algo obsoleta ao submeter-se aos ditames de
regras ultrapassadas pelos fatos escancarados.
Só num cenário de faz de conta admite-se a
neutralidade do governo porque presidente e comitiva não participaram do desfile
panfletário, mas assistiram do camarote passistas fazendo o
"L" na avenida e referências ao "13" da urna eletrônica.
O caso do presidente da República chama mais
atenção devido à desproporcionalidade do poder e da visibilidade, mas
convenhamos que Luiz Inácio da Silva tem a companhia de governadores,
deputados, senadores e de todos os políticos que, no exercício de seus cargos,
atrelam suas ações aos respectivos interesses eleitorais.
A oposição posa de vestal, mas é o roto
falando do rasgado quando pede punições a Lula por
causa do enredo de uma escola de samba. Onde estavam todos eles antes disso?
Sabemos, já que cansamos de vê-los devidamente aboletados nos próprios
palanques fazendo o que a lei proíbe, mas a farra da permissividade há muito
autoriza.
Essa infração tem guarda compartilhada. É
ampla e irrestrita. Sendo assim, talvez fosse melhor que se revogassem as
disposições em contrário a fim de deixar que se locupletem todos e a Justiça
não se faça de desentendida.

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