Espaço para a queda dos juros se reduziu
Por Folha de S. Paulo
Impacto inflacionário da guerra no Oriente
Médio e do El Niño se soma ao de medidas eleitoreiras de Lula
Cenário torna complexa a próxima decisão do
BC; política monetária mais dura aumentará o estresse financeiro da população e
do governo
Novamente, o cenário econômico brasileiro se
deteriora de forma visível, o que tende a frustrar a expectativa de que a
taxa Selic,
do Banco Central,
pudesse cair de modo mais consistente ao longo deste 2026.
O que parecia um ciclo de afrouxamento
monetário controlado deu lugar, em poucas semanas, a um estreitamento dramático
do espaço para alívio.
Os fatores externos ajudam a explicar o
aumento do risco inflacionário. Como resultado do conflito no Oriente Médio, o
barril de petróleo Brent tem se mantido acima de US$ 90, elevando os custos de
diesel, fertilizantes e de insumos industriais em geral.
Ao mesmo tempo, o fenômeno climático El Niño promete impacto na produção e nos preços de alimentos. Projeções de mercado já apontam para encarecimento da alimentação no domicílio em torno de 7%, o dobro do esperado no início do ano.
A isso se soma a força inesperada da economia americana.
Dados robustos de emprego nos Estados Unidos reduzem as apostas de corte
agressivo de juros pelo
Federal Reserve, o que pode valorizar o dólar ante o real, como tem sido o caso
nos últimos dias.
No plano doméstico, o governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
alimenta a fornalha da inflação com
sua receita de sempre —estímulos
fiscais e creditícios que já somam cerca de R$ 150 bilhões.
O resultado é previsível: na pesquisa do
Banco Central, a projeção mais consensual dos analistas de mercado para o IPCA
do ano sobe há 12 semanas consecutivas e chegou a 5,09%, ante uma meta oficial
de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual.
Instituições financeiras também têm revisado
para cima suas estimativas para a Selic, que pode não cair abaixo de 14% até
dezembro, patamar refletido no mercado de juros futuros —que chegou a antever
corte para até 12% há alguns meses.
O efêmero otimismo do início do ano se
enfraquece. O Ibovespa recuou cerca de 8% desde abril; o real também patina,
com retirada de recursos do país.
A situação do BC é complexa. Não há dúvida de
que o espaço para afrouxamento monetário é hoje reduzido ou mesmo inexistente,
diante dos numerosos choques de oferta e da contínua imprevidência do
Executivo.
Reduzir juros agora seria interpretar como
temporários choques que, na prática, têm se mostrado persistentes.
A Selic elevada, por outro lado, cobrará seu
preço. Mesmo com impacto na atividade amortecido, por ora, pelas medidas
eleitoreiras, vai se ampliando o estresse financeiro das famílias, das empresas
e do governo.
Inadimplência e pedidos de recuperação judicial
continuam a atingir novos recordes, mesmo sem recessão. Mais preocupada com
as eleições,
a administração petista brinca com fogo. O risco não é apenas de inflação, mas
novamente de um esgotamento da capacidade de expandir gastos públicos, dado o
aumento acelerado do endividamento.
O Líbano acossado entre Israel, EUA e Irã
Por Folha de S. Paulo
Tel Aviv faz maior ocupação militar do século
no vizinho árabe, minando tentativa de paz mediada pelos EUA
Trump se diz agastado com Netanyahu, mas é
difícil que Washington prescinda de seu aliado na região; Irã renova apoio ao
Hezbollah
País de grande heterogeneidade
étnico-confessional, o Líbano sempre
foi propenso a disputas internas sangrentas e interferência externa, como se
viu na guerra civil que o assolou de 1975 a 1990.
Lar histórico de grandes empreendedores,
prospera nos intervalos de paz, que infelizmente são raros. Agora, a combinação
de atores exógenos e fragilidade institucional nubla mais uma vez o futuro da
maioria dos 5,9 milhões de libaneses.
De um lado, Israel volta
a ocupar sua parte sul após um hiato de 26 anos. No conflito civil do vizinho,
o Estado judeu aliou-se a facções cristãs e drusas, com impacto terrível.
Daquela época emergiu na comunidade xiita, que representa talvez um terço da
população, o Hezbollah.
Misto de grupo político legítimo e
instrumento de terror geopolítico do Irã, a milícia
cresceu e suplantou as forças de Beirute.
Escaramuças evoluíram para duas guerras
abertas, em 2006 e em 2024, sem que o governo ou a inócua tropa da ONU no país
pudessem fazer algo.
A guerra lançada pelos belicosos Donald Trump e Binyamin
Netanyahu contra Teerã voltou a chacoalhar a região em
fevereiro. O Hezbollah entrou no conflito atacando Israel, levando a um assalto
que não era visto em um quarto de século contra o Líbano.
O pequeno país sangrou. Os libaneses contam
cerca de 3.200 mortos, número semelhante ao dos iranianos, mas com a diferença
populacional óbvia: no primeiro, são 54 por 100 mil habitantes, ante 3,5/100
mil no segundo.
Um cessar-fogo foi anunciado em 17 de abril e
renovado, mas já houve duas intervenções
americanas visando conter a violência continuada. Só que os arranjos
envolvem apenas Tel Aviv e Beirute, na esperança vã de que isolar o Hezbollah
levará à paz.
Atraindo críticas do próprio Trump e perto de
uma eleição crucial, Netanyahu lançou uma operação terrestre inaudita desde
2000 no país. Suas tropas operam até ao norte do rio Litani, que marcava a
pretendida zona tampão na região sul.
Ataques
pesados contra Beirute ocorreram na quinta-feira (4), um dia após os
EUA anunciarem uma trégua para tentar colocar o Exército libanês em posições do
Hezbollah. Se o republicano se diz agastado, a história adverte contra
expectativas de que Washington abandone Tel Aviv.
Com o próprio cessar-fogo entre EUA e Irã desafiado, Trump não deverá prescindir de seu aliado na região. Nesta sexta (5), o Irã renovou o apoio ao Hezbollah. Acossado pelo embate maior, o Líbano segue sua triste sina.p
Ataques dos Estados Unidos ao Pix não param
de pé
Por O Globo
Chega a ser irônico que o país pioneiro na
economia digital se queixe do uso inteligente de tecnologias de ponta
Não fazem sentido as críticas do governo
americano ao Pix.
A conclusão da investigação contra o Brasil movida pelo Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) reproduz reclamações de
bandeiras de cartões de crédito que consideram sofrer concorrência desleal.
Basicamente, elas têm duas queixas. Primeiro, dizem que o Banco Central (BC)
atua, ao mesmo tempo, como regulador e operador desse meio de pagamento
digital, incorrendo em conflito de interesses. Segundo, alegam que os demais
meios não têm como concorrer com o sistema de custo zero oferecido pelo governo.
É evidente que nenhuma das queixas para de pé.
O Pix é um sistema aberto que pode ser usado
por qualquer empresa, inclusive as americanas — a própria Visa criou uma
subsidiária para explorar o mercado de transações instantâneas valendo-se de
iniciativas do BC. E sistemas de pagamentos instantâneos não são exclusividade
brasileira. Antes do Pix, a Índia já tinha sua Interface Unificada de
Pagamentos (UPI). No Reino Unido, existe o Faster Payments, na Austrália o NPP,
em Cingapura o PayNow, na Tailândia o PromptPay. Os próprios americanos criaram
o Zelle, serviço da Early Warning Services — controlado por grandes bancos como
JP Morgan Chase e Bank of America —, que também sofre resistência das bandeiras
de cartão, receosas de perder a receita da cobrança de taxas.
O BC não opera o Pix por acaso. O sistema financeiro
brasileiro tem longa história de convívio com surtos inflacionários. Para
proteger o dinheiro dos efeitos corrosivos da inflação, as instituições
financeiras vendiam aplicações de prazos cada vez mais curtos. Para isso, se
viram obrigadas a desenvolver tecnologias avançadas. Um efeito inesperado do
descontrole de preços foi ter florescido no Brasil um dos sistemas financeiros
mais ágeis e modernos do mundo, cuja operação era centralizada no BC. Antes do
Pix, já havia compensação em 48 horas de cheques, diária de DOCs e instantânea
de TEDs — enquanto os americanos mantinham o hábito de mandar pelo correio
cheques que por vezes levam semanas para cair na conta depois de depositados.
A ideia de um sistema instantâneo de
pagamentos foi uma evolução natural do que já existia. Ela surgiu no BC em
2016, e o Pix foi lançado em 2020, com a intenção de aumentar a concorrência,
reduzir o custo das transferências bancárias e ampliar a inclusão financeira.
Os objetivos foram amplamente atingidos, e a bancarização crescente da
população beneficia as próprias empresas americanas que reclamam. Mais de 170
milhões de brasileiros já fizeram pelo menos um Pix. As operações passam de 200
milhões por dia e, em janeiro, somaram 7 bilhões. Em outubro, transitaram pelo
sistema mais de R$ 3 trilhões, ou três PIBs mensais.
Os cartões de crédito se adaptaram aos
costumes brasileiros e hoje vivem mais dos juros implícitos no parcelamento que
das taxas que afirmam perder para o Pix. Há temor de que o sistema se espalhe
pelo mundo e até de que sirva de base a uma moeda alternativa ao dólar. Ora,
chega a ser irônico que os Estados Unidos, pioneiros em avanços na economia
digital, se incomodem com o uso inteligente de tecnologias de ponta. Em vez de
acionar lobbies em Washington, as empresas americanas deveriam tratar de
acordar para não perder a corrida global de pagamentos instantâneos para
sistemas desenvolvidos em países como Índia ou Brasil.
Frota de bicicletas e autopropelidos desafia
prefeituras de grandes cidades
Por O Globo
Como o Rio, São Paulo estabeleceu normas
sensatas. O difícil será zelar pelo seu cumprimento
A decisão da Prefeitura de São Paulo de
regulamentar o uso de patinetes, bicicletas elétricas e ciclomotores é
necessária, mas pode não bastar para disciplinar o espaço urbano disputado por
toda sorte de veículo, em particular as minimotos movidas a energia elétrica,
conhecidas como “autopropelidos”. Mais acessíveis que motos, esses veículos
invadiram ruas, ciclovias e pistas de alta velocidade. O resultado era
previsível: riscos maiores para todos, em especial os pedestres. A situação
requer ampliação e reforma da infraestrutura de ciclovias abertas nas grandes
cidades, além de regras de sinalização e responsabilização de quem se desloca
neles.
A morte de um menino de 9 anos e da mãe no
Rio, atropelados por um ônibus, deixou claros os perigos do tráfego sem regras.
A tragédia aconteceu numa avenida sem ciclovia, quando os dois se deslocavam
numa bicicleta elétrica. As estatísticas corroboram uma epidemia de acidentes
do tipo, envolvendo também pedestres. De janeiro a julho do ano passado, o SUS
registrava 127 mil acidentes com vulneráveis no trânsito: 98
mil motociclistas e mais de 10 mil ciclistas, incluindo os que transitavam com
bicicletas elétricas, além de 19 mil pedestres. Entre janeiro e setembro
morreram 1.992 motociclistas, 916 pedestres e 258 ciclistas — quase um por dia.
Os acidentes com bicicletas elétricas e
outros veículos autopropelidos no Rio mais que triplicaram de 2024 para 2025,
de 65 para 211, segundo o Corpo de Bombeiros. De 2023 para 2024, os acidentes
com patinetes elétricos, bicicletas com autopropulsão, ciclomotores, motonetas
ou lambretas foram multiplicados por oito, de 274 para 2.199, de acordo com a
Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio. No mesmo período, foram construídos
na cidade apenas 7,7 quilômetros de ciclovias.
Impõe-se a necessidade de ampliar a
infraestrutura para atender a essa mudança importante no trânsito nas grandes
cidades, sem prejudicar os pedestres. São Paulo limitou a velocidade de
bicicletas e autopropelidos a 20km/h nas ciclovias ou ciclofaixas (no Rio são
25 km/h) — velocidades, para o pedestre, ainda elevadas. Também proibiu a
circulação em vias rápidas e sem acostamento. Vetou a circulação em calçadas e
qualquer área compartilhada por pedestres e bicicletas sem motor. A portaria de
regulamentação em São Paulo está em consulta pública. Por determinação do
Contran, são exigidos emplacamento e habilitação específica para ciclomotores e
veículos elétricos acima de uma determinada potência ou que superem 32km/h.
As regras vão na direção certa, mas tudo dependerá da capacidade das prefeituras de fiscalizar seu cumprimento com o devido rigor e de aplicar as punições necessárias. Não se pode desprezar a falta de espaço físico para a frota crescente de pequenos e potencialmente perigosos veículos elétricos. É fácil criar normas e baixar portarias. O difícil é zelar pelo seu cumprimento.
A formação docente está na UTI
Por O Estado de S. Paulo
Mais de 1/3 dos avaliados no chamado Enem dos
Professores não domina o básico para ensinar. Um retrato de licenciaturas
frágeis que comprometem o futuro da escola pública
Mais de 1/3 dos professores avaliados pelo
Ministério da Educação (MEC) não tem condições de dar aulas, segundo os
resultados da Prova Nacional Docente, divulgados recentemente. A primeira
edição da prova, conhecida como Enem dos Professores, teve a adesão de 1.508
municípios e 22 redes estaduais de ensino. O exame mostrou que a maior falha na
formação docente se dá em Matemática, área em que mais da metade dos avaliados
não alcançou o nível básico estabelecido pelo governo federal. Entre 760 mil
participantes, 266 mil ficaram abaixo do patamar mínimo de proficiência. Uma
tragédia, a ponto de o diretor-executivo da organização Todos Pela Educação,
Olavo Nogueira Filho, assim resumir o quadro: a formação inicial dos
professores brasileiros está na UTI.
Antes fosse hipérbole retórica. Um país onde
tantos profissionais responsáveis por alfabetizar, ensinar Matemática e formar
leitores não dominam o conteúdo essencial de sua própria atividade compromete o
futuro de gerações. O problema não começa no professor que foi mal na prova, e
sim nas licenciaturas frágeis, nos cursos de baixa qualidade, na expansão
desordenada da educação a distância (EAD) e na tolerância oficial com
instituições que diplomam sem formar.
Que a cobrança do domínio de conteúdo de quem
vai ensinar não soe como elitismo ou desprezo pela realidade socioeconômica dos
nossos professores. Trata-se do mínimo. Nenhuma política educacional séria pode
se sustentar sobre a fantasia de que basta boa vontade para ensinar. Professor
precisa conhecer o que ensina, saber como ensinar e dispor de condições para
exercer sua profissão. Valorizar o professor é levá-lo a sério. Isso significa
exigir formação rigorosa, selecionar melhor, remunerar adequadamente e criar
carreiras capazes de atrair bons profissionais.
Durante décadas, o Brasil preferiu fugir
dessa verdade elementar. Multiplicou planos, metas e conferências, mas conviveu
com vícios de origem que levam o País a formar mal justamente aqueles de quem
depende a melhora da escola pública. O resultado está nas salas de aula, no
desempenho insuficiente dos estudantes, na desigualdade que se perpetua e,
agora, nos números da Prova Nacional Docente. Assim se fecha um ciclo perverso:
a escola básica deficiente alimenta licenciaturas frágeis.
Não há como enfrentar esse quadro sem encarar
parte relevante dos cursos de formação. Por anos, o Brasil permitiu que
licenciaturas proliferassem com baixa exigência acadêmica, pouca integração com
a escola real e escasso compromisso com o domínio dos conteúdos. A formação pedagógica,
quando existe, frequentemente se perde em generalidades. Em paralelo, a
formação específica, em muitos casos, não assegura o conhecimento que será
cobrado em sala de aula. A prática supervisionada é muitas vezes tratada como
formalidade burocrática e, na tradição corporativista do País, como conspiração
de gestores públicos para perseguir professores.
A expansão da educação a distância agravou
tamanha distorção. Seu problema é fazer da formação docente um produto barato,
escalável e descolado da experiência concreta da escola. Ensinar exige relação,
observação, acompanhamento e capacidade de lidar com alunos reais, não só com
plataformas e avaliações remotas. A consequência inevitável é o prejuízo
imposto a milhões de crianças e jovens. Felizmente, o MEC começou a construir
diques de contenção à farra da EAD.
A Prova Nacional Docente é avanço, desde que
não seja tratada como solução isolada. Avaliar é necessário, por óbvio, mas o
exame, por si, não reformará a formação docente. Será inútil se seus resultados
forem recebidos com resignação ou relativização corporativa. A prova deve
orientar políticas concretas: reestruturar cursos ruins, elevar a exigência das
licenciaturas, aproximar universidades e escolas, fortalecer estágios e impedir
contratações sem aferição mínima de competência.
A tragédia revelada pelo Enem dos Professores
deveria produzir um sentimento de vergonha nacional. Não a vergonha que humilha
o docente individualmente, mas a vergonha republicana que obriga o Estado, as
universidades, as redes de ensino e a sociedade a reagir. Se a formação docente
está na UTI, convém perguntar se o Brasil terá coragem de tratá-la como
emergência nacional.
Transparência acima das conveniências
Por O Estado de S. Paulo
Projeto aprovado pela Câmara aprimora a LAI,
mas resistência do governo e histórico recente mostram que a opacidade segue
seduzindo diferentes grupos políticos
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do
projeto que endurece regras sobre imposição de sigilo a gastos públicos
representa um avanço relevante para a transparência no País. A Lei de Acesso à
Informação (LAI), em vigor desde 2012, consolidou-se como um dos mais
importantes instrumentos republicanos da democracia brasileira. Ao inverter a
lógica segundo a qual o poder público tratava informações oficiais quase como
propriedade privada de governos e autoridades, a LAI ampliou o controle social,
fortaleceu o jornalismo investigativo e ajudou a expor irregularidades que
dificilmente viriam à tona sem mecanismos institucionais de fiscalização.
O texto aprovado pela Câmara aprimora pontos
que, nos últimos anos, passaram a ser explorados por diferentes governos e
instituições para restringir o acesso a dados de interesse público. O projeto
prevê que despesas como diárias, hospedagem, alimentação, passagens,
deslocamentos e gastos pagos por suprimento de fundos não possam ficar
escondidas sob justificativas de segurança ou proteção de dados pessoais.
Também estabelece que a proteção a autoridades se restrinja a informações
operacionais, vedando o sigilo sobre os gastos em si, brecha frequentemente
utilizada para blindar despesas públicas.
A proposta ainda cria mecanismos de
responsabilização para agentes públicos que utilizarem a classificação de
sigilo para esconder irregularidades. Outro ponto prevê a desclassificação
automática de informações caso os recursos deixem de ser analisados no prazo de
120 dias.
Mas convém não romantizar os súbitos surtos
de transparência da política brasileira. O projeto foi apresentado e conduzido
por parlamentares bolsonaristas que enxergaram no atual governo um alvo
politicamente conveniente. O debate em plenário foi dominado por críticas às
restrições de acesso envolvendo viagens do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, agendas da primeira-dama Rosângela “Janja” da Silva e gastos do Palácio
do Planalto. Também foi revelador que partidos da base governista tentassem
retirar, por meio de destaque, justamente o trecho que permite ao Congresso
rever classificações de sigilo impostas pelo Executivo. A tentativa acabou
derrotada.
Seria ingenuidade usar essa constatação para
desmerecer o mérito das mudanças aprovadas. O governo Lula acumula episódios
preocupantes na área de transparência. A invocação ampla de argumentos
relacionados à segurança institucional e à proteção de dados pessoais vem se
transformando em mecanismo defensivo para limitar o escrutínio público.
O problema está longe de se restringir ao
Executivo. Nos últimos anos, o próprio Supremo Tribunal Federal passou a
ampliar interpretações de segurança institucional para restringir a divulgação
de informações sobre viagens, diárias e deslocamentos de ministros da Corte. Em
alguns casos, dados que deveriam estar disponíveis de forma ativa deixaram de
ser publicados ou passaram a enfrentar resistência quando solicitados via LAI.
Isso tampouco autoriza a narrativa
oportunista segundo a qual o bolsonarismo teria se convertido em guardião da
transparência. O governo Jair Bolsonaro banalizou o uso de sigilos, transformou
exceções em regra e recorreu à ocultação de informações de interesse público. O
sigilo de cem anos virou expediente corriqueiro para blindar autoridades,
agendas, documentos e gastos públicos.
Ainda assim, o fato de diferentes grupos
políticos instrumentalizarem o debate sobre transparência não reduz a
importância institucional do avanço aprovado pela Câmara. Transparência não
pode depender da identidade de quem ocupa o poder nem funcionar apenas como
arma circunstancial contra adversários. O acesso à informação não pertence à
esquerda, à direita, ao lulismo ou ao bolsonarismo. Trata-se de um princípio da
República e da democracia brasileira. Quanto menos espaço houver para governos
esconderem despesas, restringirem dados públicos ou utilizarem o sigilo como
mecanismo defensivo, mais saudável será a democracia brasileira.
A violência contra a mulher
Por O Estado de S. Paulo
Cresce a percepção da gravidade desse tipo de
crime, sinal de maturidade
Pesquisa Datafolha divulgada recentemente
revelou que a violência contra a mulher é considerada hoje o crime mais grave
cometido no Brasil. Segundo o levantamento encomendado pelo Movimento Mulher
360, 61% dos entrevistados afirmaram que a violência contra a mulher é mais
alarmante do que o tráfico de drogas (16%), o assalto à mão armada (10%) e o
uso de drogas nas ruas ou locais públicos (6%). E, independentemente do sexo,
esse drama social preocupa a todos: três em cada quatro mulheres veem essa
prática como a mais grave, e, entre os homens, a taxa é de dois em cada quatro.
Os números são bastante eloquentes: dão a
real dimensão de como a sociedade brasileira está cada vez mais ciente de que
existe um problema e de que esse problema é, sobretudo, grave. Tudo isso indica
que há uma crescente conscientização dos homens e das mulheres sobre crimes que
não raro acontecem no ambiente doméstico, onde as meninas e as mulheres deveriam
se sentir e estar mais seguras.
Como bem afirmou ao Estadão a diretora
executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, “os dados mostram que
a pauta sobre a violência contra a mulher deixou de ser percebida como um tema
privado ou um tema feminino”. Aos poucos, vai ficando cada vez mais distante a
ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Mais do que
isso: firma-se a ideia de que a violência contra a mulher é um tema de
segurança pública.
É evidente que ainda há desafios. Segundo a
pesquisa, 45% dos entrevistados entendem que é tolerável um homem impedir uma
mulher de sair de casa para uma comemoração, bem como 41% consideram que é
tolerável um homem poder controlar as amizades de uma mulher com quem tem um
relacionamento. Ou seja, uma parcela significativa de brasileiros parece não
ver como violência psicológica o cerceamento do direito de ir e vir, a
perseguição e a vigilância.
Apesar de tudo isso, as respostas dadas pelos
entrevistados não autorizam afirmar que o Brasil esteja parado. Ao contrário:
há muitas décadas, o País vem marchando na direção de conquistas civilizatórias
no combate à violência contra a mulher. Os movimentos de luta pelos direitos
das mulheres, o engajamento feminino na política, a atuação do Congresso
Nacional na aprovação de marcos legais, como a Lei Maria da Penha e a Lei do
Feminicídio, as políticas públicas implementadas pelo Poder Executivo, nas três
esferas da Federação, como as Delegacias da Mulher e as Casas da Mulher
Brasileira, provam que o Estado brasileiro tem agido.
Ao captar a sensibilidade dos entrevistados em relação ao tema, a mencionada pesquisa autoriza algum otimismo: a sociedade brasileira parece ter amadurecido nesse aspecto. E, se a violência contra a mulher é considerada grave, é porque esse crime é também intolerável. Nada melhor do que diagnosticar corretamente um mal e reconhecer a sua severidade para que se possa buscar a melhor forma de combatê-lo. O Brasil já avançou muito e pode avançar muito mais.
A Copa é o espelho do mundo
Por Correio Braziliense
A Copa do Mundo sempre foi mais do que
futebol. Desde 1930, funciona como espelho do tempo — e, em 2026, essa condição
é mais evidente
Antes de a bola rolar, todos os jogadores,
titulares e reservas, formarão um círculo no centro do gramado na execução dos
hinos nacionais em uma das inovações da Fifa. Por alguns minutos, não haverá
ataque nem defesa, adversários nem fronteiras. Apenas um planeta reunido em
torno da bola. A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Desde 1930,
funciona como espelho do tempo — e, em 2026, essa condição é mais evidente.
Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o título em um formato expandido,
distribuído em três sedes: Estados Unidos, México e Canadá. Serão 1.248
jogadores, 104 partidas em 39 dias, em uma engrenagem logística e tecnológica
sem precedentes.
Mas o futebol chega a esse cenário em um
mundo tensionado. A Rússia segue sob sanção em razão da guerra contra a
Ucrânia. O Irã entra em campo em meio a uma relação de hostilidade com os EUA,
principal sede do torneio, cujo presidente, Donald Trump, recebeu da Fifa o
Prêmio da Paz no sorteio dos grupos. Os anfitriões simbolizam as contradições:
falam em integração continental enquanto enfrentam debates intensos sobre
imigração na fronteira mexicano-americana e insinuações políticas sobre uma
eventual anexação do Canadá, além das investidas expansionistas pela América do
Sul e Caribe.
Se a política revela fraturas, o futebol
expõe mudanças estruturais. A expansão do Mundial redesenha o mapa do evento.
Nunca houve presença tão ampla dos países de maioria muçulmana. De Marrocos a
Uzbequistão, de Senegal a Jordânia, de Argélia a Iraque, o torneio representa
com mais fidelidade a diversidade cultural e religiosa. Nessa nova ordem, o
contraste chama atenção: enquanto essa ampliação se consolida, Israel, por
exemplo, segue deslocado: disputa as Eliminatórias pela Europa. Ausente de uma
Copa desde 1970.
Novas histórias emergem nessa transformação.
Ex-Zaire, a República Democrática do Congo volta à Copa após 52 anos em meio à
crise causada pelo surto de ebola e desembarca em países que também enfrentam
problemas sanitários, sobretudo em razão do aumento de casos de sarampo. Cabo
Verde e Curaçao simbolizam a abertura de horizontes antes improváveis. O
Mundial vira espaço de inclusão e de reconstrução no cenário global, caso do
Haiti.
Nem mesmo as grandes potências passam imunes
às mudanças. Tetracampeã, a Itália está fora da Copa pela terceira vez
consecutiva, em uma decadência no Mundial sem precedentes. O pentacampeão
Brasil, único país presente em todas as edições, e maior campeão do torneio,
chega atravessado por divisões internas que ultrapassam o futebol. A
polarização política entre bolsonaristas e lulistas impacta a Seleção. Neymar
tornou-se, ao mesmo tempo, símbolo, debate e divergência em um país que raramente
separa campo e contexto.
Há, ainda, um elemento inevitável de passagem
do bastão. A Copa de 2026 marca as despedidas de Lionel Messi, Cristiano
Ronaldo, Luka Modric, Manuel Neuer e Neymar. Encerramento simbólico de um
período que viralizou ainda mais o futebol na era das redes sociais e marca a
transição para a inteligência artificial.
Por isso, a Copa de 2026 vai além da disputa
pelo título. Ela reúne conflitos e encontros, fronteiras e conexões, tecnologia
e tradição, despedidas e começos. Expõe um mundo simultaneamente mais conectado
e mais fragmentado.
O círculo dos hinos nacionais no novo protocolo da Fifa dura apenas alguns minutos. Mas, talvez, nenhuma imagem traduza melhor a Copa do Mundo de 2026: um planeta cheio de diferenças, conflitos e interesses divergentes que, por algumas semanas, aceita ocupar o mesmo espaço. E compartilhar o mesmo olhar.
Em defesa da saúde pública
Por O Povo (CE)
Os números dão uma ideia da grandiosa
dimensão dos atendimentos e, sobretudo, da relevância do sistema público de
saúde. Entre janeiro e abril de 2026, o Instituto Doutor José Frota (IJF), em
Fortaleza, realizou 20.748 atendimentos na emergência. De acordo com o
levantamento divulgado pelo O POVO, nesse período as quedas foram as principais
causas de assistência médica: 29,24% dos casos atendidos.
As três principais causas dos atendimentos na
emergência da instituição, nesse período, foram: quedas (6.068), acidentes com
motocicletas (2.782) e corpo estranho (1.879). É válido ressaltar que esses
também foram os motivos que mais levaram a procura por assistência no setor nos
dois últimos anos.
Nos últimos meses, vários têm sido os casos
com bastante repercussão atendidos pelo sistema público que reforçam a
importância do fortalecimento da rede. Um deles foi a cirurgia de reimplantação
das mãos de Ana Clara de Oliveira, que sofreu uma tentativa de feminicídio no
dia 1º de maio, em Quixeramobim. Além das perfurações pelo corpo e rosto, a
mulher teve as mãos arrancadas em um ato de violência cometido pelo cunhado com
uma foice. A cirurgia, que teve 12 horas de duração, foi considerada de alta
complexidade e reuniu 15 profissionais, entre cirurgiões de mão e microcirurgia,
médico anestesista, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais integrantes da
equipe multiprofissional.
O procedimento cirúrgico envolveu
reconstruções ósseas, musculares, tendíneas, vasculares e nervosas, sendo
considerado um dos mais complexos da especialidade. Ressalte-se que o IJF é
tido como referência em trauma e cirurgias reconstrutivas no Ceará.
Também em maio, Fortaleza recebeu a primeira
aplicação de polilaminina no Norte e Nordeste do Brasil, em um procedimento
considerado um marco para a Medicina Regenerativa na região.
Nicolas Henrique Lima Dantas, de 20 anos,
recebeu, além da aplicação de polilaminina, uma nova esperança de recuperar
parte dos movimentos. A substância experimental é utilizada no tratamento de
paraplegia e tetraplegia. O procedimento é considerado inédito no Sistema Único
de Saúde (SUS) do Ceará.
O acesso à saúde é um direito, e a rede de
assistência precisa ser, cada vez mais, valorizada e defendida. O SUS, que
completa 36 anos, é o maior sistema público, gratuito e universal de saúde. É
claro que ainda há desafios a serem enfrentados, como a demanda por mais
equipamentos e infraestrutura, a necessidade da expansão do orçamento para
garantir mais qualidade, a remuneração justa dos profissionais e a diminuição
da superlotação nas unidades, por exemplo.
Não se pode, porém, deixar de reconhecer todos os procedimentos realizados pelo Sistema dia a dia no atendimento básico e de alta complexidade - desde as habituais vacinas até as cirurgias complexas de transplantes de órgãos, passando por demais operações que dão mais qualidade de vida e bem-estar à população. Promover a justiça social passa também por respeitar o sistema público de saúde e reconhecer o que tem sido feito.

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